Entrevista
Entrevista
Há 10 meses presidindo o Banestado, o ex-ministro Reinhold Stephanes trava uma batalha silenciosa para colocar o banco nos trilhos e para convencer o burocrático governo federal a agilizar a liberação dos recursos, que servem para o saneamento da instituição financeira. Falta ainda chegar a última parcela de R$ 2 bilhões para fechar os R$ 5,7 bilhões prometidos pelo Banco Central em troca da privatização do banco estadual. O dinheiro está previsto para esta semana. Enquanto o recurso não é liberado, o banco torna-se alvo de novas especulações. Há duas semanas, voltou-se a falar que o Banestado seria federalizado. O ex-ministro descarta a possibilidade e assegura que a falsa informação parte de opositores ao governo do Estado.
Com uma equipe enxuta de trabalho, o presidente do Banestado diz que acabou a fase de ingerência política no Banestado. Ele assegura também que todos os devedores do banco estão sendo executados e os processos de cobrança estão na Justiça. Ex-deputado federal e ex-ministro por três vezes, Reinhold Stephanes se sente mais confortável ao falar de Previdência. É um crítico contumaz do atual sistema. Com cautela, ele diz concordar que falta pulso firme ao presidente Fernando Henrique Cardoso para implementar as reformas. Quanto à política, Stephanes diz não esconder uma ponta de mágoa com companheiros de partido e declara que só pensará em nova eleição após deixar o Banestado, o que deve ocorrer no final do próximo ano, quando está programada a venda do banco. Na quinta-feira, ele concedeu a seguinte entrevista à Folha:
Banestado está livre da ingerência política
Presidente do banco estatal, em processo final de saneamento, diz que instituição passa pelo melhor momento de sua história
Carmem Murara
De Curitiba
José SuassunaDE VOLTA AO MERCADOStephanes: Banestado deve apresentar lucro operacional a partir deste mês ou em dezembro. Estamos em condições de competirFolhaComo está o processo de privatização do banco?
StephanesHá um ritual legal a ser seguido. O banco precisa estar saneado, reestruturado e operando normalmente no mercado. Toda parte de saneamento financeiro está praticamente concluída.
FolhaO que ainda falta?
StephanesFalta uma parcela que soma quase R$ 2 bilhões. Mais uma semana o Banco Central deve liberar o dinheiro.
FolhaO dinheiro é esperado há mais de dois meses. Por que não chegou?
StephanesO Banco Central só autoriza a liberação quando tem a garantia de que o saneamento corre bem. Por isso o dinheiro vai chegar nesta semana.
FolhaE a reestruturação interna do Banestado?
StephanesTemos condições de apresentar lucro operacional a partir deste mês ou em dezembro. É claro que não contamos a carga que recebemos do passado. Mas pelo menos estamos em condições de competir.
FolhaO que mudou na estrutura do banco?
StephanesSaíram 20% dos funcionários e a estrutura dos órgãos reduziu pela metade.
FolhaQuando começa a modelagem do banco para a privatização?
StephanesA empresa que ganhou a licitação vai trabalhar por seis meses analisando dados do banco e do mercado para estabelecer um preço mínimo. Uma segunda empresa vai tratar da venda.
FolhaElas começam a operar logo?
StephanesO melhor seria que elas só começassem em janeiro. Estamos no saneamento final e em seguida vem o fim do ano. Teríamos o trabalho concluído até julho e aí veríamos como está o mercado. Neste período pode surgir o leilão do Banespa.
FolhaO senhor defende a venda do Banestado somente após o Banespa?
StephanesAntes do Banespa não vendemos.
FolhaE se atrasar muito a venda do Banespa?
StephanesSe houver um atraso muito grande a situação será revista. Mas em princípio, o Banespa será vendido no primeiro semestre de 2000.
FolhaO Banespa tem sido privilegiado no processo de privatização?
StephanesAs diferenças existem e fazem parte da natureza do País.
FolhaO senhor defende um determinado modelo de privatização?
StephanesNão. Mas a gente espera que o comprador do Banestado não cometa os mesmos erros do comprador do Bamerindus (HSBC). O Banestado tem história de 70 anos. As pessoas estão arraigadas ao banco da terra, como era com o Bamerindus. Os bancos estrangeiros não têm a visão da cultura do regionalismo. Eles impõem formas de atendimento à clientela que não satisfazem.
FolhaComo evitar este erro?
StephanesO ideal é que o novo dono aja apenas como acionista, sem violentar a característica do banco.
FolhaQuem são os potenciais compradores?
StephanesUnibanco, Itaú ou Bradesco.
