Entre peneiras e avós
A confirmação por técnicos da Unicamp da quebra do sigilo do painel de votação do senado, no processo de cassação do ex-senador Luiz Estevão, foi mais um fato a se somar no diagnóstico conhecido de todos. Nossas instituições estão podres e precisam de tratamento de choque urgente, antes que seja tarde demais. Com tantas denúncias e algumas evidências, é cada vez mais difícil a posição do governo em querer esconder o óbvio. Mais grave que uma possível retração momentânea na economia é ter ciência de que se convive o tempo todo com a corrupção, o roubo e o assalto ao patrimônio público. Uma credibilidade que repousa sobre tais pressupostos não terá vida longa.
Para garantir a confiança dos parceiros internacionais e, sobretudo, resgatá-la junto à população brasileira, o país precisa ser passado a limpo. O povo não aguenta mais viver com o anúncio diário de pelo menos um escândalo novo tornado público. A descrença nas instituições que toma conta do imaginário popular não é saudável para a construção da democracia. Executivo, Legislativo, Judiciário e outras entidades são hoje, tão-somente, alvo de piadinhas nas esquinas e botecos das cidades do país. É impossível acreditar em algo que é motivo de chacota sem antes promover o resgate de sua imagem.
Não dá mais para fazer de conta que o problema dos créditos da Amazônia acaba com a extinção da Sudam. Ou, então, acreditar que as irregularidades do Proer, do Sivam, do DNER e tantas outras suspeitas não passam de puro nhe-nhe-nhém de gente desocupada da oposição ou da imprensa. Ou, ainda, que uma simpática vovozinha, alçada à condição de corregedora, consiga fazer frente a perigosas quadrilhas instaladas em todos os níveis da administração pública.
O pior é que alguns procuradores públicos, como o Dr. Luiz Francisco, e tantos outros, investidos na função de resguardar os interesses da sociedade, estão sob forte pressão. Passaram de investigadores a investigados por uma razão simples: não dão trégua a quem quer que esteja sob suspeita de envolvimento com falcatruas.
É imperioso que o governo federal assuma, de fato, uma outra postura em relação ao crime que toma conta de nossas instituições. São vários bilhões de reais desviados de sua finalidade. Dinheiro que deveria estar financiando a agricultura familiar e as micro e pequenas empresas. Além de, é claro, propiciar saúde, educação, habitação, saneamento básico e transporte de melhor qualidade para a população.
As milhões de assinaturas coletadas em todo o Brasil e as muitas manifestações exigem o restabelecimento de uma outra ordem na vida pública do país. Esta nova ordem começa por uma CPI ampla, capaz de punir os corruptos e reaver os bilhões roubados dos cofres públicos.
Se ainda quiser passar à história do Brasil com algum mérito, o atual governo que abandone as peneiras com as quais tenta esconder os problemas, deixe as vovozinhas gozarem sua aposentadoria em paz e assuma com coragem o seu papel. Qual seja, o de administrar o bem público para todos e deixar que as instituições encarregadas de investigar e punir quem se apropria indevidamente do patrimônio do povo possam fazer o trabalho com liberdade.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal do PT-PR





