Entrevista
O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) não tem dúvidas de que a atual situação política, econômica e social do País favorece os partidos de oposição para as eleições de 2000 e 2002. Mas critica o fato de o pré-candidato à presidência da República, Ciro Gomes (PPS), começar o debate pregando uma candidatura única das esquerdas. Está começando onde deveria terminar, opina Rebelo, que considera mais importante discutir programa de governo. Ele elogia o esforço de Ciro, mas diz que outros partidos têm programas mais importantes. O PCdoB, o PT, podem oferecer à sociedade alternativas mais consistentes, mais profundas, mais verossímeis do que ele oferece. Para Rebelo, não sobrou nada do governo de FHC e isso vai refletir no fortalecimento dos partidos de esquerda e centro-esquerda já nas eleições do próximo ano. A situação do governo vai ser muito difícil. Vamos ter uma eleição nacionalizada, federalizada. Os municípios recebem o impacto direto da crise federal, da União e o cidadão sabe que o problema do emprego não vai ser resolvido na esfera do município, argumenta o deputado, que está em seu terceiro mandato. Rebelo também foi vereador em São Paulo e é considerado um dos cem cabeças do Congresso, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Ele já foi presidente da União Nacional dos Estudantes de 1980 a 1981, é jornalista, tem um livro publicado No olho do furacão e, na semana passada, esteve em Londrina a convite do PCdoB local onde fez palestra e concedeu a seguinte entrevista à Folha:
fotos: Mário CesarSEM CHANCERebelo: O governo não pode deixar que certos atos por ele praticados sejam investigados. Porque o governo não resistiria à investigaçãoNão sobrou nada do governo FHC
Para deputado do PCdoB, País perdeu orgulho nacional, esperança coletiva e moeda já deixou de ser estável
Patrícia Zanin
De Londrina
FolhaA que o senhor atribui os tão baixos índices de popularidade do governo de FHC?
RebeloAo desemprego nunca registrado na história do País, à volta da inflação, que não é a clássica, a que se revela em índices mensais, mas é a inflação no pagamento dos juros da classe média, da população pobre que compra um liquidificador, que compra um sapato no crediário e paga juros exorbitantes. O povo percebe essa situação, o drama social que às vezes surge na televisão, como a seca no Nordeste. As pessoas vão perdendo a confiança no governo. Como dizia o estudioso inglês John Stuart Mill: um país não vive sem orgulho nacional, sem esperança coletiva e sem moeda estável. O presidente perseguiu a moeda estável ao preço de perder o orgulho nacional e de perder a esperança coletiva. O povo até que compreendeu, tolerou, mas aí também perdeu a moeda estável. Foi uma das maiores desvalorizações da história do País. Não sobrou nada do governo.
FolhaNão é possível estabelecer nenhum ponto positivo nessa política de privatização?
Você não teve uma
privatização, apenas.
Ela foi associada a
uma desnacionalizaçãoRebeloNão. O Brasil tinha pouco telefone, por exemplo, porque tinha pouca saúde, educação, pouco salário. Ou seja: a relação entre o número de telefones guardava uma aproximação com os bens disponíveis pela população em outros terrenos. E o País tinha uma coisa muito importante que deveria ser preservada, além de empresas, com grande capacidade instalada e infra-estrutura, como é o caso da Telebrás, da Embratel. O Brasil tinha também acumulado o conhecimento fundamental na área científica e tecnológica, mas tudo isso foi desmontado. Os proprietários estrangeiros das empresas privatizadas vão, naturalmente privilegiar a tecnologia dos seus países. Até na publicidade estamos perdendo a nossa criatividade. Expressões como interurbano demonstravam que eram brasileiros que faziam a publicidade. Hoje você fala em longa distância, o que mostra que alguém está traduzindo do inglês, onde se usa a expressão longa distância.
FolhaÉ uma desnacionalização da língua, inclusive?
RebeloCompleta.
FolhaTelefonica não leva acento circunflexo...
RebeloExato. Você não teve uma privatização, apenas. Você teve uma privatização associada a uma desnacionalização. Não é uma coisa que deixou de ser patrimônio público; deixou de ser patrimônio nacional também.
FolhaE como fica a questão do preço? O sistema telefônico foi privatizado em real, próximo à desvalorização do real...
RebeloIsso mostra que a degradação entre aqueles que fizeram o negócio chegou a um grau muito baixo, deplorável. Collor dizia primeiro que era preciso vender para investir na saúde e na educação. Depois, o atual governo disse que era para pagar dívida mesmo. Depois não foi para pagar nada, ou seja: o dinheiro acabou consumido na desvalorização e pagamento dos juros da dívida. Nem no principal foi. Tanto é que a dívida continua aí.
