Entre o lâmico e o islâmico
Agnaldo Kupper
Por definição clássica, a prática do terrorismo envolve atos de violência com objetivos políticos desvinculados de movimentos de massa, sendo empregada por grupos clandestinos, revolucionários ou contrarrevolucionários e também por governos instituídos, visando a quebra da moral do adversário. Já por uma definição simplista, terrorismo envolve atos contra a sociedade civil, sem aviso prévio por parte do(s) praticante(s).
Interessante que tais práticas, por vezes, são vistas com certa simpatia por muitos, isto quando a causa é aparentemente justa e o "menor" não possui o mesmo acervo para o confronto. Pode parecer estranho, mas tomemos como exemplos a resistência palestina na luta contra Israel, bem como a atuação do IRA na Irlanda do Norte e de vários agrupamentos de esquerda na América Latina (inclusive no Brasil) na luta contra a ditadura militar. Os atentados de 2001 foram terroristas. A reação norte-americana e de aliados, idem, porém colocados como justos. Mas esta é uma outra discussão.
Os múltiplos atentados que deixaram mais de cem mortos e quase uma centena de feridos em diferentes pontos de Paris no último dia 13 foram reivindicados pela facção terrorista Estado Islâmico, que se tornou célebre por decapitar prisioneiros. O Estado Islâmico justifica a ação como resposta ao conflito com forças do regime e do Ocidente na Síria. Ao agir da forma como o faz, o EI parece erotizar a morte, dando à mesma outro valor que não o dos ocidentais. Mas esta é uma outra discussão.
As toneladas de lama que escorregam ao longo do Rio Doce devido ao rompimento de duas barragem da Samarco, em Mariana (MG), carregando sessenta bilhões de litros de rejeitos de mineração de ferro, poderiam ser reivindicadas facilmente pelo Estado Islâmico. Um tsunami que matou e faz desaparecer. Não apenas indivíduos, mas animais, matas ciliares, águas, a biodiversidade. Esta é a discussão!
Choramos as vítimas de Paris, como não pode deixar de ser. Mas não são tão ou mais importantes do que as vítimas de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. É provável que essas vítimas tenham comido a surrada alimentação consentida com o surrado dinheiro conquistado quando foram atingidas pelo mar de lama cuja origem não era bem de Brasília. Talvez, ouvissem sertanejos universitários gritando e chorando pelas estações de rádio ou mesmo assistissem a um ou outro programinha cafajestico de uma emissora de televisão quando foram atingidas pelo "estado lâmico" irresponsável da Vale, diferentemente dos que jantavam no restaurante cambojano de Paris ou daqueles que assistiam no Bataclan à apresentação da banda Eagles ou mesmo dos que bebiam no terraço do La Belle Équipe. Pobre vida tupiniquim.
No discurso que Dilma Rousseff fez no G20, uma frase me tocou: "(...) não há justificativa ética e moral para o terror". Espero que a presidente tenha feito relações também com o ocorrido em Minas Gerais.
Claro, reitero, nada pode justificar o ocorrido em Paris. Porém, não podemos ficar menos incomodados com o sucedido em Mariana, afinal ambos foram ataques contra a sociedade civil, sem aviso antecipado. Porém, sinceramente, não sei dizer qual mais sujo (na prática, o de Mariana). Talvez, possa afirmar apenas que os eventos de Paris tenham uma causa, por menos nobre que seja.
Vale lembrar que acidentes - mais do que atentados - podem ser previstos.
Ao atacarem Paris, os terroristas pretendiam, sim, manchar a cidade elegante e boêmia. Porém, ao atacarem Mariana, os "terroristas" não se importaram em, mais do que manchar, enlamear e devastar. Choramos Paris, apenas nos espantamos com Mariana.
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