O incêndio que destruiu barracos na ocupação Kaingang às margens da Avenida Dez de Dezembro, em Londrina, no fim de semana do Dia dos Povos Indígenas, expõe um impasse que já se arrasta há anos e que não pode mais ser tratado como provisório. Sete moradias improvisadas foram consumidas pelo fogo em um espaço que, há muito tempo, deixou de ser apenas um ponto de apoio e passou a simbolizar uma situação de risco permanente.

As famílias, oriundas da Terra Indígena Apucaraninha, em Tamarana, utilizam a área urbana como base para comercializar artesanato e garantir renda. Trata-se de uma dinâmica consolidada, que envolve sobrevivência econômica, identidade cultural e autonomia. O direito desses povos de manter seus modos de vida e de ocupar espaços que viabilizem sua subsistência precisa ser respeitado.

Ao mesmo tempo, é inegável que a atual ocupação, instalada em área de preservação ambiental na bacia do Ribeirão Cambezinho, reúne condições extremamente precárias. Barracos de madeira, ligações elétricas irregulares e histórico de incêndios sucessivos transformam o local em uma ameaça tanto para os próprios indígenas quanto para os moradores do entorno, no Jardim Arpoador. Trata-se de uma questão humanitária.

A recusa dos indígenas em aceitar alternativas distantes do centro evidencia que qualquer solução que ignore a necessidade de acesso ao espaço urbano tende a fracassar. O deslocamento para áreas periféricas, sem garantia de renda e mobilidade, pode aprofundar a vulnerabilidade em vez de resolvê-la. Por outro lado, a manutenção do cenário atual perpetua riscos inaceitáveis.

Experiências recentes no Paraná mostram que é possível avançar quando há articulação institucional e escuta das comunidades. O acordo envolvendo Itaipu, Funai e Incra para reassentar famílias Avá-Guarani no Oeste do Estado, com acesso a terra, infraestrutura e serviços básicos, aponta um caminho baseado em reparação histórica e planejamento. Ainda que em contexto distinto, o princípio é o mesmo: oferecer condições dignas, com participação dos próprios indígenas na construção da solução.

Em Londrina, o desafio é encontrar um modelo que concilie permanência urbana, segurança e regularização. Isso passa por diálogo efetivo entre município, órgãos federais e lideranças Kaingang, com disposição para alternativas viáveis, seja a urbanização assistida em área adequada, seja a criação de um espaço estruturado que permita a atividade econômica sem exposição a riscos.

Manter a situação como está significa aceitar que novas tragédias podem ocorrer. Resolver o impasse exige mais do que medidas paliativas: exige reconhecer direitos, mas também enfrentar a urgência de garantir dignidade e segurança para todos os envolvidos.

Obrigado por ler a FOLHA!

mockup