Entrevista - Presidente da AL promete novo estilo
Arquivo FolhaDescentralizaçãoO novo presidente da Assembléia, Nelson Justus, se diz um homem de diálogo e quer saber de tudo sobre a casa antes de mexer em alguma coisaO sucessor de Aníbal Khury (PFL) na presidência da Assembléia Legislativa, Nelson Justus (PTB), de 52 anos, assumiu o comando na quinta-feira, prometendo um novo estilo: acabar com a centralização, característica marcante do ex-deputado. Justus garante que vai dividir responsabilidades e decisões com todos os partidos, inclusive a oposição, que lhe garantiu vitória sobre o líder do governo Valdir Rossoni (PTB). Com o Palácio Iguaçu, aposta num relacionamento ainda mais afinado.
O novo presidente não sabe quantos funcionários a Assembléia tem, se existem fantasmas, qual é a frota de veículos e, como vice de Aníbal, admitiu que nunca tentou saber. Ele era o todo-poderoso. Justus, que está em seu terceiro mandato e já foi secretário de Indústria e Comércio do governo Lerner, também promete administrar da maneira mais transparente possível. E avisa que não pretende criar cabide de emprego na Assembléia.
Vaidoso pinta o cabelo, já fez plástica, só bebe água mineral e raramente repete roupas Justus assume: Quando saio do banho, o meu traje está pronto: a meia, a cinta, eu combino com o sapato, com a carteira, com a gravata. Tudo. E confessa: Estou casado há 26 anos e nunca comprei uma camisa. Os méritos são muito mais de minha mulher Nilva do que meus.
NELSON JUSTUS
Presidente da AL promete novo estilo
Eleito para substituir Aníbal Khury, o deputado Nelson Justus promete descentralizar as decisões e acabar com a reeleição
Patricia Zanin e
Leandro Donatti
De Curitiba
Folha Qual é o estilo Nelson Justus?
Justus Primeiro o de ouvir muito. Só estou ouvindo, chamando os diretores da Casa, os deputados, e ouvindo-os. Depois de ouvir, muito, democraticamente dar as minhas posições, discutir e executar. Eu não tenho a idéia, em hipótese alguma, de presidir esta Assembléia sozinho. O estilo Nelson Justus é jamais decidir sob emoções, mas imprimir emoções nas minhas decisões.O que decidir está decidido.
Folha As atribuições antes eram muito centralizadas?
Justus Claro que eram. Não tem como negar, o Aníbal era centralizador, realmente. Era uma coisa que vinha de muito tempo e todos o respeitavam, apesar disso. O Aníbal era muito centralizador.
Folha Dá para manter os compromissos do Aníbal? Funcionários, cargos em confiança?
Justus Eu tenho de primeiro ter tudo isso na mão. Vou contar o número de funcionários, conhecer toda essa Casa, ver tudo o que tem, porque eu nunca... Que presidente pode mandar se não conhecer tudo? E o Aníbal mandava e conhecia tudo. Eu tenho que conhecer tudo, saber tudo, mas dividir a tarefa.
Folha O senhor tem projeto específico?
Justus Sem conhecer tudo não. A gente tem que conversar muito sobre os assuntos. Sou técnico e profissional. Eu na minha empresa por onde passei fiz isso. Na Secretaria da Indústria e do Comércio também fiz isso. Você para mandar tem que saber fazer.
Folha O processo eleitoral não deixou sequelas?
Justus Eu até achei que não. Eleição de mesa é assim mesmo. Olha, aconteceu o que tinha que acontecer. Eu era o vice, fui eleito com 52 votos. O Caíto o segundo vice. Ora, meu Deus do ceú, se vice não tem como função maior a de substituir o presidente e a do segundo vice de substituir o primeiro, então não sei para que serve então o vice.
Folha O senhor acredita que se criou uma dissidência na base do governo?
Justus Nada que não possa ser consertado muito rapidamente. Porque o líder do governo exerce essa função com sabedoria e muita competência. Pelo fato de ser líder o nome já está claro, ele tem que exercer essa função sobre um número grande de deputados. E eu ponderei por diversas vezes isso. Os seus liderados precisam efetivamente de um líder. E não do presidente nessa hora. Tudo tem o seu tempo. Tudo tem a sua hora.