FolhaPor que foi necessário alterar o cronograma de privatização marcado para julho deste ano?
StephanesQuem marcou a data original não tinha idéia do que teria de ser feito no banco. A data era superada.
FolhaO senador Roberto Requião questiona a mudança da data e diz que o Senado tem que aprovar a mudança.
StephanesO Ministério Público, Banco Central e o Ministério da Fazenda foram unânimes em dizer que não há necessidade de enviar o assunto ao Congresso, pois o valor do endividamento do banco não se alterou.
FolhaA proposta de federalização do Banestado voltou à tona há duas semanas. Isso é possível?
StephanesNão há nenhuma hipótese nem razão para isso. Eles (oposição) querem criar uma idéia de que federalização não é privatização. Federalizar é privatizar pelas mãos do governo federal.
FolhaA burocracia atrapalha o saneamento?
StephanesHá toda uma burocracia nas decisões em Brasília. As mudanças na diretoria do Banco Central atrasaram mais ainda.
FolhaA ingerência política que havia no Banestado foi controlada?
StephanesHá oito meses, a ingerência política é absolutamente zero. Desde que assumi aqui não recebi ninguém (políticos). O governador não me liga para pedir nada há oito meses. Neste aspecto, talvez o banco viva o melhor momento de sua história.
FolhaMuitos devedores eram políticos ou ligados a políticos. Como estão estas dívidas?
StephanesO Estado está comprando esses créditos. Ele vai ficar com esta parte, embora o banco continue cobrando a dívida após a privatização. Temos uma política agressiva de cobrança. Isso é questão ética.
FolhaA inadimplência chegou a quanto no Banestado?
StephanesChegou a 50% dos ativos, o que é algo inconcebível. Por isso, há uma operação forte de cobrança. Temos que criar todos os constrangimentos. Os casos estão na Justiça.
FolhaComo controlar a cobrança?
StephanesContratamos uma empresa especializada em organizar o sistema jurídico bancário. Ela acompanha o processo de execução. Quando assumi aqui, não se tinha a menor idéia de quem estava sendo executado, onde e quem era o responsável pela execução.
FolhaÉ muito difícil cobrar devedores?
StephanesAs operações foram mal feitas, sem nenhuma garantia. A maior dificuldade é cobrar os grandes. Eles se beneficiam da lentidão da Justiça e apostam na ineficiência do poder público.
FolhaDe que maneira a macroeconomia nacional prejudicou o Banestado?
StephanesNos afetou na questão do Banco del Paraná, pois as operações de câmbio caíram em 60% e o banco entrou no prejuízo.
FolhaVender o Del Paraná junto com o Banestado não é uma perda ao Estado?
StephanesO ideal era ter vendido antes, mas a crise política do Paraguai e a desvalorização cambial prejudicaram.
FolhaOs senhores podem tentar vender o Del Paraná em outra oportunidade?
StephanesIsso pode ser analisado, mas, por enquanto, nada mudou no cenário econômico.
FolhaÉ mais fácil tocar a privatização de um banco ou comandar a reforma previdenciária, que o senhor fez enquanto era ministro da Previdência?
StephanesÉ muito mais fácil administrar e sanear um banco, pois as metas são mais claras e objetivas.
FolhaO governo federal não se omitiu e deixou de ajudar os estados a implantarem seus novos sistemas previdenciários?
StephanesQuando FHC assumiu ele quis acertar a previdência. No início tudo foi bem, até que surgiram reações dos que perderiam privilégios. À medida que não se aprovou a reforma com a velocidade necessária e que se teve de votar o projeto da reeleição, o governo se omitiu.
FolhaA reeleição comprometeu a reforma da previdência?
StephanesEla atrasou um ano a reforma. E quanto entrou novamente em pauta, era o ano da eleição. Mas uma vez não houve votação. Há todo um jogo de interesses e lobbies. Há privilégios que estão muito próximos do poder. É difícil entender como há tanta irresponsabilidade do Congresso e do Poder Judiciário em não levar isso a uma solução.
FolhaAlém dos lobistas e de parlamentares, a população também não digeriu a reforma da previdência...
StephanesNão digeriu porque não soube o que acontecia. Os sindicatos protestaram sem saber pelo quê. A população foi desinformada por razões políticas.
FolhaO governo federal tem novas propostas para alterar a previdência. Caminhamos para uma solução do problema?
StephanesO governo federal chegou a reunir os governadores para discutir uma solução. Mas nem a solução apresentada é a solução. Continua-se tratando irresponsavelmente um tema que é sério. Temos que pagar privilégios e ficamos sem dinheiro até para tapar buraco de estrada.
