Maria Lucia Victor Barbosa
No passado, quando os meios de transporte e comunicação eram primitivos, as notícias corriam de boca em boca e diziam respeito apenas aos assuntos corriqueiros, às intrigas familiares. As poucas novidades que eventualmente afetavam como um todo uma aldeia de camponeses, um povoado, uma cidade da antiguidade ou um feudo medieval, provinham das autoridades políticas e religiosas que no fundo eram uma coisa só. Essas ‘‘notícias’’ chegavam às pessoas em forma de avisos de impostos a pagar, outros castigos ou pregações messiânicas. Imperava a tradição e as mudanças eram lentas.
Portanto, o mundo de outros milênios se restringia aos pequenos círculos de convivência. Era exíguo socialmente e restrito aos acanhados limites territoriais dentro dos quais a maioria ficava praticamente confinada. Mas apesar de todas as dificuldades, às quais só resistiam os mais fortes, tudo estava por ser descoberto, inventado e conquistado. Os audazes, os criativos, os conquistadores, sabiam que alguma coisa mais ampla os esperava. Eles iam à luta com esperança e prazer, enquanto a maioria vegetava nas conchas dos seus pequenos espaços clânicos. Para estes, tudo estava pronto. Contudo, graças aos impetuosos, aos ambiciosos, aos curiosos, as transformações foram acontecendo e os ciclos históricos se sucederam em novas etapas repletas de mudanças.
Mas é de se perguntar: seriam os homens do passado remoto mais felizes, mesmo não tendo os confortos surgidos graças à evolução da ciência e da tecnologia? Seriam eles menos providos de conhecimentos? Ou teriam algum tipo de conhecimento que se perdeu?
Sabe-se que em civilizações muito antigas como a egípcia, já existiam conhecimentos que se equiparam aos atuais na área científica, e que na sua misteriosa sabedoria esotérica os egípcios eram insuperáveis. Chegam mesmo a afirmar os egiptólogos que, apesar das recentes descobertas arqueológicas, somente a ponta de um véu foi levantado sobre a terra dos faraós. Talvez por isso ela fascine tanto o homem moderno, que tenta ir em busca de seu passado para reencontrar-se.
E o que dizer da Pérsia? Da Babilônia? Da Grécia Antiga, onde num determinado período de tempo se aglutinou a essência de toda filosofia até hoje conhecida? Do portentoso Império Romano, com suas mil e uma invenções práticas, leis perfeitas e exércitos invencíveis? Sim, havia esplendores que hoje se desconhece naquele mundo de estreitas fronteiras, de hierarquias rígidas, de arcana sabedoria, de ritmo lento de tempo e espaço reduzido.
Agora o tempo se alterou e o espaço se dilatou. Diluem-se as fronteiras na área comercial, o que é chamado de globalização, enquanto a mundialização afeta costumes, valores e crenças. Nada disso é causado unicamente pelo neoliberalismo, como pensam alguns, mas provém do avanço acelerado da ciência e da tecnologia, que vinham evoluindo lentamente desde há muitos milênios, e explodiu nesse século.
No rastro das invenções emergiu o todo-poderoso computador, senhor de uma nova era. Na Internet, outro tempo e outro espaço foram criados, e assim aflorou o signo da velocidade. Por conta disso, tudo vai se alterando, pois como afirma o sociólogo Manuel Castells: ‘‘Vivemos uma revolução tecnológica que transformou nosso modo de pensar, produzir, consumir, negociar, administrar, comunicar, viver, morrer, fazer guerra, fazer amor’’.
Existem, contudo, os paradoxos de nossa civilização. Num mundo onde tudo vai se tornando simultâneo através dos meios de transporte, da televisão e da Internet, os valores e as tradições se perdem, sem que outros sejam colocados no seu lugar. E assim, o homem comum se sente perdido. Na sua perplexidade, necessita achar um culpado para o vago mal-estar que o acomete. Pode ser o neoliberalismo, que não sabe bem o que é. Ou a globalização, conceito que igualmente lhe escapa. Então, este ser sempre inconformado, verga sob sua própria invenção e às vezes amaldiçoa o que pode ser útil ou lhe trazer enormes benefícios.
O homem do signo da velocidade é, portanto, o homem duplicado. De um lado, pertence a era da massificação num planeta que se tornou linear e simultâneo. Tudo ou quase tudo é produzido em série e consumido em massa. Se isso propicia o acesso da maioria aos bens de consumo que antigamente eram inacessíveis às classes mais baixas, também gera a quantificação e a padronização, o que torna a vida medíocre em muitos aspectos como, por exemplo, naqueles relativos à arte.
No vácuo dos valores e tradições todos são músicos, poetas, pintores, escritores etc. Vive-se na idade do teatro do palavrão, da literatura vulgar, da poesia sem rima nem espírito, da música insossa que muitas vezes não passa de ruídos irritantes. E se a arte é reflexo de cada época, a atual, obscena, angustiada, sem refinamento nem qualidade, reflete o homem-massa perdido de si mesmo, seguindo à deriva, tragado pela velocidade que criou. De outro lado, porém, o homem não difere muito dos seus longínquos antepassados. Na sua maioria, os habitantes do mundo sem fronteiras ainda se fecham em pequenos círculos familiares e grupais. Ele se interessa mais pelas intrigas do seu entorno do que pelo acúmulo de notícias que lhe chegam pela televisão. Tendo o conhecimento que quiser ao seu alcance, permanece ignorante por espontânea vontade. Usufruindo de maior liberdade, sujeita-se às vontades das elites do poder que o oprimem com taxas, impostos e outros castigos. Seus relacionamentos sociais continuam limitados, seus horizontes só se expandem virtualmente.
Eram, então, os homens de antigamente mais felizes? Eram tanto quanto podemos ser hoje, desde que cada um encontre um sentido para sua vida. A infelicidade do homem aflora quando ele segue à deriva. Entretanto, ainda há muito o que conquistar, inventar, descobrir. E hoje, os poderes que se dispõe para isso são enormes. Alguma coisa mais ampla ainda nos espera. É só procurar.

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