Folha O senhor acha que não era a hora do Rossoni?
Justus Não, não era a hora. Não que ele não tenha competência para ser presidente. Mas a hora era do vice assumir e do líder continuar liderando.
Folha O senhor acha que o deputado Rossoni deve permanecer como líder?
Justus Acho que deve.
Folha O senhor defende?
Justus Eu defendo porque acho que ele exerceu com muita propriedade a liderança do governo.
Folha O senhor não se incomodaria de tê-lo como líder, apesar das duras acusações feitas durante o processo eleitoral?
Justus Tudo isso é o calor da campanha. Acho que se pode fazer um cerzido invisível nisso aí.
Folha E as denúncias de uso da máquina em seu favor?
Justus Não tem cabimento. Foi trote, brincadeira, gozação. Não é verdade.
Folha Como vai ser a relação da Assembléia com o governo?
Justus A melhor possível. Sempre foi muito boa e se puder ser melhor ainda, deverá ser.
Folha O Lerner apoiou abertamente o senhor. Isso não compromete a relação de independência entre os poderes Executivo e Legislativo?
Justus O deputado Nelson Justus é um aliado do governo. E eu entendo que aliado é na alegria e na tristeza. Agora, o presidente da Assembléia é o presidente da Assembléia Legislativa.
Folha O deputado Aníbal sempre demarcou muito bem o seu território. O senhor vai deixar o governador se intrometer na sua administração?
Justus Temos que manter a independência senão esse poder fica muito enfraquecido. Eu acredito muito, aliás, isso eu aprendi com o Aníbal. Eu acredito muito no diálogo.
Folha O senhor teme que os reflexos políticos dessa eleição levem alguns aliados à oposição?
Justus Eu acho que não. O que tem que efetivamente acontecer é que aquelas pessoas que forem aliadas ao governo devem agir como tal. Aquelas que não forem aliadas ao governo, procurem o seu caminho.
Folha Qual foi o segredo para conseguir o apoio da oposição?
Justus Não foi segredo. A oposição me disse que tomou posição de votar em bloco. Fui sabatinado e expliquei por que queria ser candidato. No dia da eleição, algumas horas antes, eles vieram, os treze, e numa espécie de solenidade, o líder do PMDB comunicou que eu fui o escolhido. Eles foram coerentes, éticos e decentes.
Folha O senhor se comprometeu a acabar com a reeleição?
Justus Sim. Eu acho que a reeleição só foi boa para o Aníbal. O projeto era meu e acho que daqui para frente a renovação vai ser salutar porque ninguém vai mais se melindrar e nem ficar com peso moral e acho até que esse meu projeto foi inconstitucional (disse, em tom de confissão, entre risos).
Folha O senhor tem pretensão de ocupar esse espaço do deputado Aníbal? O Aníbal era super influente na Polícia. O senhor pretende também interferir nisso?
Justus Ah, não. Veja bem: a liderança você não compra, você conquista. Você não impõe essa liderança. Eu não posso chegar lá na Polícia e dizer: quero avisar vocês que agora quem dá as cartas sou eu. Não é assim.
Folha O deputado Aníbal é um caso à parte?
Justus O Aníbal conquistou isso ao longo dos anos. Não foi da noite para o dia e não existe isso que essa liderança vá ser substituída imediatamente.
Folha A Assembléia sempre teve a fama de ser um cabide de emprego e de ter funcionários fantasmas. O senhor pretende acabar com isso?
Justus Sempre se falou nisso e agora eu quero ver. Eu quero saber tudo o que tem aqui dentro. Eu quero...
Folha Mas como vice-presidente o senhor não tinha essas informações, não tentou pelo menos saber quantas pessoas trabalham aqui?
Justus Não.
Folha Por quê?
Justus Porque a atribuição do vice, no meu entender, não era essa. O Aníbal era o todo-poderoso. De que me adiantaria saber?
Folha Quando o senhor tiver as informações em mãos, o que pretende fazer?
Justus Prá mim o que é certo é certo e o que é errado é errado. Eu quero tomar conhecimento e jamais decidir sozinho.
Folha E o senhor pretende tornar públicas as informações à sociedade?
Justus Sim. Eu não vou esconder. Com ações, e não com conversa.
Folha Estão ligando muito para o senhor para pedir empregos, favores?
Justus Por enquanto, graças a Deus, ninguém me pediu nada ainda. Só cumprimentos. Olha, agora, aqui não é o Sine (Sistema Nacional de Empregos). O Sine é em outro lugar. Não é esse o melhor jeito. Ora, se quiser vir tomar um cafezinho vai ser muito bem recebido, mas vai perder a viagem porque não dá. Daí vira esculhambação.
Folha A fama da Assembléia de ter pautas minguadas, com muitos projetos de utilidade pública, enfim, muita perfumaria na pauta, o senhor pretende melhorar a qualidade?
Justus Eu vou dividir essa responsabilidade com os partidos.
Folha O senhor vai manter o Dudu gaveta? (assessor de Aníbal que, durante anos, ficou conhecido por congelar a tramitação de projetos a pedido do deputado)
Justus (Risos) Isso é uma brincadeira que tem na Casa...
Folha O senhor já assumiu cargo anunciando um feriadão emendado, praticamente de dez dias de folga. Não pega mal?
Justus Eu tenho que ser o mais prático possível. E acreditar nas decisões que eu tomo (em tom de irritação). Eu não tenho culpa se o feriado cai segunda, terça e quarta. As nossas sessões são somente quinta pela manhã. Sexta não tem sessão. Meu Deus do céu! Eu não vou enganar ninguém. Se eu convocasse sessão para quinta-feira, não ia ter ninguém.
Folha O que o senhor pensa quando ouve a frase de que deputado trabalha pouco?
Justus Eu me revolto. Não só por mim, mas aqui todos os deputados trabalham uma loucura. Deputado que é deputado prá chegar aqui tem que trabalhar muito, senão não chega. E se ele quiser manter isso, tem que trabalhar, senão ele não volta. Político que é político gosta do que faz, sabe fazer e é uma injustiça quando dizem que deputado não trabalha.
Folha O senhor pretende ressuscitar o projeto do deputado Aníbal de comprar Passats alemães para a frota da Assembléia?
Justus Vou fazer aqui uma confissão. Pode passar pela cabeça de vocês que o Aníbal sabia que Passat é carro importado? O Aníbal entrou no meu carro umas 50 vezes. E cada vez que entrava perguntava: que marca de carro é esse? Que era uma aberração você comprar Passat alemão, um carro importado para cada deputado, isso era, mas naquela época fizeram uma promoção.
Folha O senhor é favorável a dar carros para o deputado?
Justus Sim. Tem um deputado aqui, que eu não vou citar o nome, que vem de táxi para Assembléia. A Assembléia pode, questão de segurança, de conforto.
Folha O senhor tem uma imagem refinado. Já foi chamado de lorde inglês...
Justus É uma brincadeira. Isso quem diz são as pessoas que não me conhecem muito bem. Dizer que eu não gosto de me vestir bem, que eu não gosto do que é bom, eu gosto. Eu tenho que estar bem nos lugares mais simples e nos mais sofisticados. Eu me sinto à vontade nos dois. Como se explica então o fato de a minha votação maior ser justamente no interior, nos lugares mais humildes? O Aníbal fazia brincadeiras em relação a isso porque realmente, eu não escondo. Eu tenho um guarda-roupa realmente farto.
Folha O senhor é vaidoso?
Justus Extremamente vaidoso, extremamente. Mas acho que a minha mulher tem muito bom gosto. Estou casado há 26 anos e nunca comprei uma camisa prá mim. Quando saio do banho, o meu traje está pronto: a meia, a cinta, eu combino com o sapato, com a carteira, com a gravata, tudo. Os méritos são muito mais dela do que meus. Agora, eu gosto de estar sempre bem arrumado.
Folha Quantos ternos o senhor tem?
Justus Ahhh... Eu gosto de estar bem apresentado. Vou dizer uma coisa. O segredo da elegância, sabe qual é? É comprar roupa em qualquer lugar e todo mundo pensar que você comprou na Quinta Avenida. Esse é o segredo da elegância. Tem gente que você pode decorar, não é nem vestir, de Fiorucci prá cima e quando vai ver... E o outro que comprou em brechó... Esse prá mim é o segredo da elegância: mais interna do que externa.





