Era uma vez
Era uma vez um bispo. Um arcebispo peculiar. Era uma vez um contador de histórias que ganhou o coração do povo. Londrina se despediu estes dias do seu terceiro arcebispo, conhecido pela didática insuperável de ensinar o difícil contando histórias pueris e transformando a Bíblia naquilo que ela deve ser, alimento cotidiano para cultos e analfabetos. Dom Albano era um eclesiástico com cheiro de povo; se inseria perfeitamente no que outro gigante chamado Francisco, tem recomendado: "bispo com cheiro de ovelhas"!
Ele pedia licença para entrar na casa, seja pessoalmente ou através das ondas da rádio. Tomava um café de esperança e consolo, adoçado com fé e uma dose exagerada de humanismo. E assim os interlocutores aprendiam a ver nele o bispo próximo e repleto do maior dom do ser humano, a simplicidade.
Dom Albano marcou de forma indelével e definitiva a vida da Arquidiocese de Londrina. Além da estruturação física e orgânica, com construções que se faziam necessárias nos anos noventa, ele conduziu a Igreja para um mergulho na Bíblia como base da própria religiosidade. Criou os famosos "Dias da palavra" e lembrou aos católicos que devem ter para com a Palavra de Deus o mesmo respeito que têm para com a Eucaristia. Parecia óbvio! Mas não era tanto assim! Ainda hoje se torna um grande desafio para a Arquidiocese!
A Igreja nunca esteve ausente dos problemas sociais dos seus fiéis. No País, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tem um histórico de presença marcante na luta contra a ditadura e pelos direitos humanos. Em Londrina, não foi diferente. Dom Albano hipotecou logo desde o início apoio à luta contra a corrupção e foi fundamental seu protagonismo num período difícil da história da cidade. Nunca titubeou em denunciar os cânceres que arruinavam o tecido social e roubavam o leite das crianças e os remédios nos postos de saúde.
O bispo das historinhas sofria com a falta de padres e de vocações. Queixava-se como Londrina era um terreno inóspito para o surgimento de homens que seguissem a Jesus mais de perto no sacerdócio. Amava os coroinhas e fazia missa exclusiva para eles, sempre terminando com a brincadeira de colocar o solidéu de bispo, na cabeça de algum menino! Crianças e jovens gostavam do seu jeito e entendiam essa proximidade que ele lhes facultava, como um gesto de verdadeiro pastoreio.
Dom Albano se preparou para morrer. Essa é uma grande virtude dos homens que possuem um verdadeiro senso histórico. Poderia ter vivido mais anos, mas para ele não era tão essencial assim. Estava preparado. Tinha combatido o bom combate. Permaneceu ativo depois que o papa o dispensou das incumbências de arcebispo de Londrina.
Solícito, ajudava dom Orlando Brandes e os padres que a ele recorriam. Mantinha-se atualizado com uma bela página no faceboock e se comunicava com centenas de amigos através de belas e simples mensagens. Estava mais vivo do que nunca! Só falava do passado para lembrar como Deus tinha sido bom e falava da morte como o grande encontro com Jesus, o verdadeiro arcebispo de Londrina, como ele o chamava.
Existem perdas irreparáveis, como a morte deste homem. Mas o sentimento dos católicos deve ser de saudade com um misto de alegria e satisfação. Afinal, para os que creem nada é tirado! Nada se perde! Tudo se reencontra no ponto de origem. Assim homenageamos adequadamente aquele que com a vida nos ensinou a trilhar uma senda de esperança e solidariedade. Foi um bispo ensopado na Bíblia e isso não é um detalhe!
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





