Entrevista - Publicitário quer um 'pacto paranaense'
Jorge Eduardo
e Pedro Ribeiro
De Curitiba
Folha Como foi sua passagem por Brasília?
Sérgio Reis Brasília para mim foi uma experiência fantástica, foi bom ter ido para lá. Tirei a fantasia e passei a colocar as coisas na sua realidade. Lá encontrei algumas coisas incríveis. Por exemplo: em Brasília trabalha-se muito mais do que normalmente se imagina, e com um pessoal que está sem aumento de salário há cinco anos. Pior ainda, você como chefe não tem poder para promover o servidor e aumentar o salário dele, então você tem em Brasília pessoas de vários ministérios que trabalham até tarde da noite e não têm seus méritos reconhecidos. Mas o saldo final é bom e acho que consegui fazer campanhas sociais pelo Brasil muito mais do que quando estava no Bamerindus.
Folha Como é trabalhar com a máquina estatal?
Sérgio Reis Existe a burocracia e não tem outro jeito: ela está lá, presente. E para explicar o que o governo está fazendo de reforma agrária, não é fantasiar, é contar a verdade, prestar contas. Aí o ministério da área não tem verba, e o que você faz? Você não faz. Aí é preciso fazer uma campanha para explicar as cinco principais reformas e seu significado, importância etc.. Mas cadê os recursos para poder explicar tudo isso à população? Aí não tem recurso, é uma doideira.
Folha Qual era a verba que você administrava?
Sérgio Reis Graças a Deus eu não administrava verba, porque quando cheguei lá isso já estava a cargo do Alex Periscinotto. Cabia a mim o planejamento e o conteúdo da comunicação do governo. Mas acho que juntando tudo, as estatais inclusive, dava em torno de R$ 300 milhões por ano. E isso é muito, apesar de tudo.
Folha Esse dinheiro era bem administrado?
Sérgio Reis Acho que sim, e no período em que lá estive nunca recebi uma orientação, daquelas do você tem que fazer isto ou aquilo, vamos fazer uma grande jogada aqui... Isso nunca houve. E mais: no período do Fernando Henrique o governo passou a pagar preços competitivos pela publicidade, porque a publicidade oficial sempre pagou pela tabela cheia, e no governo Fernando Henrique já se começou a pagar com descontos. Hoje o governo tem todos os descontos com os quais as empresas privadas trabalham.
Folha Você acha que o governo federal se comunica bem?
Sérgio Reis Eu acho que, em geral, o governo não se comunica bem. Eu acho que o nível de nossa comunicação melhorou, mas não chegou ao ponto ideal. Aí todos nós sofremos com isso. Aí, quem paga a conta, toda a conta Brasil, somos nós. Eu acho que a comunicação social tem um aspecto que vai além da lógica: você tem que cultivar o povo, o seu povo. Eu, como prefeito, tenho que cultivar meus munícipes. Como governador, a mesma coisa, e isso é importantíssimo. Nessa parte a comunicação dos governos, como um todo, anda meio acomodada. É papel dos governos governar, tomar atitudes, agir. Tem muita coisa aí para profissionais fazerem.
Folha O que está faltando?
Sérgio Reis Na realidade, a comunicação é o meio; o objetivo e o fim são o governo, o projeto de governo que se tem. Ocorre que nós temos vergonha, como governantes, de dizer aquilo que não estamos conseguindo e por que não estamos conseguindo. Porque isso nos envergonha. Como pais de família ou donos de empresa, temos um monte de planos, de projetos, de idealizar fazer tal coisa e não deu. Aqui eu chamo o pessoal, os sócios, apresento os problemas e não desistimos. Por que em governo não se faz isso? O governo acha que se fizer isso é frouxo. A questão da comunicação social tem umas regrinhas, das quais não se pode fugir. E os ânimos do cidadão são como febre, termômetro. Se o ânimo não estiver bom, você pode estar bom para danar que não vai fazer nem gol. Isto é comunicação social.
Folha Este não é então um problema das agências que trabalham para governos?
