ENTREVISTA - 'A nova revolução industrial já começou'
ENTREVISTA
Albari RosaÉ bom senso saber usar o que você tira da naturezaAo entrar na sala de reuniões do escritório do empresário Sérgio Prosdócimo, em Curitiba, para conceder entrevista à Folha, o escritor, pensador e fundador do Institute Rocky Monuntain, Amory Lovins (56 anos), já deu exemplos de como aumentar os lucros e diminuir gastos. Abriu levemente as persianas das janelas, deixando a energia solar entrar e apagou as luzes. Físico nuclear e analista ambiental, Lovins vem alertando o mundo para a escassez dos recursos naturais. Na sua tese, que prega o capitalismo natural, o Brasil está no caminho certo, com uma classe empresarial energética e dinâmica e destaca a cidade de Curitiba como um modelo. O pensador americano veio ao Brasil para participar da Conferência Internacional da Produtividade, que começa hoje em Curitiba. Ele sustenta que do lixo se tira o lucro e que a natureza ditará os negócios do futuro. O trem já saiu da estação, acelerou e está pouco se lixando se alguém está dentro ou não. Nesta entrevista, Amory Lovins ilustra sua tese citando exemplos da indústria de carpete que deixou de produzir com matéria-prima a base de petróleo e foi encontrar na natureza o produto para esta transformação. Conta também sobre o lucro que produtores americanos da Califórnia estão tendo a partir do talo do arroz colhido e o futuro do setor automotivo. Segundo ele, em breve, os carros que hoje circulam pelas ruas e estradas poluindo o meio ambiente, darão lugar a outros veículos que utilizarão hidrogênio e água quente. É o Hypercar, cujo projeto está exigindo investimentos de R$ 20 bilhões. Amory Lovins, que é também professor da Universidade de Oxford, escritor e autor de 27 livros, é citado pela Newsweek Magazine como um dos mais influentes pensadores da energia no mundo ocidental. Acompanhe seus pensamentos nesta entrevista.
A nova revolução industrial já começou
Analista ambiental alerta para a escassez de recursos e prega uma nova mentalidade para a produção das indústrias
Pedro Ribeiro
De Curitiba
Especial para a Folha
Folha Sua tese é a de que o capitalismo natural pode criar a próxima revolução industrial. Esta revolução começou?
Lovins A nova revolução industrial já começou em alguns lugares nos Estados Unidos, no Oeste Europeu e em algumas partes da Ásia.
Folha Quer dizer que já foi dada a largada?
Lovins Sim. O trem já saiu da estação, está acelerando e pouco se lixando se há alguém nele ou não. É uma viagem interessante.
Folha Qual o caminho a seguir?
Lovins Rumo a negócios mais competitivos e mais rentáveis, levando a uma sociedade mais correta e mais justa. Um mundo mais natural e mais vigorante.
Folha O senhor prega, em suas palestras, essa chamada nova revolução industrial. Como será, ou é, na prática?
Lovins Na primeira revolução industrial, as pessoas eram 100 vezes mais produtivas. Na época, havia falta de pessoas para produção diante de natureza abundante. Hoje, a lógica ainda é a mesma. O caminho da escassez de bens naturais está ao contrário. Hoje há pessoas de sobra e pouca natureza. É bom senso saber usar muito bem e produtivamente o que você tira da natureza. Isto é rentável, mesmo quando a natureza entra como custo zero.
Folha É exatamente isto o que o senhor chama de capitalismo natural?
Lovins O segundo princípio do capitalismo natural se chama redesenhando a produção e os princípios biológicos, para que você não tenha perda, não tenha lixo, não tenha toxina e que os materiais fluam em circuito fechado.
Folha É o lixo que não é lixo?
Lovins Elimina o conceito do lixo. O lixo que não é. O terceiro princípio que defendo, dentro do capitalismo natural, é um modelo de negócios que possa dar prêmios tanto para quem produz, como para quem consome. Nessa economia de solução, os dois lados fazem mais e melhor com menos material.
Folha Onde está a lucratividade com o lixo?
Lovins Conforme esses três princípios mudam o lixo em lucro, os lucros são reinvestidos na restauração, protegendo e aumentando a natureza. A natureza é o capital natural que nos fornece os materiais e serviços do ecossitema que permite a vida.
