Errare humanum est
A capacidade de estabelecermos relações e de amarmos, está gravada no que somos, como seres imperfeitos
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quinta-feira, 02 de julho de 2026
A capacidade de estabelecermos relações e de amarmos, está gravada no que somos, como seres imperfeitos
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
Esta frase latina conhecida pelos leitores é, na verdade, mais do que um ditado popular. Trata-se do resgate da essência que nos compõe. Errare, não apresentado como defeito e, sim, como reconhecimento do que somos e simultaneamente evidência da propensão para um aprendizado constante. Santo Agostinho, já bem lembrava que errare era humano, mas perseverar no erro era “coisa diabólica”! Há com efeito em nós, algo inato que bem nos caracteriza: uma indisposição genuína a tolerar a constância do erro. Mas, esse desejo cravado no nosso DNA não significa a abolição das limitações que nos são inerentes.
Assim, em tempos de Inteligência Artificial, manipulação de algoritmos, conexões quase infinitas e substituição do homem por máquinas como nunca se viu, há que investir na preservação do humano enquanto tal. E aqui, sem eufemismos, refiro-me ao errare enquanto humano. Sim, caro leitor! Precisamos investir na aceitação e valorização das nossas limitações! São elas que nos salvam, enquanto seres humanos, insubstituíveis por qualquer tipo de “perfeição” androide! O errare, simétrico à incapacidade de sabermos tudo em qualquer tempo e lugar, dá-nos um brilho e uma cor sui generis imperdíveis. Se errare é humano e o desconforto com o erro também o é, nem por isso somos menos felizes encontrados numa perene contingência.
O papa Leão XIV, na sua recente encíclica Magnífica Humanitas (magnífica humanidade), foi brilhante na abordagem da especificidade da pessoa humana, versus IA (ou seja lá o que for)! Trata-se em última análise, segundo ele, salvaguardar a pessoa humana em época de euforia quase inconsequente, com a Inteligência Artificial. Faz uma crítica severa ao transumanismo e ao pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. Para Leão, essa superação é indesejável e perversa. Limitação não é defeito! É elemento constitutivo do ser humano. É na nossa fragilidade que encontramos o terreno privilegiado para encontrar Deus e o outro. Somos “magníficos e feridos”, diz o papa e nada nos pode substituir, porque isso não é atribuição secundária!
A capacidade de estabelecermos relações e de amarmos está gravada no que somos, como seres imperfeitos. O sofrimento, os desejos, o inconformismo, convivem com a empatia e a compaixão que melhor nos definem. Só um ser humano entenderá outro ser humano! Nenhuma máquina derramará uma lágrima por alguém! E aqui, prendo-me a pensar no que seria um departamento de recursos humanos de uma empresa, entregue à IA! Que tipo de “objetividade” esperaríamos de um computador programado para selecionar sob rígidos critérios incutidos por mentes, em muitos casos, discriminatórias! A outra versão já conhecemos bem: pessoas que “choram com os que choram e que riem com os que riem”. A ausência disso em nosso meio, apelidamos com propriedade, de desumanização! E é isso que ninguém deseja!
Vejo certa ansiedade no gênero humano com o advento da IA. Concordo que muitos empregos serão “roubados” e isso já está acontecendo na China e nos EUA, onde estão inclusive revendo os cursos universitários, eliminando os mais vulneráveis. Contudo, acredito piamente que o impacto não será tão “catastrófico” como se apresenta. Na humanidade, os robôs terão o impacto positivo que as máquinas tiveram na revolução industrial e na agricultura no século passado. Mas para isso (e o papa alerta) impõe-se uma reflexão seríssima, uma epistemologia pertinente, que aborde as motivações do desenvolvimento da IA, quem a controla e legislação para os seus limites. Sem isso, o prejuízo vai muito além da questão laboral!
Quanto ao título do artigo, estou plenamente convencido, que seres humanos “perfeitos” são os que constroem pontes e entrelaçam suas limitações e erros a serviço de uma sociedade que mitigue o sofrimento de uma maioria de deserdados.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina


