Entrevista - ''O Brasil precisa produzir tecnologia''
Emerson Cervi
De Curitiba
A senhora tem criticado o costume brasileiro de imitar tecnologias produzidas em outros países. Essa dependência é a maior responsável pelo atraso da ciência nacional?
Glaci ZancanO Brasil tem uma tendência para seguir modelos internacionais, sem refletir sobre seus próprios problemas. A ciência é universal, mas o que é próprio de cada sociedade são as tecnologias. Há tecnologias simples que podem resolver problemas que afetam a população. Não é só tecnologia de ponta que resolve. Para produzir tecnologia simples precisamos conhecer nossas particularidades. É sobre isso que eu tenho falado.
FolhaQual a importância da SBPC na mudança de práticas que dificultam o desenvolvimento da pesquisa científica nacional?
GlaciA SBPC sempre lutou pelo desenvolvimento e progresso do País. Ela surgiu em São Paulo há 51 anos, para resolver problemas que existiam nos institutos de pesquisa de lá. Continuamos nessa mesma luta porque a utopia do progresso da ciência ainda não foi alcançada. Nem a Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, que tem 100 anos de existência, alcançou seus objetivos ainda.
FolhaPor que a produção científica acadêmica, que é uma das bases do desenvolvimento tecnológico, ainda é tão pequena no Brasil?
GlaciTemos que pensar que até pouco tempo as universidades eram centros de formação de profissionais e não dedicadas à geração de conhecimento. Foi a partir da criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que as universidades passaram a gerar conhecimento. Antes, isso era feito apenas pelos institutos de pesquisa. Na realidade, a mudança é muito recente. Ainda não temos densidade de massa crítica nas universidades. Estamos construindo essa densidade gradualmente.
FolhaApesar de ser recente, já é possível perceber alguma evolução nessa área depois do CNPq e da Capes?
GlaciNós fizemos um grande esforço. O parque de pós-graduação que o Brasil instalou nos últimos 30 anos é significativo. O Brasil era o 26º País na produção de conhecimento há 15 anos e hoje estamos em 18º. Subimos no ranking da produção científica internacional, o que mostra que o esforço compensou.
FolhaEntão, por que há tanta dificuldade em transformar a produção científica das universidades em novas tecnologias nacionais?
GlaciA produção de tecnologia é uma etapa posterior à pesquisa científica. A produção de conhecimento pode ou não ser revertida em novas tecnologias. Para isso, é preciso ter indústrias que não usem só as caixas pretas dos pacotes tecnológicos de outros países. Precisamos de uma indústria nacional autóctone. Como nossas indústrias são de pequeno porte, elas não têm condições de fazer investimentos em ciência e tecnologia. Isso é outro problema. Na realidade, as grandes empresas transnacionais fazem pesquisa na matriz e não nos países das suas filiais.
FolhaNo caso brasileiro, as grandes empresas estatais têm papel importante na produção de novas tecnologias nacionais?
GlaciPara o desenvolvimento da ciência, as empresas estatais tiveram papel fundamental, sem dúvida nenhuma. Os grandes centros de pesquisa tecnológica do Brasil estão nas estatais. O maior problema é preservar esses centros tecnológicos. Não podemos abrir mão dessa competência instalada. Um exemplo é o Centro de Pesquisas da Petrobras, que domina a tecnologia de prospecção de petróleo em alto mar. Deixar de ter esses centros de pesquisa seria destruir a capacidade de competição do nosso País.
Folha É possível evitar essa perda de competitividade com o processo de privatizações pelo qual passa o Brasil?
GlaciSe forem criadas as condições para que sejam mantidos os centros de pesquisa, com taxa de investimentos anuais nesses institutos, é possível. Para poder manter a capacidade de competição do Brasil é preciso ter investimentos permanentes em pesquisa.
FolhaComo compatibilizar a pesquisa acadêmica com o desenvolvimento tecnológico em um país em que há pouca tradição das universidades na pesquisa e baixas condições de investimentos da iniciativa privada?
GlaciO desenvolvimento tecnológico é muito mais caro que a pesquisa científica. Precisamos de empresas que financiem o desenvolvimento de novas tecnologias. É mais barato fazer pesquisa acadêmica nas universidades do que desenvolvimento tecnológico. Esse tipo de investimento no Brasil é basicamente estatal. Incentivo fiscal para que a iniciativa privada ajudasse a financiar a pesquisa acadêmica seria muito bom.
FolhaA maior parte das empresas nacionais é de pequeno porte, que não têm como fazer investimentos em pesquisa...
GlaciO que precisamos fazer é achar formas de desenvolver a pequena empresa com linhas de crédito de capital de risco para que ela possa se associar às universidades em programas de pesquisa. Se o produto desenvolvido der certo, o recurso retornará ao governo. Se não der certo, ele ficará em fundo perdido. Por isso a SBPC luta pela preservação do sistema público de pesquisa das universidades. As universidades privadas, com poucas exceções, não têm tradição de fazer pesquisa. Também precisamos fazer com que as universidades privadas passem a incentivar a pesquisa científica como atividade acadêmica.
FolhaQual a diferença entre a universidade que faz pesquisa científica e a que não faz?
GlaciO aluno que é formado fazendo pesquisas aprende a resolver problemas. Ao passo que se ele tiver só aulas, não será formado para resolver problemas. No Brasil, ainda existem poucos pesquisadores. O número de cientistas é um décimo do necessário. Eu conheço bem a situação da Sociedade Brasileira de Bioquímica, que tem 500 sócios-doutores aqui. No Japão, a sociedade de bioquímica deles reúne 5.000 sócios. A questão fundamental é que a base científica brasileira ainda é pequena.
FolhaO Poder Público terá que continuar sendo o principal financiador do desenvolvimento científico do País?