Folha Quer dizer que a natureza pode ditar as regras dos negócios futuros?
Lovins O sistema conduz a negócios, como se a natureza e as pessoas fossem propriamente avaliadas. Todo esse sistema produz muito mais lucro e vantagens competitivas.
Folha Como o senhor avalia hoje o avanço do capitalismo natural?
Lovins As mudanças vêm acontecendo pelo setor privado, que busca novos interesses comerciais. As empresas que vêm alcançando sucesso econômico dentro desse conceito, acabam levando outras empresas a se obrigarem a seguir este caminho.
Folha O senhor tem exemplos concretos?
Lovins Posso citar o exemplo de uma companhia de carpete, que hoje faz serviço de aluguel de forração de chão, ao invés de vender carpete. Quanto mais ele durar, menos vai precisar de energia e material para produzi-lo. A empresa chegou a um índice de 97% de menos material e menos 90% de capital para produzir um serviço melhor em todos os sentidos, com custo baixo e lucro alto. O carpete pode ser 100% remanufaturado e pode ser feito de material renovável. Em vez de pagar matéria-prima, desde o poço de petróleo, ficar 10 anos no chão e de 10 a 20 anos no aterro (lixão), você pode fazer um carpete de um derivado do milho, que fica num fluxo eterno do chão para a reprodução.
Folha Essas soluções são a curto, médio ou longo prazos?
Lovins A Du Pont, por exemplo, espera aumentar seus ganhos em 6% ao ano, sem aumentar o uso de energia em nenhum momento nesta década. Também espera que em 2010, um quarto de seus materiais e 10% de sua energia sejam de materiais renováveis.
Folha O Paraná ainda é um Estado agrícola. O senhor tem algum exemplo que possa servir aos produtores ou empresários rurais?
Lovins Os produtores de arroz na Califórnia (EUA) queimavam o talo depois de colhido. Hoje, não fazem mais isso. Após a colheita, os agricultores alagam os campos e literalmente convidam milhares de gansos e patos que naturalmente cultivam e fertilizam esses campos. Com isso, além de um terreno mais fértil, também vendem licença para caça. O talo serve como material para construção porque é mais rico em cilica e os insetos não comem. Tem mais. Os fazendeiros recebem dinheiro das companhias de água, porque estão recarregando o solo e não gastam. O arroz, agora, ficou mais rentável como subproduto de todo o sistema.
Folha Este exemplo serve para outras culturas?
Lovins Sim. Serve para reflorestamentos, piscicultura e agropecuária.
Folha Como o senhor vê o Brasil nesse novo processo de industrialização?
Lovins O Brasil tem o melhor exemplo do mundo na aplicação de design (conceito) integrado numa escala de uma cidade como Curitiba. Mesmo que não seja perfeita em tudo, seus problemas são resolvidos ou prevenidos muito melhor que em muitas cidades dos Estados Unidos. Tudo isso usando pouco dinheiro e transformando intenções em realidade.
Folha Em seu livro Capitalismo Natural Criando a Próxima Revolução Industrial, o senhor dedica um capítulo sobre Curitiba. Por quê?
Lovins Porque Curitiba pensa em seus problemas de uma forma ampla. Econômica, social e ecologicamente. Nos mostra um planejamento completo, com sinergia ainda a ser explorada. Milhares de pequenos projetos que Curitiba fez, foram desenhados para que pudessem produzir maior quantidade de benefícios por quantidade gasta.
Folha O exemplo de Curitiba pode ser extensivo a outras partes do Brasil?
Lovins O Brasil tem uma classe empresarial energética e dinâmica, com pessoas muito talentosas. Volto meu exemplo a Curitiba, onde há também arquitetos, engenheiros e artistas que contribuem com a sociedade e dão exemplos ao mundo.
Folha Recentemente uma revista econômica nacional fez uma pesquisa e apontou Curitiba como a melhor cidade do Brasil para a realização de negócios. Isso pode estimular o capital externo?