FolhaComo o senhor, que integra a oposição, viu o documento que pedia a instalação da CPI da Telebrás ser arquivado?
RebeloO governo não pode deixar que certos atos por ele praticados sejam investigados. Porque o governo não resistiria à investigação. É bom lembrar que o presidente Collor não resistiu à presença de um cheque na conta bancária, no valor de uma perua Elba. Terminou deposto, no impeachment. Imagine o que aconteceu na montagem do esquema da reeleição? Depois veio a privatização das telecomunicações. Teve também a pasta rosa, o Proer, nada disso foi investigado, apesar de a oposição pedir. Os crimes do governo, a bancada majoritária da situação não permite que se investigue.
FolhaNão é frustrante tanta batalha para morrer na praia?
Nenhum meio de
comunicação está
acima da sociedade
e de seus interessesRebeloNão é frustrante na medida em que você consiga fazer a população perceber que um quer investigar e o outro não deixa. O governo termina pagando um preço. Talvez menor, mas ele paga, porque deixa a opinião pública com essa pergunta na cabeça: por que não quer investigar? Se o governo teme é porque certamente deve.
FolhaÉ nesse contexto que o senhor acha que está relacionado o crescimento das esquerdas? A revista Veja trouxe recentemente a subida de Ciro Gomes nas pesquisas. O senhor acha que isso vai se refletir nos municípios nas eleições do ano que vem?
RebeloCom certeza. Nós vamos ter uma eleição nacionalizada, federalizada. Nós não vamos ter eleições municipais. Nós tivemos eleições municipais no auge do plano Real. Por quê? Porque as pessoas partiam do pressuposto de que, como no País as coisas andavam razoavelmente, cabia dentro do município escolher o melhor administrador, o melhor gerente para aquele município. Agora, isso não vai acontecer. Por quê? Porque os municípios recebem o impacto direto da crise federal, da União. Então será uma eleição municipal, mas com caráter de eleição nacional pela situação do País, porque o cidadão sabe que o problema do emprego não vai ser resolvido na esfera do município. Por mais que o prefeito zeloso, ativo e empreendedor consiga uma ou outra empresa para o seu município, cinco ou seis vão fechando ao mesmo tempo porque a economia do País está em contração. As pessoas sabem que esse é um problema da política nacional e essa política nacional vai ser debatida nessa eleição.
FolhaQuanto a esquerda pode crescer no País no ano que vem?
RebeloÉ difícil estabelecer uma meta, uma marca, mas posso dizer, com certa segurança que a oposição, não só a esquerda, a oposição que vai da esquerda até Ciro Gomes, essas forças vão ganhar muitas prefeituras. O PSDB, o PMDB, principalmente esses dois partidos, vão perder muito espaço. A situação do governo vai ser muito difícil nestas eleições e quando você olha quem vai ampliar, é justamente a oposição de esquerda e de centro.
FolhaO senhor acha que vai ser possível fazer uma candidatura única de esquerda em 2002, como defende Ciro Gomes? O que o PCdoB pensa disso?
RebeloAcho que o principal não é escolher o candidato. É debater o programa, ou seja, que tipo de movimento o Brasil precisa fazer hoje. Aí depura e vai saber quem está de acordo. O Ciro apresenta coisas interessantes na proposta dele. Acho que a esquerda apresenta coisas mais avançadas, mas eu acho que poderia estabelecer um diálogo. Não precisa que um retire a candidatura e o outro mantenha. Pelo menos dialogar para ver em que medida há acordo em torno do programa. É preciso discutir o programa e que rupturas precisam ser feitas. É preciso ter coragem para assumir. O Brasil não vai alterar essa fisionomia de estagnação, de injustiça, de destruição que está se desenhando, sem entrar em conflito com interesses importantes, no mundo e dentro do País. Você vai ter coragem de enfrentar os interesses dos Estados Unidos, que querem transformar o Brasil numa espécie de grande Porto Rico, mercado cativo para empresas americanas? Ou o Brasil vai ter mais uma vocação para uma Índia, uma China, ou seja, cooperando, colaborando, se integrando no mercado mundial, mas mantendo sua autonomia, sua esfera própria? O Brasil tem que conviver bem com os EUA, é o grande vizinho que nós temos, temos que respeitar, mas temos que ter nossos interesses, que são, em alguns casos conflitantes com os interesses americanos. Aí está a primeira questão. Com a elite brasileira também vai ter que se brigar porque é preciso distribuir a renda no País.
