Entrevista
Giovani Ferreira
De Curitiba
José SuassunaFATURAValmor Weiss: Nós pagamos a conta, o usuário, a força produtiva do Estado: transportadoras, indústria, agricultura e comércioO governo aproveitou o programa de concessão para transferir à iniciativa privada a obrigação de realizar investimentos nas rodovias. No final das contas, quem está pagando pelos serviços, que deveriam ser de responsabilidade do Estado, é o usuário. Qual sua opinião sobre isso?
Valmor WeissPoderíamos até aceitar, caso a fórmula de aplicação dessa modernidade, como pedágio e transferência de estradas, fosse mais decente, até plagiando o que acontece em outros países. Lá fora, quando você passa uma estrada à iniciativa privada, esse pessoal precisa construir a estrada para depois, sobre aquilo que ele investir, retirar a sua lucratividade. Assim é que deveria ser, e não essa loucura que fizeram aqui no Brasil, principalmente no Paraná, onde a iniciativa privada ganhou estradas prontas, não investiu quase nada e ganhou o direito de ficar explorando sem nada fazer de melhoria.
FolhaAo contrário de outros países, então o senhor acredita que a privatização aqui no Paraná não foi um sinal de modernidade?
WeissNão. No Paraná e nem no Brasil. Isso aqui foi uma doação. Fizeram doações, onde as empresas tiveram um prêmio, um privilégio. São estradas onde nós pagamos os investimentos e que foram transferidas para eles (concessionários). Os grandes investimentos que eram prometidos, pelo menos no Paraná, não foram feitos.
FolhaNa sua opinião, qual foi o principal erro do programa Anel de Integração?
WeissFoi a forma. Foi aquele projeto de privatização e as exigências do governo. Ele não foi programado para defender os investimentos que o Estado já havia feito. Isso foi jogado fora. O erro começou na forma de fazer a privatização. Nesse documento (contrato entre governo e concessionárias) deveriam ser feitas exigências outras, não as que foram feitas, com uma pura e simples transferência. Deveria ter sido exigido investimento até em novas estradas, se fosse o caso. Houve um erro total na forma de fazer a montagem de transferência ou de fazer essa privatização. Foi totalmente errada.
FolhaEm sua avaliação, qual o índice ideal de reajuste das tarifas e qual a contrapartida necessária em obras para justificar o aumento?
WeissNós teríamos que nos basear no pedágio praticado em outros países, ou aqui no vizinho, Argentina, onde o pedágio custa um dólar. Você percebe que a população, tendo em vista a falência do governo, em termos econômicos, aceita pagar, mas não essa exorbitância que está colocada. O que se percebe, é que eles estão fora da realidade, pois não estão levando em consideração uma lei que existe, que tem vida própria e é soberana: a lei da oferta e da procura, que é a lei de mercado. Não é quanto eles querem, é quanto o mercado aceita e pode pagar.
FolhaE com relação às obras, o que o senhor acredita que ainda está faltando e é preciso ser feito?
WeissIsso que está acontecendo no Paraná é a maior piada do mundo. É a grande piada do ano de 1999. Nós não tínhamos pedágio. Tínhamos estradas ruins, mas não tínhamos pedágio. Agora, temos pedágio e estradas ruins. Uma vez decidida a redução de 50% no valor da tarifa (julho do ano passado), as concessionárias que já tinham sido premiadas com os contratos, entraram com uma ação judicial, e a Justiça, em um caso inédito, mandou que eles cobrem, sem precisar fazer nada e nem investir um tostão nas rodovias. Isso não existe. Pagamos pedágios e as estradas estão ruins. Grandes investimentos não foram feitos, nem no início e nem agora. Temos números que o faturamento deles, em pouco mais de um ano, chegou a R$ 250 milhões, enquanto que os investimentos iniciais foram de R$ 150 milhões. Isso não tem sentido.
FolhaO presidente Epitácio Pessoa, da república velha, dizia que governar é abrir estradas. Isso no início do século. Quando o poder público abre mão da administração da infra-estrutura viária, ele não está deixando de governar, ou seja, de direcionar o desenvolvimento do País?
