A aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia representa um marco nas relações econômicas entre dois dos maiores blocos do mundo. Em um momento em que o comércio internacional volta a conviver com barreiras, subsídios e disputas protecionistas, a abertura de um canal preferencial com um mercado de mais de 700 milhões de consumidores surge como uma oportunidade estratégica para o Brasil e, em particular, para o agronegócio do Paraná.

O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas para a maior parte dos produtos comercializados entre os blocos. Para o Brasil, a expectativa é ampliar as exportações e diversificar a pauta de vendas externas. Cadeias produtivas fortes no Paraná, como carnes, açúcar, mel e grãos, tendem a encontrar espaço ampliado em um mercado de alto poder aquisitivo e exigente em padrões sanitários e ambientais.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de cautela. O próprio desenho do acordo revela que, tanto de um lado quanto do outro do Atlântico, há receios sobre seus impactos. A União Europeia aprovou salvaguardas para proteger seus agricultores e condicionou a ratificação plena a uma análise jurídica mais aprofundada. O gesto evidencia que, mesmo entre defensores do livre comércio, a preocupação com a competitividade doméstica permanece.

No Brasil, a regulamentação das salvaguardas pelo governo federal segue a mesma lógica de prudência. O mecanismo permite suspender reduções tarifárias, restabelecer tarifas ou criar cotas de importação caso haja aumento expressivo de produtos estrangeiros que ameacem a indústria ou a produção nacional.

No Paraná, como mostrou a Folha, a cadeia do leite vive dias de apreensão. Representantes da indústria e produtores apontam fragilidades diante da concorrência externa. Com custos de produção elevados, tecnologia desigual entre produtores e forte dependência do mercado interno, o setor teme que a abertura comercial amplie a entrada de produtos europeus, sobretudo queijos e derivados de maior valor agregado.

Essa preocupação não deve ser ignorada. O agronegócio brasileiro é altamente competitivo em diversas cadeias globais, mas também convive com segmentos mais sensíveis, marcados por menor escala, menor investimento tecnológico e margens apertadas.

Por outro lado, o debate não pode se limitar à lógica defensiva. A abertura de mercados também funciona como estímulo à modernização produtiva. No caso dos lácteos, especialistas apontam fatores estruturais que limitam a competitividade, como custos elevados de produção e baixa inserção no comércio internacional.

O desafio, portanto, está no equilíbrio. As salvaguardas precisam existir e ser acionadas com rapidez quando necessário, garantindo tempo para que setores vulneráveis se adaptem. Ao mesmo tempo, o país não pode desperdiçar a oportunidade de ampliar sua presença em um dos mercados mais sofisticados do mundo.

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