Londrina - Pesquisas médicas mostram que 40% da população brasileira está acima do peso e o país é o nono em morte por ataque cardíaco. Para Vânia Vargas, mestre em psicologia, muitas vezes a obesidade é usada como proteção. Para solucionar o problema, são necessárias algumas mudanças. ''Precisa mudar a imagem que tem de si mesma, a relação que estabelece com a comida, a função que a comida tem na vida dela.''

A obesidade é um problema físico e psíquico, como se pode classificar? A pessoa tem uma compulsão pela comida?
Uma série de fatores influencia: componentes orgânicos; hábitos alimentares; doenças, falta de atividade física e questões emocionais, mas nem todos os obesos têm compulsão. Além disso, há o contexto da modernidade que está levando a essa epidemia de obesidade, as pessoas fazem tudo de carro, não precisam levantar mais nem para mudar o canal da televisão.

Temos os componentes genéticos, as doenças, mas também os hábitos. Muitos pais, por passarem o dia longe dos filhos, acabam deixando que eles façam o que querem e comam apenas o que têm vontade...
A comida está presente nas relações desde o início da vida - por exemplo, no aleitamento materno -, então está ligada ao afeto. Com a mãe indo para o mercado de trabalho, há o sentimento de culpa, os filhos ficam no videogame com salgadinho, refrigerante e doces. É como se a mãe dissesse não estou em casa, mas estou deixando um pouco do meu afeto. Se vê muito o obeso confundir qualquer necessidade e insatisfação com a satisfação do alimento. A comida vai sendo utilizada como um calmante, como forma de resolver insatisfações.

E os tipos de tratamento?
É preciso fazer uma avaliação para determinar o peso de cada um dos fatores, ver quais são os mais importantes, precisa ser um diagnóstico particularizado e aí programar o atendimento. É preciso um acompanhamento multidisciplinar para tratar a obesidade.

Isso significa um custo alto. Existem formas de prevenção para, por exemplo, não ter de chegar à cirurgia?
Lugares e incentivos para fazer atividade física, valorizar a boa alimentação, educação alimentar desde a infância, incentivando o consumo de alimentos saudáveis, são algumas das formas de prevenir.

Como os pais podem observar se a comida está sendo utilizada como um calmante, como forma de resolver insatisfações?
Eu perguntaria: tem fome de quê? Porque essa fome vai se transformando em ansiedade, em um buraco sem fundo que precisa toda hora ser preenchido com algum alimento. As pessoas têm de repensar as relações. Pode ser sentar um pouco com o filho e jogar videogame, fazer atividades que não passem pela comida.

Na anorexia a distorção é que a pessoa se vê mais gorda do que é. Na obesidade há também uma visão distorcida?
Na verdade, eles dizem que não se vêem, que não querem se ver. É bem comum uma mulher dizer: não sei como engordei, quando vi já estava desse tamanho. É como se nesse período de 70 kg para 120 kg a pessoa tivesse saído de si mesma. Ela come e não se dá conta da quantidade, do volume, das vezes que comeu, entra numa compulsão.

Qual o alerta para que as pessoas busquem ajuda o mais rápido possível?
Elas têm de achar um limite entre a satisfação e a busca pela imagem. Não conheço ninguém que não diga que está 2 kg acima do peso. Porque esse é um imperativo da cultura. De um lado se diz que se tem de aproveitar a vida, ser feliz agora, uma urgência de realizar os desejos, o tempo entre querer e realizar tem de ser curtíssimo, quero e realizo, e por outro lado isso gera obesidade, insatisfação com o peso. É preciso encontrar o equilíbrio.

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