EPIDEMIA DA DEPENDÊNCIA - Plano de combate ao crack é nebuloso
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de janeiro de 2012
Davi Baldussi <br>Reportagem Local 
''Crack é uma droga estimulante, que provoca no início uma sensação intensa de prazer, por conta de uma liberação de dopamina no sistema nervoso central. Depois, à medida que o organismo se adapta, precisa aumentar o uso da droga para tentar ter a mesma sensação de prazer. Com o tempo, essa sensação vai desaparecendo. A pessoa passa a ter sintomas muito fortes de abstinência. Começa a querer usar a droga não só pela busca do prazer, mas também pelo desconforto que sente pela falta da droga''.
A explicação sobre o efeito do crack no organismo é do médico Marco Bessa, doutor em psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad) da instituição. Segundo ele, o maior desafio no tratamento da droga atualmente é ''ter uma estrutura de atendimento. A estrutura pública é péssima, ela é totalmente insuficiente, hospitais foram desativados, Caps são em número insuficiente e tecnicamente incapacitados de dar conta de toda gravidade do crack. A população mais pobre que depende do SUS hoje tem acesso muito reduzido ao tratamento do crack'', critica.
Recentemente o governo lançou o programa de Combate ao Crack, que promete investir R$ 4 bilhões contra a proliferação da droga. Para Bessa, o ''governo vai no rumo correto de realmente se preocupar com crack, mas adverte que ainda existe uma certa ''nebulosidade'' em relação ao enfrentamento ao problema.
Qual é sua avaliação do plano de Combate ao Crack, lançado recentemente pelo governo federal?
Não existe muita novidade neste plano. Ele já vinha sendo falado desde a campanha eleitoral. Em 2010 se falava em R$ 400 milhões, mas na prática acabou não acontecendo a efetivação deste plano. E agora o que tem de novidade é que o ministro da Saúde admitiu que temos uma epidemia de usuários de crack no Brasil. Ao contrário da Secretaria Nacional Antidrogas (vinculada ao Ministério da Justiça), que afirma que essa é uma avaliação exagerada. Então tem ponto positivo do plano de assumir a gravidade do problema, e parece que também tomar as rédeas do controle do programa do crack no Brasil.
A dúvida que temos é como essas verbas vão chegar aos Estados e Municípios, que a rigor são as estruturas que devem administrar a aplicação do plano. A segunda questão é que o governo disse que vai priorizar o atendimento em hospitais gerais para usuários de crack. Pouquíssimos hospitais no Brasil têm estrutura tanto física quanto de corpo técnico capacitada para fazer esse atendimento. Hospitais não têm psiquiatra, não têm terapeuta ocupacional, assistente social treinados para prestar este tipo de atendimento. Essa é uma questão que o plano não explica como vai capacitar as pessoas para receberem esses pacientes. Também não fala sobre crianças e adolescentes. São poucos hospitais infantis no País, e muito menos os que estão capacitados.
E um receio também é de que esse dinheiro acabe sendo direcionados mais para comunidades terapêuticas do que hospitais ou clínicas capacitadas para oferecer atendimento.
Então faltou planejamento para esse plano do governo federal?
Faltou pelo menos uma explicação mais clara. Acho que existe ainda uma certa nebulosidade de como enfrentar esse problema. Essa questão do crack não é só o atendimento médico. Existe a polêmica de internamento compulsório, como se isso fosse uma questão prioritária, mas não é. É apenas uma etapa do tratamento. No caso do paciente aceitar ser internado, depois que ele sai do internamento a vida dele vai continuar e se ele voltar para rua a probabilidade dele cair é altíssima. É preciso que haja uma estrutura que dê suporte para esse paciente, para que ele tenha um novo estilo de vida depois do atendimento no hospital. E parece que isso não está muito claro no plano.
Porque (não adianta) simplesmente prestar uma assistência médica, por exemplo uma consulta de rua, que o plano prevê, e o paciente ficar indo e voltando, mas mantendo o mesmo estilo de vida, se alimentando mal. Se essas pessoas não tiverem abrigo, acesso a alimentação, elas vão ter problemas de saúde que podem inclusive levar à morte.
O senhor é favorável a internação compulsória?
A rigor não é ser a favor ou contra. É como você pensar uma UTI. Eu sou a favor nos casos que a UTI é necessária. Em relação ao internamento compulsório, a própia lei determina que seja mediante uma avaliação médica. Se o médico, por uma série de questões clínicas, chega à conclusão que o melhor para o paciente é ser internado, é só seguir a lei. Não é uma questão de ser a favor ou contra: é uma questão de necessidade. Existem pessoas que precisam da internação se não acabam morrendo. Um exemplo muito claro é a Amy Winehouse, na Inglaterra, que claramente precisava de um tratamento e foi deixada sozinha. E o que aconteceu? Ela acabou morrendo.
A internação compulsória foi discutida recentemente como algo novo. O que tem realmente de novidade na internação compulsória?
Não tem nada de novo. Essa lei é de 2001. O que é novo é o Ministério da Saúde assumir que pode utilizar esse recurso. Pois antigamente, nas gestões anteriores do Ministério da Saúde, eles não admitiam essa condição. Pois tinha uma posição totalmente contrária ao tratamento psiquiátrico nos hospitais. Essa é uma mudança significativa. O ministro passa a admitir que essas internações involuntárias ou compulsórias são admissíveis e possíveis de serem indicadas pelo Ministério da Saúde. Mas não há nada de novo, o que mudou foi a postura do ministerio em relação a essas duas formas de internamento, que já estão previstas em lei.
O senhor aparenta ter um pé atrás quando fala sobre comunidade terapêutica. Elas não oferecem atendimento adequado?
Quando se fala de comunidade terapêutica se tem de todo tipo. Desde aquelas que são bem estruturadas, onde tem atendimento médico, psiquiátrico, onde pessoas recebem boa atenção do ponto do vista da alimentação, humano. Até aquelas que são puro golpe. Simplesmente uma forma de receber dinheiro público sem contrapartida.
O problema é que uma boa parte dessas comunidades terapêuticas não veem a dependência química como uma doença e, por isso, não oferecem tratamento médico, nem médico geral nem psiquiatra. Então essas pessoas ficam ali, muitas trabalhando, se sustentando com trabalho dentro da própria comunidade. Ou o tratamento médico psiquiátrico é substituido por uma terapia religiosa, que na verdade é uma doutrinação. Como se o problema da dependência química fosse um problema religioso ou moral.
Qual é hoje o maior desafio no tratamento de dependentes de crack?
É você ter uma estrutura de atendimento. A estrutura pública é péssima, é totalmente insuficiente. Hospitais foram desativados, CAPs são em número insuficiente e tecnicamente incapacitados de dar conta de toda gravidade do crack. A população mais pobre, que depende do SUS, hoje tem acesso muito reduzido ao tratamento do crack.