Sérgio Reis Eu acho até mais. A minha experiência é triste e eu não gostaria de ficar falando da experiência, porque mostra quilometragem. Quem faz a boa comunicação não é a agência, é o cliente. E eu trabalhei para tanta gente. Por que a propaganda do Bamerindus era boa? Porque o cliente bancava as idéias, acreditava nelas. Vejam a Parmalat. A agência DM9 não conseguiria fazer aquelas campanhas se não fosse a fé da Parmalat decidindo um caminho. E a má propaganda também é responsabilidade de quem autoriza. Cada um tem a propaganda que merece. Cada governo tem a comunicação que merece.
Folha Isso, em certa medida, pode ser aplicado aos nossos políticos em Brasília?
Sérgio Reis Temos que juntar, como um feixe. E fazer uma espécie de acordo: durante um ano nós vamos trabalhar como feixe, e no dia tal acionamos um apito aqui e cada um vai para o seu lado, que vai ser época de eleição etc.. Mas até lá vamos trabalhar juntos pelo Paraná. Não se trata nem de discutir se o Jaime (Lerner, governador) merece. É porque as pessoas merecem. Os gaúchos, mineiros e nordestinos fazem isso. Nós paranaenses é que pecamos por essa falta de união.
Folha E como foi trabalhar com o governador Mário Covas?
Sérgio Reis Em São Paulo foi maravilhoso, porque lá tem essa coisa boa que Brasília não tinha, ou seja, a verba era única. Então você atendia por necessidade, só que a verba lá, em 97, foi de R$ 26 milhões, e no ano passado, ano de eleição, foi de R$ 22 milhões. Eram R$ 26 milhões e Mário Covas reduziu para R$ 22 milhões. Aí eu dizia: governador, precisa comunicar o que o senhor está fazendo. Nós vamos perder a eleição. E ele: Eu perco a eleição; eu não tenho mais dinheiro e, se eu estou parando obra, que é muito mais importante, por que vou continuar ou ampliar a comunicação? Não vou. E ele repetia: Perco a eleição. Covas chegou a paralisar as obras do metrô, que iam dar, se tivesse continuado, mais 2 milhões de usuários. Imaginem: 2 milhões de usuários em São Paulo, o que não significava em termos de eleitorado? Covas inaugurou um terço disso e parou as obras. Por quê? Porque ele não tinha dinheiro. Esse é o homem que pegou o governo com 27% de déficit do Fleury e do Quércia, de oito anos anteriores, e, no primeiro ano, reduziu para um décimo do que era. No segundo ano, zero; no terceiro ano, zero; e no último ano, de eleição, zero. E ainda por cima negociou a dívida do Estado. Esse é o Mário Covas.
Folha É bom candidato à Presidência da República?
Sérgio Reis Por suas qualidades e pelo governo que vem fazendo em São Paulo é, sem dúvida nenhuma, um excelente candidato. Quase certamente o meu candidato.
Folha Voltando ao Paraná. O senhor acredita que ainda existam empresários genuinamente paranaenses?
Sérgio Reis Existem, mas se destacam mais os grandes empresários. Temos a Inepar, O Boticário, e no interior tenho me surpreendido com o número de empresas que insistem em não se entregar. A propósito, temos de repensar nosso relacionamento com o capital estrangeiro, para que ele não venha para o Brasil, para o Paraná, simplesmente para comprar nossas empresas e extrair riquezas. O capital estrangeiro precisa conviver com a sociedade e se humanizar. Temos de discutir essa história de, em breve, o empresário brasileiro virar só franqueado da McDonalds.
Folha O senhor acredita que outras empresas paranaenses de porte estejam a ponto de ser vendidas?
Sérgio Reis Acontece que desde a crise da Coréia, em 97, e depois a da Rússia, os impostos têm aumentado assustadoramente. E agora dobrou a CPMF. Nós somos um dos países que mais pagam impostos. Mas nós ainda temos nosso mercado interno, que só com os automóveis tem potencial de vender 3 milhões de unidades num ano. Nós paranaenses temos de saber operar isso aqui, temos de ter nosso pacto paranaense, e não ficar esperando que o governo federal o promova. A Bahia está certa e está produzindo seu pacto. Falta-nos fazer o nosso. Já perdemos nossos supermercados e podemos perder nossas padarias. mas não adianta discutir esses problemas depois de as coisas acontecerem. Vamos discutir isso agora. Logo podemos perder nossas empresas de saúde e eu pergunto: empresas estrangeiras vão respeitar leis de um país de quinta categoria? E a culpa é deles? Não, a culpa é nossa, que ainda não aprendemos a nos fazer respeitar.
