Repórter e entrevistado pouco acrescentaram a tudo o que se sabia, e assim a conversa do presidente Lula do dia 1º do ano, na televisão, foi uma repetição enfadonha e evasiva de discurso já conhecido. Com a diferença do semblante cansado que o governante apresentava, contrastando com a exuberância que emanava de sua figura olímpica na célebre noite de comemoração da vitória, na Avenida Paulista, três anos atrás. Aquela era também uma celebração nacional, porque as multidões que levaram o líder sindicalista ao poder estavam banhadas de esperança. O ônus do cargo desgasta, e a nação viu pela tevê, domingo, a inagem de um Lula desconfortável, parecendo não querer estar ali naquele momento de prestação de contas. O entrevistador, notável jornalista, não se aprofundou em questões relevantes e gastou precioso tempo perguntando sobre os escândalos da corrupção, um assunto já requentado, quando poderia ter cobrado do Presidente respostas sobre o que pretende fazer nestes doze meses que lhe restam de mandato. A entrevista resultou, por isso, pouco consistente, mais parecendo um diálogo de quem não queria perguntar nada importante e de quem não queria responder. O Presidente repetiu as propagandeadas melhorias sociais de seu Governo e o aumento de empregos cujo real volume se desconhece, porque são muitas as suas variáveis, não se sabendo o que é novo e o que é uma regular continuidade mas se alguns índices melhoraram, não foi certamente por mérito governamental e sim pelo processo natural de crescimento monitorado pela iniciativa privada. Que, como se tem dito e repetido, avança apesar do Governo e sua pesada carga tributária. Para não falar da presença (na verdade já antiga) de leis e sistemas inadequados, que tanto emperram o desenvolvimento. Lula, se nada falou de consistente e apenas defendeu-se e deu respostas evasivas, é porque também não dispunha de muita bagagem em mãos. Arrogantemente, chegou a declarar que espera o momento em que os oposicionistas ainda lhe peçam desculpas. Não disse, nem lhe foi perguntado, se pensa em pedir desculpas à nação pelo não atendimento das promessas feitas. Da entrevista, extraiu-se o substrato do que deseja o presidente Lula: reeleger-se. Por estratégia política, ele negou que esteja visando a reeleição, mas já está programando muitas obras de efeito eleitoreiro para estes meses que antecedem as convenções partidárias e as eleições. Que tipo de programa de governo Lula tem para apresentar ao eleitorado, não se sabe, a não ser o principal deles: a ocupação do poder, pela glória do poder. Assim não fosse, algo extraordinário teria ocorrido nestes três anos de seu governo e o Brasil teria dado um grande salto de qualidade. O alarde dos 25 anos do discurso petista resultou num melancólico resultado, que se refletiu nas palavras sem força e na sonolenta imagem presidencial reveladas em sua entrevista de ano-novo. Com toda certeza a nação brasileira, embora frustrada, tem hoje mais entusiasmo do que o Presidente que se viu na TV, e mais esperança em si mesma do que no ocupante do trono presidencial.

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