Entrevista
Entrevista
Os bingos se tornaram uma dor de cabeça para o ministro do Esporte e do Turismo Rafael Greca nas últimas semanas. Único representante do Paraná no primeiro escalão do governo Fernando Henrique, Greca enfrentou um tiroteio, que aparentemente parece estar controlado com o pacote moralizador baixado na quinta-feira. Não sou o ministro do jogo, sou o ministro do Esporte e do Turismo, diz ele para justificar a entrega da fiscalização dos bingos à Caixa Econômica Federal.
Em entrevista à Folha, o ministro quebra o silêncio e critica o ex-presidente do Indesp Manoel Tubino, que o acusou de ser conivente com as denúncias de cobrança de propinas para a instalação de bingos no País e de lavagem de dinheiro do narcotráfico a pedido da máfia italiana. Quando constatei a inoperância de Tubino o exonerei. Por elegância, só por elegência, deixei que ele apresentasse o pedido de demissão, assinala o ministro.
Pré-candidato ao governo do Paraná em 2002, Greca evita falar no assunto. Argumenta que, no momento, dedica-se exclusivamente às atividades no Ministério. O ministro garante que vai apoiar a reeleição de Cassio Taniguchi em Curitiba, no ano que vem, e, para os adversários, manda um torpedo ao seu estilo: triste Paraná, que tem uma bancada de três senadores empenhados em sujar o nome do nosso Estado em Brasília.
A Folha conversou a distância com Rafael Greca, neste fim de semana. O ministro, que ficou preso em Brasília tratando de assuntos do Ministério, respondeu a uma série de perguntas encaminhadas pela reportagem. A seguir os melhores trechos.
Medidas vão sanear o setor de bingos
Depois de uma semana conturbada, ministro dos Esportes está convencido que novas regras adequam bingos à legislação
Leandro Donatti
De Curitiba
Arquivo FolhaNOVOS PLANOSGreca: Vou trabalhar com o lado luminoso do esporte, aquele que tira crianças do caminho das drogas e da violênciaFolha O senhor acha que as medidas baixadas na quinta-feira passada vão melhorar a imagem dos bingos?
Rafael Greca Não é preocupação do governo federal melhorar a imagem dos bingos. O que se pretende com as medidas anunciadas é sanear o setor de bingos e garantir que eles sejam o que preconiza a Lei Pelé: um elemento para a auto-sustentabilidade financeira do esporte. Não sou o ministro do jogo, sou o ministro do Esporte e Turismo do Brasil. Vou trabalhar com o lado luminoso do esporte, aquele que tira crianças do caminho das drogas e da violência.
Folha O senhor diz que assumiu o Ministério e o setor já tinha muitas falhas. Por que somente no momento de turbulência, o senhor levantou o problema?
Greca Levantei este problema desde que assumi o Ministério. Em janeiro, conversei com diretores da Caixa Econômica Federal e disse que queria transferir toda a operação técnica do setor de bingos para lá. À época, determinei ao então presidente do Indesp, Manoel Tubino, a suspensão de novas autorizações de bingos, uma reengenharia administrativa no setor e uma reavaliação da legislação. As informações sobre os problemas no setor estão em um relatório da Secretaria de Controle da Presidência.
Folha Mas o que aconteceu?
Greca Pelas informações que me eram repassadas confiei que as medidas estavam sendo tomadas pelo Indesp. No dia 3 de setembro, quando tomei conhecimento de que nada do que foi dito havia sido feito, intervim no setor. Determinei, por escrito, a abertura de sindicância para apurar responsabilidades; pedi para o ministro da Justiça, José Carlos Dias, uma investigação da Polícia Federal. O professor Tubino só instaurou a sindicância no dia 8, embora eu a tenha determinado verbalmente desde meados de agosto. Quando constatei a inoperância de Tubino o exonerei. Por elegância, e só por elegância, deixei que apresentasse o pedido de demissão. Não é verdade que o meu Ministério só agiu quando surgiram as denúncias.
Folha As denúncias feitas contra o Indesp colocaram o senhor na linha de tiro. Como reverter esse desgaste?
Greca Não há desgaste político. Meus adversários é que pensam que poderão provocá-lo. Mas não conseguirão. As denúncias contra o Indesp estão sendo investigadas por três instâncias diferentes por determinação minha. Nem preciso me preocupar ou fazer um trabalho específico para reverter o desgaste que meus adversários pretendem me impor. As denúncias vazias e sem sustentação serão esvaziadas pela seriedade do trabalho de saneamento no Indesp.