Folha E o nosso sistema bancário?
Sérgio Reis Hoje temos, a rigor, cinco grandes bancos brasileiros: Banco do Brasil, Caixa Econômica, Bradesco, Itaú e Unibanco. Será que vamos esperar pela desnacionalização para depois gritar? Aí vão dizer: Não, Sérgio, você é xenófobo, antiglobalização. O que esses bancos estrangeiros que estão aí fizeram para baixar os juros? Nada. Temos de impedir a desnacionalização do BB e da Caixa e, de alguma forma, criar formas de preservação dos outros bancos. Você vai a um banco estrangeiro pedir que ele tome conta do seu dinheirinho, e sabe o que o banco faz? Se na China a situação estiver melhor, é lá que ele vai aplicar seu dinheirinho. Você vai ganhar um pouco mais aplicando na China, mas e o nosso desenvolvimento? E para emprestar, o banco vai confiar mais na empresa de seu país de origem ou numa brasileira? Temos de salvar empresas brasileiras como a Embraer, temos de salvar a Embraer. Nós temos de discutir questões como essas, unindo a sociedade civil, as empresas, os intelectuais da comunidade de nossas universidades. Nós ainda temos nossa siderurgia, nossos calçados, nossos frangos... Temos de pegar os pontos em que ainda temos compromisso, antes que morram. Se eles compram supermercados, não vão comprar Embraer, engenharia, comprar a Sadia? Porque Deus é brasileiro, continuamos trocando honra por pedacinho de espelho? Passaram-se 500 anos e depois dizemos que os outros são os culpados. Culpados somos nós.
Folha No caso paranaense, o governo deve manter a Copel estatizada?
Sérgio Reis O governo deveria segurar a Copel, mas o problema é que o Estado não tem dinheiro. A Copel é uma grande empresa, mas como é que se tira o Estado dessa situação sem vender a Copel? Mas a Copel não tem nada a ver com a história, e nem nós. Trata-se de uma grande empresa, que gera empregos e empregos de excelência. Daqui a pouco nós vamos ter de ver esses empregos serem destinados aos desempregados da Inglaterra ou de outro país.
Folha Qual o verdadeiro papel da imprensa diante desse cenário?
Sérgio Reis Precisamos fazer uma Pauta Brasil, uma pauta verdadeira, um compromisso com a verdade - sempre. Nós temos um compromisso com o nosso País, porque se nós da imprensa não fizermos isso, quem é que vai fazer? O empresário está sem voz, está fraco. E os políticos tem um linguajar, um mundo que é real, mas é um outro mundo. Vamos unir imprensa, sociedade e governo para discutir seriamente essa Pauta Brasil.
Folha Para encerrar: sua agência, a Get Propaganda, ganhou licitação para atender a conta da Prefeitura de Londrina. Vai ser difícil?
Sérgio Reis Como já disse, quem faz a boa campanha é o cliente, e a Prefeitura de Londrina tem trabalho, tem obras para mostrar. Esse moço, o prefeito Antonio Belinati, é um grande administrador e um grande comunicador. Tem um ótimo trabalho a mostrar. Belinati tem e terá ainda mais uma ótima projeção estadual.
Folha É um bom candidato ao governo do Estado em 2002?
Sérgio Reis E por que não?Ex-comunicador de FHC e Mário Covas, Sérgio Reis volta ao Paraná e prega a união pela salvação das empresas paranaenses
José SuassunaHORA DE MUDANÇAPublicitário Sérgio Reis: Temos de repensar nosso relacionamento com o capital estrangeiro, para que ele não venha para o Brasil, para o Paraná, simplesmente para comprar nossas empresas e extrair riquezas. O capital estrangeiro precisa conviver com a sociedade e se humanizar. Temos de discutir essa história de, em breve, o empresário brasileiro virar só franqueado