WeissParece que estamos andando na contramão da história. Nossos políticos não estão defendendo interesses do povo, da comunidade. Eles defendem o interesse de acordo com o comprometimento a nível de um governo, de uma facção ou de um acordo partidário. Isso é uma coisa que diz respeito a toda a comunidade. No entanto, os deputados, como o governo tem a maioria, independente do que é bom para a comunidade ou não, votam a favor que se cumpra sempre a vontade do governo. A representação política no País não é verdadeira, nem a estadual e muito menos a federal. As coisas acontecem de acordo com o interesse de grupos maiores. Quem tem maior força de lobby faz acontecer. Aí, responsabilidades mínimas do governo, como saúde, estradas, educação, estão se transferindo, de maneira errada, a grupos privados. O problema, é que esta transferência não está acontecendo de forma que a comunidade tenha o principal ganho. Estão fazendo as coisas de forma que aquele grupo específico, ou aquele bloco mandante, tenha seus interesses direcionados. As coisas não estão acontecendo em favor do povo, mas o que está se presenciando é quase que uma socialização do lucro.
FolhaO senhor acredita que da maneira como está sendo explorado, o pedágio defende interesses corporativistas, políticos e empresariais?
WeissTotalmente. É exatamente isso que acontece. Ele não é feito em função da comunidade e muito menos em busca de resultados e benefícios do País.
FolhaAntes dos programas de concessão de rodovias, o poder público tentou outras formas de financiamento das obras de conservação das estradas, como, por exemplo, o selo pedágio. Nenhuma delas atendeu às expectativas. Qual seria, então, a melhor alternativa para manter a malha viária brasileira em condições de uso?
WeissNosso grande problema é uma palavrinha que se chama corrupção. Parece que ela está em todos os níveis. A questão não seria o pedágio, pois as estradas poderiam ser pedagiadas pelo próprio Estado. Uma solução seria a criação do Fundo Rodoviário Nacional, com recursos que fossem destinados às rodovias e o próprio Estado poderia administrar. Mas, lamentavelmente, a corrupção é tanta, que tudo o que se arrecada não é direcionado corretamente.
FolhaDe onde viriam os recursos para esse fundo?
WeissO IPVA foi criado justamente para isso. Se não houvesse tanta corrupção, daria, sim, para ser aplicado nas estradas e se fazer novas rodovias.
FolhaEsses problemas que hoje envolvem as rodovias concessionadas desde o valor da tarifa de pedágio até a falta de obras e insegurança nas rodovias seriam evitados caso os usuários participassem de todo o processo de concessão?
WeissNão tenha dúvida. Aí está o grande mal. Nós pagamos a conta, o usuário, a força produtiva do Estado. A força produtiva, e aí não falamos apenas das transportadoras, mas a indústria, a agricultura, o comércio, deveriam ser mais ouvidos e participar dessas questões. Porque do outro lado está o governo, defendendo interesses que não condizem com as necessidades da comunidade. Isso para mim tem nome, é ditadura. Ditadura fiscal, ditadura do governo, em que eles fazem aquilo que querem e a comunidade não participa. Isso está errado. É necessário criar situações para a comunidade participar. No caso do pedágio, como nós sugerimos ao governador, que se cria uma Agência Reguladora, onde a sociedade participe através dos sindicatos, OAB, federações. O que não pode é a população ficar fora da discussão.
FolhaNesse sentido, o senhor acha que ainda é possível criar essa Agência, ou o Fórum dos Usuários das Rodovias, como sugeriu o ex-ministro e superintendente da Folha José Eduardo Andrade Vieira?
WeissÉ perfeito. Só muda o nome. Tem que ser feito, é uma forma de sairmos desta orfandade, com a comunidade participando da discussão sobre aquilo que ela vai pagar. De repente estamos escravos de uma situação de governo onde você não participa. Aqueles que deveriam te defender não defendem. Defendem um grupo formado. O lobby formado e o interesse maior. Isso que o senador José Eduardo colocou é perfeito. É o que nós estamos pedindo, mas com outro nome. É a forma de a população ter direito a voz e defender aquilo que ela paga.
FolhaComo se pode chegar a um consenso para o aumento do pedágio no Paraná?
