Transcorridos quarenta e cinco anos, poucos se lembram do clima de entusiasmo que cercou a realização das obras comemorativas do centenário da emancipação política do Paraná, ocorrida em 1953. Bento Munhoz da Rocha, o esclarecido governador, havia resolvido dar à capital do Estado um centro administrativo à altura da complexidade crescente dos negócios públicos, além de outras construções necessárias à afirmação do Paraná nos campos político e cultural.
Foi montada a Comissão de Obras do Centenário, encarregada de uma enorme série de construções, que foram iniciadas e levadas à frente com ritmo alucinante. O governador entregou ao engenheiro Elato Silva a chefia dessa comissão, dado o renome que esse técnico já havia conquistado pelo seu espírito inovador e dinâmico. Nunca em Curitiba se havia concentrado tantos recursos construtivos, num programa intensivo como aquele. Dezenas de obras foram postas sob responsabilidade da Comissão.
Primeiramente era preciso demolir as casas e terraplanear toda a área desapropriada para implantação do futuro Centro Cívico, correspondente a mais de vinte quarteirões de tamanho normal. Era obra difícil, porque vários moradores demoraram a sair de casas desapropriadas, enquanto à volta deles roncavam, dia e noite, poderosas máquinas de movimento de terra.
As obras compreendiam ainda vários edifícios de porte, como o Palácio do Governo, a Residência do Governador, o Palácio das Secretarias com 33 andares, a Pagadoria do Estado, a Assembléia Legislativa, com seus três prédios, o Palácio da Justiça, e o Edifício do Fórum. A isso somavam-se o soerguimento do nível a pavimentação da Av. Cândido de Abreu; o enchimento da grande depressão no local do antigo Colégio Progresso, formando a Praça Dezenove de Dezembro, a construção da nova Biblioteca Pública, a implantação do monumental Teatro Guaíra, a montagem dos pavilhões da Exposição do Café, no Tarumã, e as construções do Grupo Escolar Tiradentes, do Centro de Letras do Paraná, da Hospedaria do Imigrante e do novo quartel do Corpo de Bombeiros.
Pela primeira vez no Paraná empregaram-se equipamentos e novos métodos de construção, num desassombrado pioneirismo. Até o sistema de controle por meio de cartões perfurados, como máquinas ‘‘holerith’’ - última palavra na ocasião - foi empregado para acompanhamento administrativo e de custeio do grande número de obras. As estruturas do Palácio do Governo e do plenário e escritórios da Assembléia foram concretadas, através de tubulação, a partir de usina de concreto montada no centro da futura praça. A torre de concretagem (hoje familiar) foi pela primeira vez em Curitiba usada no Teatro Guaíra, onde também se utilizou a tecnologia do Arco Melan.
As fundações do então Palácio das Secretárias (hoje Palácio da Justiça) atingiram mais de uma dezena de metros de profundidade, sob água, utilizando-se tubulões de ar comprimido, até alcançarem as camadas sólidas de apoio. Formas de concreto reutilizáveis, empregando grossas chapas impermeabilizadas de compensado, fixadas por parafusos também reaproveitáveis, constituíam processos ainda não conhecidos entre nós,
A febril atividade se espalhava por toda a parte e, no Centro Cívico, concentrava-se como um formigueiro. O entusiasmo reinante entre engenheiros e operários só tem semelhança (guardadas as proporções) à construção de Brasília, quase dez anos depois.
Não é difícil imaginar que, no âmbito político, se desencadeava guerra semelhante à que enfrentou Juscelino. Porém Bento a tudo encarava como denodo e visão do futuro. Entretanto, ocorreu o inesperado. A geada veio castigar duramente a economia do Estado, devastando implacavelmente as plantações de café. De repente, o governo não podia mais canalizar para obras os recursos que previra.
Daí porque não foi possível, na data das comemorações, ter concluídas todas as obras. O Teatro Guaíra, com toda a estrutura e cobertura levantadas, só foi concluído vinte anos mais tarde. O Palácio das Secretarias, de seus 33 andares, ficou com a estrutura no oitavo, e, nessa altura, passou mais tarde a ser utilizado. O Grupo Tiradentes ficou inconcluso e, posteriormente, usado para outra finalidade. A Casa do Governador, com estrutura incompleta e deteriorada, foi suprimida.
Muitas e importantes obras foram porém entregues na ocasião ou um pouco mais tarde. A nova e extensa praça fora rasgada e pavimentada, bem como uma das faixas de acesso. O presidente Getúlio Vargas procedeu à pré-inauguração depois efetivada por Café Filho - do Palácio do Governo - e entregou ao público o monumento da Praça Dezenove. A Biblioteca, a Hospedaria e o Corpo de Bombeiros entraram em utilização. A Exposição do Café foi um sucesso.
Em suma, embora perturbadas pela inclemência das geadas, as obras do Centenário foram um sopro de modernização e abriram as cortinas do futuro.

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