Folha Entregar a fiscalização dos bingos para a Caixa Econômica e confiscar as máquinas caça-níqueis não é admitir que o seu Ministério falhava no controle?
Greca Nada disso. Entregar a fiscalização técnica e a arrecadação dos bingos para a Caixa é o exemplo claro de que o meu Ministério está empenhado em seguir a determinação do presidente Fernando Henrique de corrigir rumos, de encontrar soluções capazes de melhorar os serviços prestados ao País. Repito: não sou o ministro do jogo, sou o ministro do Esporte e Turismo.
Folha O Senado analisa nos próximos dias requerimento de Eduardo Suplicy convocando o senhor para prestar esclarecimentos sobre os bingos. O Senado também quer ouvir o diretor Luiz Buffara seu indicado e a Câmara, o ex-presidente do Indesp Manoel Tubino. Como o senhor encara esses pedidos? No seu caso, se aprovada a convocação?
Greca Encaro com total tranquilidade. Quem não deve não teme. Sempre estive a disposição para prestar esclarecimentos. Nunca me neguei a falar sobre o assunto. Essas denúncias vazias não abalam em nada a confiança depositada em mim pelo presidente Fernando Henrique, pelo comando do PFL e pelos meus colegas de Ministério.
Folha Com a descentralização da atividade de fiscalização, a sua pasta não perde força?
Greca Entendam: não houve descentralização e muito menos prejuízo político. Estamos firmando um acordo operacional com um centro de excelência em loterias. O Ministério do Esporte não se resume aos bingos. Nada disso. O Ministério do Esporte e Turismo é o programa Esporte Solidário, que leva a prática desportiva para nossas crianças e adolescentes. É o programa Pintando a Liberdade, que leva aos nossos detentos uma possibilidade de ressocialização ao ensiná-los a fabricar material desportivo.
Folha Com que orçamento o senhor contava e com que orçamento vai poder realmente contar com essas mudanças?
Greca O orçamento para o Esporte para este ano foi de, aproximadamente, R$ 35 milhões. Só com as mudanças nos bingos, esse orçamento deverá ser engordado em R$ 50 milhões. Além de sanear o setor, estamos prevendo o cumprimento do papel social dos bingos ao criarmos a Taxa de Administração de Bingos.
Folha Os seus adversários senadores Roberto Requião e Osmar Dias se valeram do seu momento de dificuldades para lhe cobrar explicações. Como o senhor analisa isso?
Greca É nessa hora que tenho pena do Paraná. Triste Paraná, que tem uma bancada de três senadores empenhados em sujar o nome do nosso Estado na esfera federal, baseados em mentiras. Pobre Paraná, que, ao contrário dos outros Estados, não tem senadores capazes de deixar as divergências políticas paroquiais de lado para defender o seu Estado. Não sou eu quem perde com isso, é o nosso querido Paraná. Ressalto que é a bancada no Senado, a da Câmara é empenhada na defesa do Estado.
Folha O senhor sinalizou na semana que passou uma pontinha de arrependimento por ter assumido a função confiada pelo presidente Fernando Henrique. O senhor está arrependido? Por quê? E a dúvida ainda persiste?
Greca Em momento algum me arrependi de ter assumido o Ministério. Isso é uma coisa que não existe. Como sempre interpretam o que dizemos como querem. Usei uma figura de linguagem, o que é muito comum ao meu jeito de me expressar, para mostrar o tamanho do problema. Foi um relatório da Secretaria de Controle Interno da Presidência que, no ano passado, portanto bem antes de o Ministério do Esporte e Turismo existir que falou em caos no Indesp. Não me arrependo de ser ministro e continuo firme no cumprimento das tarefas confiadas a mim pelo presidente.
Folha O ex-presidente do Indesp professor Manoel Tubino deixou a função acusando-o de proteger e fazer vistas grossas a atitudes suspeitas de Luiz Buffara. Qual o seu relacionamento com Buffara? E seu grau de confiança nele?
Greca Engraçado. Até onde eu sei, o Indesp é uma autarquia vinculada ao Ministério e comandada por um presidente, que tem a responsabilidade de observar tudo o que acontece por ali. Por que é que o Manoel Tubino não me falou nada enquanto estava no cargo. Que estranho apego ao cargo este homem tinha que só resolveu falar de atitudes suspeitas de pessoas subordinadas a ele e não a mim, quando eu decidi demiti-lo por inoperância. Que estranho personagem é esse que agora quer responsabilizar outras pessoas por atos assinados por ele mesmo. Ele quer convencer alguém que assinou atos sob tortura, mas que só resolveu denunciá-los depois de demitido? É loucura, no mínimo!!!
Folha á E as vistas grossas?
