Alex, filho do Conde de Tocqueville, aguardava com expectativa respeitosa o início da entrevista para a qual eu o havia convidado. Jovem demais este juiz auditor, pensei, lembrando que com apenas 25 anos ele desembarcara, em 10 de maio de 1831, em Nova York, sob o pretexto de avaliar o sistema penitenciário praticado nos ‘‘Estados do Novo Mundo’’, e de sua visita fora capaz de produzir magistral obra ‘‘A democracia na América’’.
Escolhendo cuidadosamente as palavras, comecei nossa conversa perguntando ao pálido e franzino francês se ele podia explicar o porquê do fascínio, que no Brasil certos políticos de esquerda ainda exercem aos pregar a igualdade e deplorar o ideais do liberalismo.
E ele respondeu: ‘‘Simplesmente porque os homens experimentam uma paixão ardente, insaciável, invencível pela igualdade; querem a igualdade na liberdade e, se não puderem obtê-la, ainda a querem na escravidão. Eles suportarão a pobreza, a sujeição, a barbárie, mas não a aristocracia.’’
Tem razão. Portanto, deve ser por isso que os políticos, especialmente os de um certo partido que aqui no meu País se arvora em defensor dos trabalhadores, têm chegado a algumas instâncias do poder. Mas em lá chegando eles cometem os mesmo erros que antes criticavam. ‘‘Quantos homens desse tipo vi perto de mim, atormentados por suas virtudes e caindo no desespero porque viam que a melhor parte de sua vida transcorria na crítica aos vícios alheios, sem poder gozar enfim de um pouco dos seus e sem ter como sustento mais do que a imaginação dos abusos. Nessa longa abstinência, a maioria havia contraído um apetite tão grande por cargos, honras e dinheiro, que era fácil prever que na primeira oportunidade se jogariam sobre o poder com uma espécie de glutonaria, sem parar para escolher o momento nem o bocado’’, disse.
Mas será, Alex de Tocqueville, que o povo não se dá conta de suas más escolhas, empolgando-se facilmente com a retórica eloquente apesar de falsa e vazia? E ele respondeu: ‘‘O povo é sempre o mesmo: tão impaciente, tão irreflexivo, tão desprezador da lei, tão fraco diante do exemplo e temerário diante do perigo como o foram seus pais. O tempo nele nada mudou e deixou-o tão leviano nas coisas sérias como o era nas fúteis.’’
O partido de que lhe falei tem setores que ainda defendem a revolução. Possui também grande ascendência sobre movimentos paralelos, como o que se denomina MST. O mentor desse movimento prega a revolução como estratégia para se chegar ao poder. O que acha das revoluções, já que tanto refletiu sobre a Revolução Francesa? ‘‘Em tempos de revolução, as pessoas vangloriam-se quase tanto dos crimes que querem cometer quanto em tempos normais, das boas intenções que afirmam ter’’, afirmou.
Ontem começou o Fórum Social de Gênova, ou seja, a reunião dos chefes de Estado do G-8, que representam os sete países mais ricos do mundo, além da Rússia. Como sempre acontece, grupos contrários à globalização farão suas manifestações violentas e hostis ao capitalismo. São os chamados hooligans sociais, que se caracterizam por atos de vandalismo e agressões físicas. Outro grande liberal de nossa época, Ralf Dahrendorf, disse que estes grupos de protesto padecem de uma ‘‘nostalgia pela vida pré-moderna’’, que na verdade ‘‘não se diferencia da ideologia do fascismo e, sobretudo, do nacional-socialismo, que elogiava o sangue, a terra e a maternidade, mas praticava a supressão e o totalitarismo’’.
– O que acha disso, Tocqueville?
– Essa é uma época muito igualitária que acaba, portanto, conduzindo aos males da igualdade. Assim, esse clamor difuso que leva indivíduos a se reunirem para protestar contra os melhores, traduz aquela perversão bastante comum que impele os fracos ao desejo de atraírem os fortes ao seu nível, tornando-os seus iguais no envilecimento e na servidão.
Merci, Alex de Tocqueville. Suas palavras e suas obras, como a ‘‘Democracia na América’’ e ‘‘O Antigo Regime e a Revolução’’, serão sempre um referencial precioso para todos que compartilham a paixão pela liberdade fazendo dela, depois da vida, seu bem mais precioso.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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