FolhaQual a solução?
StephanesTem que se ter coragem de mexer no direito adquirido. Tem que se mexer naquela aposentadoria de R$ 30 mil. O povo não sabe que paga pedágio porque não há dinheiro para consertar estrada. E não tem dinheiro porque se gasta R$ 110 bilhões no sistema de aposentadoria.
FolhaEstamos diante de um colapso?
StephanesO sistema público faliu há muito tempo. Os Estados trabalham para pagar o salário dos funcionários. O Paraná, por exemplo, praticamente não tem obras em andamento.
FolhaO fundo previdenciário do governo do Estado é uma boa alternativa para a previdência?
StephanesDentro deste emaranhado, o projeto do Paraná foi bem concebido, mas não é a forma ideal. Só que não se poderia fazer nada além disso, porque há a lei nacional. Os Estados que criam seus fundos têm que gastar alguma coisa: ou por antecipação ou têm de descapitalizar algo que foi construído no passado.
FolhaO Paraná optou pela antecipação do dinheiro dos royalties de Itaipu. O dinheiro será mesmo liberado pelo governo federal?
StephanesO governo vai autorizar sem dúvida. O fato é que esta é uma coisa nova, sem precedentes.
FolhaO que fazer para garantir um bom sistema previdenciário?
StephanesTem que se mexer na estrutura de gastos. O Brasil é pródigo em tratar só da receita, com novo imposto e aumento de alíquota. Tem que olhar para a despesa. Isso exige bater em muita coisa, por exemplo: nós sempre aplaudimos a criação de municípios, quando deveríamos aplaudir a fusão. Municípios pobres têm o custo de um vereador dez vezes maior do que o custo de uma professora. E o vereador não tem função nenhuma.
FolhaQual sua avaliação sobre as demais reformas?
StephanesNós continuamos brincando de fazer reforma tributária, por exemplo. Não vai acontecer nada, porque não temos sequer a capacidade de tratar com seriedade um assunto desses. Qual é o projeto de governo para a reforma tributária? Everardo Maciel (Receita Federal), ministro Pedro Malan (Fazenda) e o presidente Fernando Henrique. Eles têm projeto de reforma? Ninguém tem.
FolhaNão é culpa do presidente que deveria tratar o assunto com pulso firme?
Stephanes...(depois de hesitar por alguns segundos, balança a cabeça em tom afirmativo). Ele deveria botar ordem na casa. Falta total...alguém tem que tomar a iniciativa...
FolhaO senhor volta a disputar uma eleição?
StephanesEu sempre cometo um erro. É inadmissível um ministro perder uma eleição. Basta usar a máquina como todos fazem. Mas eu sempre tive essa característica: quando assumi o Ministério esqueci que era político. O dinheiro que eu poderia ter mandado aos municípios, eu mandei para a dona Fani Lerner (secretária de Criança e Assuntos da Família) para que ela fizesse a distribuição por critérios técnicos. Quando fui nos municípios (fazer campanha), os prefeitos disseram que não poderiam me apoiar, porque o secretário tal só mandou dinheiro se ele apoiasse fulano de tal. Por equanto, sou presidente de um banco. Depois vou pensar no futuro.
FolhaPerder a eleição o frustrou?
StephanesEvidente que frustrou pela incompreensão e pelo jogo político pesado. Tem muita gente que se elegeu na minha frente e vocês, jornalistas, sabem como... Há uma regra do jogo e quem não a pratica fica de fora. A regra está cada vez mais complicada.
FolhaO senhor perdeu a eleição por causa da Previdência?
StephanesA pesquisa que fiz após a eleição mostrou que, no interior, o eleitor não sabia que eu era candidato. Achavam que era ministro. Apareci duas vezes no horário eleitoral. O Rafael Greca apareceu 12. O José Janene, que estava na mesma coligação, apareceu 30 vezes. No interior, se não montar estrutura com prefeito, que custa dinheiro, você não se elege. Na capital, apareceu o fenômeno do Greca. A pesquisa mostrou que 80% dos entrevistados me consideravam sério e competente, mas 54% acharam que eu prejudiquei o aposentado.
FolhaEm 94, o senhor abriu mão de uma candidatura a governador em prol do então pré-candidato Jaime Lerner. Isso causa arrependimentos?
StephanesNão me arrependo porque não faço isso um objetivo de vida. Nunca pedi para ser ministro e fui três vezes sem a ajuda do meu partido.
FolhaO senhor tocaria uma nova reforma previdenciária caso fosse convidado?
StephanesTocaria com certeza.