FolhaO que o senhor pensa sobre Ciro Gomes?
RebeloEu respeito a trajetória dele, que já foi do PDS, depois do PSDB. Questiono a gestão dele no Ministério da Fazenda. Acho que foi uma gestão muito discutível, promoveu a maior abertura comercial que o País tem notícia, rebaixou as alíquotas mais do que ninguém. Mas acho que hoje quando ele se propõe a discutir com a oposição, não o nome, que é começar onde deveria terminar, mas discutir um programa, acho que é interessante.
FolhaO PCdoB tem disposição de discutir junto?
RebeloNão. Até porque não fomos procurados por ele. Estamos discutindo com esse bloco nosso que é o PCdoB, PDT e PSB. Mas acho que você deve estar aberto a discutir.
FolhaSe o partido for convidado, discute?
RebeloAcho que sim. A discussão deveria haver. O PT não tem porque ter medo do Ciro Gomes e sim das idéias dele, mas as idéias do Ciro Gomes não metem medo em ninguém, principalmente quem é da oposição. O PCdoB, o PT, podem oferecer à sociedade alternativas mais consistentes, mais profundas, mais verossímeis do que ele oferece.
FolhaEstamos vivendo uma crise generalizada com relação à ética no País?
RebeloA crise ética no Brasil é antiga, e às vezes há a tentativa de superação. Hoje você tem, do ponto de vista ético uma sociedade completamente desajustada, desequilibrada, porque os desajustes econômicos e sociais também vão conduzindo ao desajuste de valores. As pessoas começam a perder a referência do que é certo, do que é errado. Eu sou presidente da Comissão do Trabalho e da Previdência do Parlamento Latino-Americano e fizemos um levantamento sobre a questão da gravidez na adolescência na América Latina e 26% das mulheres que engravidam na América Latina são menores de 17 anos, solteiras e pobres. Quando você vai examinar as causas, não é problema do desconhecimento do método anticoncepcional. Essas jovens, essas adolescentes procuram engravidar muitas vezes porque já não acreditam na sociedade. Foi mais uma necessidade emocional e afetiva de quem não confia mais na sociedade.
FolhaOs meios de comunicação têm sido muito criticados. Alguns defendem a necessidade de um instrumento de índole coercitiva. O senhor acha que é preciso impor limites?
RebeloNão tenho dúvida de que sim. Nenhum meio de comunicação está acima da sociedade e dos interesses da sociedade. Você expõe uma criança de seis anos de idade a cenas de violência, não educa mais os seus filhos. A TV educa e da pior forma possível. Essas cenas de sexo, muitas vezes de mal gosto, mal produzidas, para um adulto, que compreende o significado daquilo, tudo bem, mas para uma criança, que nem despertou, nem biologicamente está preparada, quanto mais psicologicamente, qual o impacto daquilo? Algum mecanismo de proteção dessas crianças, que são o Brasil do século 21, têm que ter.
FolhaO senhor acha que o chamado código de ética que as TVs estão discutindo com a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, ou seja, uma espécie de autocontrole, vai minimizar o problema?
RebeloO que eu vejo é que os índices de audiência estimulam que os limites sejam superados para pior. Se um consegue expor tal cena de degradação humana e obtém índices elevados de audiência, o outro precisa degradar ainda mais para poder atrair audiência maior para seu programa. E qual o limite disso? Não sei se o autocontrole, a autolimitação vai funcionar. Só acredito na autolimitação com a participação da sociedade e com regras conhecidas. Não digo que seja proibição, mas regras conhecidas em questão de horário, que respeite presença de crianças, por exemplo, que você não controla.
FolhaQuais os caminhos que o senhor apontaria?
RebeloA democratização vem muito mais pelo controle social da informação. O controle seria a fiscalização ou seja, é difícil admitir que pode construir uma democracia com um grupo monopolizando ideologicamente e politicamente, não digo só comercialmente e economicamente, aquilo que chega aos lares da imensa maioria da população. De 70% a 80% da população brasileira só tem contato com o que acontece no País através da televisão. Só acontece no Brasil o que a TV veicula. Todo juízo de valor, toda capacidade de compreender, raciocinar, de julgar o que acontece no País vem desse contato. São pessoas que não lêem jornais, que não estão filiadas a partido político, que não participam de sindicatos, que não têm acesso a nenhum tipo de informação, que não seja da televisão. Como é que você pode permitir monopólio sem nenhum tipo de controle social, sem conselho da sociedade para discutir, julgar, avaliar. Como pode permitir uma coisa dessas?