Lovins Sei que muitos executivos que moram em São Paulo gostariam de se transferir para Curitiba para salvar alguns anos de trânsito. Quanto a investimentos estrangeiros, espero que sim. O Paraná tem mostrado liderança em vários setores, como o de saneamento básico, onde a Sanepar é modelo em tratamento de água e esgoto no Brasil. São Inovações que não existem no mundo. O ensino também é evoluído. Como exemplo, destaco a política de não adotar produtos transgênicos. Isso é sábio na perspectiva de saúde, meio ambiente, negócios e até de liderança para o Brasil nesta área. A posição do Brasil vai contribuir para o posição do mundo nesta questão. Espero que o Paraná, como Estado agrícola, venha a ser um gerador de uma nova e avançada tecnologia neste setor, inspirada em princípios biológicos.
Folha O Brasil avança em princípios biológicos?
Lovins A riqueza do Brasil em hidrelétrica pode transformar o país no rei do hidrogênio para o próximo sistema de energia que está emergindo. Não precisa de nenhum tipo de petróleo e gás para funcionar a economia avançada.
Folha Politicamente, como o senhor vê o Brasil.
Lovins Não o suficiente para fazer comentários. Nos Estados Unidos, por exemplo, está surgindo um adesivo que diz o seguinte: Progresso é o oposto do Congresso.
Folha Como o Brasil é visto hoje lá fora?
Lovins No caso americano, posso dizer que grande parte é ignorante sobre o Brasil e também sobre outros países. Aqueles que conhecem um pouco sabem que é importante e figura como a décima economia do mundo, com um enorme potencial humano e natural. Um potencial enorme que está começando a se concretizar.
Folha A escassez de recursos naturais já bate à nossa porta?
Lovins Algumas partes do Brasil já tiveram perda de árvores e solo. Mesmo nessas áreas devastadas, existem muitas pessoas que têm conhecimento sobre a degradação, mas não tem cultura suficiente para impedir ou evitar.
Folha Qual a diferença de conceitos entre capitalismo natural e filosofia Zeri?
Lovins A filosofia do Zeri é muito similar à do capitalismo natural. O princípio básico é o mesmo.
Folha O Brasil é conhecido como um país de desperdícios. Qual a receita para reverter este quadro?
Lovins Capitalismo natural é o mesmo em todos os países. Todo o desperdício é uma oportunidade de negócios, porque são recursos que podem ser utilizados. O mundo hoje usa meio trilhão de toneladas de material por ano e esse sistema é 99,98% puramente de desperdício.
Folha Como o Brasil pode transformar suas reservas naturais em geradora de recursos para o desenvolvimento?
Lovins O Brasil encontrará um jeito de valorizar mais suas florestas muito mais como um sistema biológico do que valorizá-la na liquidação ou destruição. Vale mais preservar as florestas para troca de carbono, do que destruí-la. O que a empresa polui, ela se compromete a comprar a área como recompensa.
Folha Para onde caminha o transporte no mundo?
Lovins 15% da população mundial são donos de três quartos dos carros. Se os outros 85% ficarem viciados em carros, nós vamos acabar com o ar limpo, com o petróleo e o clima.
Folha Como se prevenir para isso?
Lovins Nós sabemos como fazer carros sem poluir e bem melhores dos que hoje circulam por aí. Porém, mesmo que todos venham a utilizar esses carros eficientes, aí vamos acabar com estradas, comida, terra (chão) e com a própria paciência. Vai ser o fator que limita o dia.
Folha Que tipo de carro é esse?
Lovins O Hypercar que faz de 50 a 100 km com litro (hidrogênio). Ele pode ter a performance de um Jaguar, o conforto e segurança de um Mercedes-Benz e o preço de um Ford. O que limita é a água quente. É melhor e pode ser de qualquer tamanho e estilo. Quando você estaciona, pode plugá-lo como uma estação de energia, mandando de volta para a Copel, energia elétrica suficiente para pagar um terço ou a metade do custo do carro.
Folha Quando vamos poder ver esse revolucionário carro?
Lovins Um carro bom desse jeito estará no mercado em menos de cinco anos. Acredito que esses carros estarão rodando no mercado em 10 anos. Os carros de hoje estarão riscados do mapa em 20 anos. A maioria das indústrias automobilísticas já está desenvolvendo projetos neste sentido.
Folha Qual o investimento para esse projeto?
Lovins O dinheiro destinado ao projeto é de R$ 20 bilhões e dobra a cada ano e meio que passa. Por isso, há sete anos eu coloquei este conceito de carro para domínio público para que não houvesse brigas entre empresas. Ao invés de brigar pelo direito autoral, aumentou a competitividade.