Greca Não fiz vista grossa para nada. Se alguma investigação existe é por determinação minha, tenho testemunhas de sobra disso. Luis Antônio Buffara é um técnico que prestou grandes serviços na Prefeitura de Curitiba, onde coordenou o programa com o BID que viabilizou as ruas de cidadania, os ônibus biarticulados e a urbanização e saneamento de diversas ruas de Curitiba. É um excelente engenheiro. Até agora, nada de consistente foi apresentado. Um juiz federal negou medida cautelar para um pedido de afastamento do Buffara por entender que ele tem direito de defesa. Não sou adepto de métodos nazistas. Mas quero deixar claro que, não só nesse episódio, se for encontrada prova consistente contra qualquer integrante da minha equipe o responsável pelos atos irregulares será demitido imediatamente. Seja quem for. Nunca tolerei a corrupção. Todo o mundo sabe disso.
Folha O senhor tem recebido o apoio esperado do governador Jaime Lerner, um de seus principais aliados, em todo esse episódio dos bingos? E os demais políticos do PFL?
Greca Conto com o total apoio do governador, da direção nacional do meu partido e do presidente Fernando Henrique, que aprovou prontamente todas as propostas levadas por mim para sanear o setor de bingos. O apoio, inclusive, vai além das fronteiras do PFL. Nesse episódio, os líderes dos partidos que apóiam o governo no Congresso apresentaram irrestrito apoio e fizeram discursos contra essa campanha absurda.
Folha Em algum momento achou que estava em operação um processo de fritura contra o senhor?
Greca Não. Desde o início do ano, quando decidi sanear o setor de bingos sabia que enfrentaria dificuldades, que os interessados em manter o caos tentariam me derrubar. Também não tinha dúvidas de que meus adversários tentariam se aproveitar do momento. Mas não tenho medo e estou pronto para continuar enfrentando a tudo e a todos.
Folha Muitos políticos e empresários defendem a liberação dos cassinos em cidades turísticas. Qual a sua posição sobre o assunto?
Greca Pessoalmente sou contra o jogo. Mas, como homem público, tenho o dever de cumprir as decisões do Congresso Nacional. O assunto cassinos está em discussão no Congresso. Essa é uma decisão soberana do Congresso.
Folha Durante boa parte dos dez meses em que o senhor responde pelo Ministério a sua imagem na mídia já esteve em alta e em outros momentos em polêmicas (história do hino dos 500 anos). No caso bingos, a questão é outra: envolve denúncias fortes como a cobrança de propinas. O senhor tem dito que são disparos de políticos. O que é mais fácil de se administrar: o fato de o senhor destoar do quadro sisudo de ministros ou ter de enfrentar acusações de corrupção?
Greca Não pauto minhas ações como Ministro pela mídia. Tenho compromisso com o presidente Fernando Henrique, com o meu partido e com os meus eleitores. Todos apostam em mim pela minha capacidade de trabalho. Sobre as denúncias de cobrança de propina para uma suposta caixinha eleitoral só posso dizer que é, no mínimo, uma sandice. Se uma pessoa quer fazer caixinha de campanha, ela estaria passando o controle financeiro da área para a Caixa Econômica Federal. Ora, não me façam rir com uma lógica tão absurda. Não conheço o mal. E meus adversários não conseguirão o que querem, porque toda a minha carreira política está calcada em no meu patrimônio moral, que é inquestionável.
Folha O senhor se encanta mais com a organização das comemorações dos 500 Anos ou das atividades do Ministério pelo qual responde?
Greca Não é questão de encantar mais ou menos. Tenho a obrigação de dar dedicação total a todas as tarefas confiadas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso seja como Ministro responsável pela política nacional de geração de emprego e renda no Turismo, pela política nacional de Esporte, e como ministro presidente do Comitê-Executivo dos 500 Anos. Faço tudo com a maior atenção e dedicação.
Folha O senhor é pré-candidato ao governo do Paraná em 2002?
Greca No momento estou preocupado com a minha missão como Ministro do Esporte e Turismo. Ainda é cedo para pensar em 2002.
Folha Seu candidato para Curitiba é Cassio Taniguchi?
Greca A candidatura Cássio Taniguchi à reeleição, que hoje conta com o apoio do meu partido, também conta com o meu apoio. Sou um político que segue os caminhos de seu partido.
Folha Falou-se que o senhor defenderia o nome de Margarita Sansone. Esse boato tem procedência?
Greca Fala-se muito. O meu candidato, hoje, é Cássio Taniguchi. Nas eleições do ano que vem apoiarei os candidatos do meu partido.





