Entrevistas presidenciais
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2001
Rubem Azevedo Lima 
Em seus meandros, as entrevistas do presidente Fernando Henrique Cardoso são jogos malabares de jornalismo, porém tão reveladoras quanto os depoimentos de um paciente a seu psicanalista. Nessas ocasiões, não faltam nas palavras de FHC, atos falhos e esquecimentos ou lembranças, intencionais ou subconscientes. Freud chama a isso de atos repressivos ou escudos psicológicos de defesa. FHC ora os usa para desviar contra outros alvos os petardos invasores, ora para proteger da intrusão de terceiros os escaninhos de fatos que sua mente gostaria de esquecer.
Tais mecanismos não costumam funcionar nas entrevistas. É a velha história: entenda-se o que alguém quer esconder de si mesmo e dos outros ou faz questão de revelar, com artifícios comprometedores, em relação a terceiros, e se entenderá, razoavelmente, a essência da psique de quem joga esse jogo. Mesmo o jogador mais astuto se desnuda, quando não quer ser ferido ou busca ferir terceiros.
Em entrevistas recentes, ao falar de Itamar Franco, o ex-presidente de quem fora ministro, FHC revelam os repórteres sublinhou suas palavras com um riso de mofa aparente. Era a revolta da criatura contra o criador, que graças à sua popularidade política pessoal (lastreada em 80% da opinião pública, segundo as pesquisas) elegera presidente quem não se reelegeria senador em São Paulo.
É despiciendo explicar o que significa esse tipo doloroso de revolta. Mas, guardadas as proporções, basta lembrar que uma das máculas na biografia de Goethe foi o comentário desairoso do poeta aos aforismos do físico e filósofo Lichtenberg: ''Cada palavra que ele escreveu esconde um problema''.
FHC elogia o ex-ministro Sérgio Mota e, confuso, diz que esse, no episódio da compra de votos no Congresso para aprovar a reeleição, ''fora à Câmara, brigou na comissão, desafiou, nem conhecia as pessoas''. Mas, se houve compra admitiu , ''foi no plano regional''. Fato grave que o governo impediu o Congresso de apurar. De resto, Mota só falou na Comissão de Justiça. Não foi investigado por nenhuma CPI.
Da crise de energia FHC tratou como algo com o qual nada tem a ver. De Roseana, presidenciável do PFL, cuja subida nas pesquisas julgara ''coisa de mulher'', afirmou, agora, que ela, ''deputada, sempre o apoiou''. FHC ignorou o lucro dos bancos e o desemprego. Mas frisou: ''Só eu sei dos meus sentimentos sociais''.
Será? Neste fim de ano, os melhores juízes, no caso, serão, com certeza, os 50 milhões de miseráveis e os 40 e tantos milhões de pobres existentes no país.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista


