Entre os Kronos e o Kairós
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de janeiro de 1997
Carlos Alberto Rodrigues Alves 
... e o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez. (T.S.Eliot)
Ano velho vai, ano novo vem... O eterno ciclo da natureza, fiel ao seu moto-contínuo, mais uma vez deixa nos calendários a marca dos dias que já não mais existem... E mais uma vez nos faz rodopiar, como um Bolero de Ravel, em variações sobre o mesmo tema dado sem que disso necessariamente venhamos a saber.
Que é o tempo, essa coisa-que-não-é-coisa? Esse estranho cronômetro que mensura minguante ou crescentemente o desfile das nossas novas luas-cheias? Essa impertinente forma de intuição que avermelha e faz declinar a ascensão dos nossos sóis dourados? Essa cravejante navalha que sulca e espalha marcas desalmadas pelo corpo?
Inflexível e incompreensível o tempo! Não eram sem razão que os gregos antigos o reverenciavam como o todo poderoso Kronos, um deus temido que tinha o ambíguo poder de, como um Deus-Cristão, criar seus filhos e, como um deus-felisteu, exigir o sacrifício dos mesmos. Quem quiser se aventurar a perscrutá-lo, seja em uma breve ou em uma longa história, perder-se-á no caminho, pois antes mesmo que os homens houvessem tentado decifrá-lo, como queria a Esfinge, eles já haviam por ele, sua Majestade o Tempo, sido decifrados. Sábio foi Santo Agostinho que, numa piedosa ignorância que o levava mais próximo da sabedoria, assim se manifestava sobre o assunto: Se não me perguntam o que é o tempo eu sei o que é o tempo, mas se me perguntam, então eu não sei responder.
Por isso mesmo o melhor caminho para mirá-lo continua sendo o dos poetas, esses imortais-mortais que, sabendo que o tempo não pára no ponto, não apita na curva, não espera ninguém, nos ensinam que o mais importante não é saber quantitativamente sobre sua origem e fim, mas sim sobre o que fazer, qualitativamente, durante a nossa travessia nesse ponto da Via-Láctea que, entre espaços inter-galácticos, espera nossas intervenções sempre a mercê deste mesmo tempo e ao sopro do seu amigo, o vento...
Mas se os mortais são condenados à finitude, segundo a sentença de Kronos, que lhes resta? Aguardar pacientemente a nau chegar ao seu inadiável porto final? Receber a vida como imposição, castigo ou, na melhor das hipótese, com resignação? E se ainda depois disso tudo concretizar a suspeita de Cecília Meireles?: Pergunto se/ depois que se navega, / a algum lugar, enfim, se chega.../ o que será até talvez mais triste./ Nem barca nem gaivota: somente sobre-humanas companhias.../ Deve haver uma saída! Prefiro pensar como os cristãos primitivos que, à exatitude do tempo cronológico, inventaram, o tempo oportuno - o Kairós, que não é outra coisa senão a consciência de que perder a alegria do momento que passa é nosso pecado capital. Hoje é o dia que fez o Senhor, alegremo-nos nele diziam esses até-hoje-incompreendidos-místicos que viviam sempre um dia novo, como se não houvesse um amanhã, afinal o pão era pouco e a liberdade pequena... Carpe diem! Colham a flor do dia...A glória-da-manhã que nasce, cresce, torna-se extremamente bela, e depois se desvanece...Carpe diem! Colham a beleza que, como a sonata ao luar de Beethoven, é melancólica em sua beleza e bela em sua melancolia... Usufruir do Kairós é sentir que foi Deus quem colocou a eternidade no momento de carinho. É seguir a suprema sabedoria de Jorge Luiz Borges: contemplar mais entardeceres, subir mais montanhas, nadar mais rios,...pois se não sabem disso é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora.
Um ano novo só é novo quando é novo o dia de hoje... É o que diz meu poeta preferido: Dia em que não gozaste não foi teu:/ Foi só durares nele./Quanto vivas sem que o gozes, não vives./Não pesa que amas, bebas ou sorrias:/basta o reflexo do sol ido na água de um charco, se te é grato./Feliz o é a quem, por ter em coisas mínimas o seu prazer posto/nenhum dia nega a natural ventura.
Não cabe muito aos peregrinos da existência o saber sobre os destinos finais da viagem para a qual todos fomos intimados-sem-alternativas. Vita Mortalium vigília! Cabe-nos, sim, a percepção da paisagem da travessia e o torná-la mais excitante, com as cores e os pincéis que nos forem outorgados... Por isso, mesmo diante dos cenários frente aos quais nos sentimos ansiosos, a Providência nos alerta: O que foi, é o que há de ser; de o que se fez, isso se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol... Não vos preocupeis com o dia de amanhã... Por isso, mesmo diante dos cenários do amor, os oráculos divinos nos orientam assim no ano novo: Vai, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho... goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida fugaz, pois Deus de antemão já te agrada das tuas obras.
Feliz o nosso ano novo se soubermos como o Elias que, sempre com eterna paixão, recordava um poeta contemporâneo: Nossos dias são preciosos,/ mas com alegria os vemos passando/ se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo; / uma planta rara e exótica, deleite de um coração jardineiro/ uma criança que estamos ensinando/ um livrinho que estamos escrevendo...
Feliz ano novo! Sempre com primaveras para veranear os invernos de nossos outonos!


