Políticas sociais devem ser sincronizadas com oportunidades de educação
Voto do cabresto foi transformado no voto do estômago






Na última década o Brasil registrou uma melhora persistente nos indicadores de concentração de renda. A despeito da mudança positiva, os patamares de pobreza e desigualdade ainda estão distantes dos desejáveis para a promoção da justiça social e do bem-estar.

''Alguns grupos econômicos estabelecidos no Brasil - que não tiveram escrúpulos de se beneficiar na ditadura - também aproveitam esta onda de ufanismo nacionalista, inclusão social, para se aproveitarem. Por um lado, vê-se um processo de redistribuição de renda melhor do que antes, por outro, vê-se a concentração de riqueza em grupos bem estabelecidos que se aproveitam da generosidade do governante e do contribuinte. Quem acaba pagando a conta é o trabalhador, o empresário de pequeno e médio porte, o profissional liberal'', argumenta o professor do Curso de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em Curitiba, Masimo Della Justina.

Bacharel e mestre em Economia pela Universidade de Londres (London School of Economics), Masimo Justina declarou que as políticas sociais podem ser implementadas concomitantemente ao apoio aos empreendedores da iniciativa privada. ''É possível pensar no social e auxiliar as empresas, mas sem desperdício, corrupção e sem dar carona para grupos que não precisam do governo'', avalia.

Quais problemas ainda afetam o desenvolvimento econômico e social do Brasil?
Após 22 anos de Constituição, parece-me que poucos governantes fizeram um esforço para superar os três problemas estruturais da economia brasileira - juros reais elevados, concentração da riqueza e mau desempenho do setor público. Os governantes às vezes cobram impostos demais de quem tem menos capacidade e cobram pouco de quem tem condições de pagar. Isso se chama ineficiência tributária. Sobre isso, existe a ineficácia dos gastos.

Qual é a sua avaliação sobre as políticas sociais governamentais?
As políticas sociais devem ser sincronizadas com as oportunidades de educação. Não adianta você distribuir riqueza para uma família se esta não possui uma formação de renda própria. As políticas sociais são boas, mas não podem se tornar um vício, seja do beneficiado, seja do político populista, que transformou o voto do cabresto no voto do estômago. Também não deve haver corrupção ou desvio em meio a todo este esforço. Isso pode desincentivar a população - que é tolerante - a votar em governos que pensam no social.

As práticas de economia solidária são alternativas interessantes para geração de renda?
Apesar de bem-intencionados, líderes religiosos são um pouco ingênuos ao não perceberem como pessoas que usam uma linguagem de igreja, social e de justiça também estão trabalhando para a acumulação de riqueza. Às vezes a boa intenção de líderes de organizações de fé pode se transformar em uma carona útil e inocente para um regime podre. Contudo, ainda existem brechas para o mercado criar mais oportunidades para todos. Um exemplo são as economias de bem-estar social da Europa. As pessoas são extremamente capitalistas, generosas com seus tributos, e os governantes, puros no uso do dinheiro público. Existem brechas para cobrarmos o verdadeiro papel dos partidos políticos e implementar a nossa Constituição.

Qual é a sua avaliação sobre a economia brasileira?
O Brasil deu saltos muito grandes e caminhamos para o porto seguro que queremos. Porém, não é o tamanho da economia o mais importante, mas quanto de cada real que se produz vai para cada brasileiro. Como o Brasil desponta economicamente, existe um nacionalismo econômico barato que faz com que a gente engula esta ideia de que os grandes grupos brasileiros têm que se fortalecer para concorrer com o resto do mundo. E aqueles que jogam pelo jogo da concorrência podem estar sendo penalizados. O brasileiro esforçado, honesto, trabalhador, está a serviço da economia, e não a economia a serviço da vida. Está ocorrendo uma inversão, que é contra os propósitos da Constituição, da justiça social, das grandes religiões. A nossa democracia política - que já é consolidada - deve ser complementada pela democracia econômica. Porque, eventualmente, as pessoas vão se questionar - ''democracia para quê e para quem?''

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