WeissNós já temos idéias, mas o problema é que até o presente momento o governo ainda não participou com nada nas discussões. Ele só está defendendo que é preciso discutir, que tem que baixar o preço, mas não participa com nada. Tivemos uma reunião com o governador e fizemos uma parceria para brigarmos juntos contra o acréscimo, a ação na Justiça e as concessionárias. Nós pedimos o quê? Nós pagamos ICMS em cima do pedágio e pedimos que o governo demonstre uma vontade e tire do frete o pedágio, coloque de lado. E, que não incida o ICMS sobre o pedágio. Isso já é um ganho. Entre as proposições que colocamos também está o reinício imediato das obras, ou não tem acerto. Aí, entraria, depois de ter acertado o aumento, um novo documento, onde se criaria a agência reguladora, ou o fórum de usuários, para que o setor produtivo participe. Esse seria o momento de se criar o fórum, quando estiver se discutindo os novos preços e as novas regras de concessão.
FolhaQuais são os principais problemas das rodovias brasileiras?
WeissConseguimos que o presidente da República assimilasse e colocasse em discussão a questão da carga horária. Hoje, pela falta de preparo dos empresários e caminhoneiros, eles querem compensar a falta de preço com excesso de carga e de carga horária. Esse homem (motorista) trabalha demais. Isso porque não temos um disciplinamento como é na Europa, onde o motorista pode trabalhar quatro horas e descansar outras quatro horas, sendo obrigado a parar. Esse seria um dos principais pontos a ser acertado. O segundo ponto, e também fundamental, é que as nossas estradas são muito malfeitas. Não temos estacionamento, são muitas curvas de risco e todo um planejamento viário comprometido. É preciso entender que, se não dá para duplicar, que pelo menos se construa a terceira pista nos lugares mais difíceis. Quando a sociedade aceita um pedágio, pelo menos isso ela espera. Então, que essas empresas fizessem investimentos e realizassem obras que realmente contribuíssem para a melhoria da segurança, para que nós realmente pudéssemos constatar que o pedágio valeu a pena.
FolhaNas rodovias do Anel de Integração, onde o senhor vê os problemas e a falta de segurança?
WeissO Anel tem defeitos como um todo, pois continua como era, nada foi feito de novo. São aquelas rodovias que cresceram de acordo com o desenvolvimento das regiões, mas nada foi feito de correção e adaptação dessas vias, como as duplicações em trechos fundamentais. Então, as rodovias do Paraná precisam ser corrigidas de uma forma geral. As estradas para Apucarana e entre Cascavel e Foz do Iguaçu estão terríveis e precisam ser duplicadas imediatamente. O fluxo e o movimento de veículos é muito grande para uma estradinha de mão única. Essas coisas ainda têm que acontecer. O resultado é que ganhamos o pedágio, mas não melhorou absolutamente nada.
FolhaO setor do transporte nunca se mostrou contra o pedágio?
WeissAbsolutamente. Que fique claro que o sistema de transporte de carga não é contra o pedágio. Nós somos contra o preço abusivo, como está acontecendo.
FolhaO que o setor de transporte pretende fazer caso o reajuste fique acima do esperado?
WeissNós vamos parar o nosso trabalho. Nossos caminhões não vão sair das garagens, em comum acordo entre os empresários e os caminhoneiros, através do senhor Diumar Bueno, presidente do sindicato da categoria.
FolhaExiste uma unidade entre empresários e caminhoneiros para que se possa fazer essa paralisação?
WeissExiste. Mas é preciso deixar claro que nós somos pelo diálogo. Primeiro, vamos ver até onde podemos chegar com essa situação. Não gostaríamos, nunca, que isso viesse acontecer, porque é o restante da comunidade que vai pagar por uma coisa que não tem nada a ver. Depois, esse não seria um movimento somente das transportadoras, mas sim de todo cidadão contra esse estado de coisas.
FolhaO que o senhor acha da possibilidade de os demais usuários, que podem ser penalizados tendo um reajuste superior aos dos caminhoneiros, subsidiarem a tarifa do transporte de carga?
WeissIsso não é justo. É injusto querer subsidiar um segmento aumentando ainda mais o outro. Absolutamente. É o mesmo que despir um santo para vestir outro.
FolhaO senhor acha que o governo deveria agir de forma mais rígida com as concessionárias?
WeissNão tenha dúvida. O governo deveria bater mais, ser mais firme. Se ele está vindo conosco nesta discussão, na parceria entre força produtiva e governo, ele tem que ser mais enérgico sim.