GlaciÉ utopia pensar que o mercado assumirá toda a pesquisa científica. A pesquisa básica fundamental não gera produtos, portanto não interessa ao mercado. Ela agrega conhecimento. E para fazer um novo produto é preciso de conhecimento agregado. Mas se você não conhece a biodiversidade local, não tem conhecimento suficiente para conseguir usá-la, por exemplo.
FolhaAs universidades brasileiras estão preparadas para assumir a produção de pesquisa básica em parceria com a iniciativa privada?
GlaciAs melhores universidades do Brasil estão começando agora a fazer o que é norma no mundo inteiro: não entra nenhum professor que não tenha doutorado. Na Argentina, para ser professor é preciso ser doutor. Aqui, nas nossas universidades, entra até recém-graduado. A qualificação mínima do professor é essencial para a produção de conhecimento acadêmico. Mesmo as grandes empresas transnacionais financiam pesquisas em universidades de seus países. Isso porque a universidade conta com o fator renovação e criatividade. Um instituto de pesquisas fechado tende a envelhecer muito rápido. É com a renovação dos alunos e a criatividade que o conhecimento cresce.
FolhaA importação de pacotes tecnológicos, indispensável para o processo de industrialização adotado pelo Brasil da década de 50 em diante, seria outro obstáculo para o desenvolvimento da ciência nacional?
GlaciSim. Volto a dizer que temos que investir em pesquisa para poder conhecer as nossas potencialidades, que não vêm nos pacotes tecnológicos importados do Primeiro Mundo porque a realidade deles é diferente da nossa. Nos últimos 30 anos fizemos um esforço brutal, talvez o maior do mundo, em crescimento de massa crítica. O que a gente não pode agora é deixar isso morrer. Durante toda a década de 90 não houve investimento em ciência e tecnologia. Ficamos parados. Só no Estado de São Paulo se investiu em pesquisa. No governo federal, o dinheiro para pesquisa se reduziu muito. Poderíamos estar crescendo mais rápido se isso fosse colocado como prioridade.
FolhaHá alguma expectativa de mudança nas prioridades do governo federal para ciência e tecnologia?
GlaciA expectativa é que o novo ministro, que vem de uma área estratégica, tenha consciência de que ciência e tecnologia são questões estratégicas. Na década de 90, os investimentos do governo federal nesse setor têm sofrido muitas oscilações. Como se trata de pesquisa de longo prazo, os recursos precisam ser constantes. Com as oscilações, o rendimento do dinheiro investido não pode ser bom. Ficamos dez anos parados no nosso desenvolvimento tardio da ciência e tecnologia.
FolhaCom isso o País perde competitividade internacional?
GlaciNão tenha dúvidas. Quando pára de investir em pesquisa, o País já está perdendo. De acordo com todos os dados internacionais de financiamento à ciência, só é possível ter retorno dos investimentos ou perceber os prejuízos pela falta de financiamento, cinco anos depois. Por isso parece que nada acontece quando os financiamentos param. Mas na verdade estamos perdendo poder de competir. Na Coréia, por exemplo, quando houve aquele abalo econômico terrível no ano passado, o governo decidiu que ciência e tecnologia eram prioridades. Eles investiram mais nesse setor enquanto o nosso governo cortou recursos.
FolhaQuais são as metas da sua gestão como presidente do SBPC para os próximos dois anos?
GlaciNa SBPC não fazemos planejamento a longo prazo porque estamos sempre brigando para que as coisas não morram. Nossa maior preocupação agora é fazer com que as pessoas desesperançadas se animem e se unam. Precisamos que todos se conscientizem que juntos poderemos crescer. Se cada um ficar no seu laboratório, angustiado, sozinho, não vamos crescer.
FolhaA senhora dá muita importância à universidade pública. Qual a sua opinião sobre a possibilidade de privatização do ensino superior?
GlaciTemos que lutar para manter as universidades públicas. Pelo menos o que eu ouvi de uma pessoa muito chegada ao presidente da República é que enquanto ele for presidente, essa meta será cumprida. O que existe é uma discussão sobre aqueles que podem pagar pelo ensino, contribuir com a universidade. Dizem que existe uma injustiça porque os mais pobres pagam e os mais ricos não pagam. Na realidade, eu acho que os muito ricos nem fazem faculdade. As universidades precisam ser mantidas públicas porque elas têm que dar a chance para todas as pessoas de estudar. A grande maioria dos que vão para a universidade pública é de classe média. A percentagem de ricos é pequena.
FolhaEstá tramitando no Senado um projeto de lei que prevê reserva de 50% das vagas em universidade públicas para candidatos que sempre estudaram na rede pública de ensino. Qual sua opinião sobre isso?
GlaciEu acho que reserva de mercado não resolve nada. A solução é dar condições de competição para todos. Se tivermos sistemas que selecionem mais pela qualificação intelectual do que pela memória, seria melhor. As experiências feitas na Universidade Nacional de Brasília e na Universidade Federal de Santa Maria (RS), com avaliações periódicas dos alunos de 2º grau é melhor do que fazer cota de reserva.
FolhaComo a sociedade pode colaborar com as universidades públicas sem que haja cobrança de mensalidades dos alunos?
GlaciO que devemos adotar no Brasil é um estímulo para os ricos fazerem doações às universidades públicas. Essa cultura precisa ser implantada aqui também, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos. Um pai que tem três filhos formados por uma universidade pública poderia doar parte de seus ganhos para a instituição de ensino. Os alunos ricos também poderiam fazer doações. Recentemente, um ex-aluno de uma universidade americana faleceu e deixou US$ 1 milhão de sua herança para a universidade. Ele tirou dos filhos para dar à universidade. Essa tradição deveria ser estimulada no Brasil.





