Final de mais um certame eleitoral, pelo menos para o governo do Paraná e do Brasil. A democracia lavou a alma e com água que escoou pelo ralo foi embora um monte de mitos e tabus. A começar com a conversa fiada da grande fraude que seria o processo de reeleição.
Os detratores da reeleição diziam que os candidatos iriam deitar e rolar com a máquina da administração pública. Alegavam que se isso já acontecia no regime antigo, na sanha de os partidos políticos quererem fazer sucessores, imagine agora, com a possibilidade de um governador, ou o presidente da República, tentarem reeleger-se. E ainda com uma terrível agravante: com o candidato podendo manter-se no exercício do cargo mesmo durante a campanha eleitoral! Horror, horror, vaticinavam os arautos de que isso seria uma bomba antidemocrática.
Caíram do cavalo. O direito de concorrer à reeleição não deu certeza a ninguém. Dos 14 estados-membros que escolheram seus governadores já no primeiro turno, oito reelegeram. Um a mais do que a metade. Quer dizer, mesmo que no segundo turno a maioria também prefira reeleger, o sistema não gerou unanimidade, não. Prova de que o simples fato de o candidato permanecer na gerência do Executivo, não basta.
Claro, quem perdeu para os reeleitos veio chorar chorumelas. Alguns, reclamando ‘‘abuso da máquina’’, outros, mais sensatos, dizendo apenas que o adversário ganhou porque tinha ‘‘a máquina na mão’’. Ora, ora. É óbvio que os governadores e o presidente gerenciavam a máquina, e todos eles gerenciavam querendo reeleger-se (tanto quanto, antigamente, gerenciavam para fazer o sucessor). Cada ato político de gestão de Estado é um ato que pode ser contabilizado eleitoralmente. É da natureza da coisa. Agora, provar que houve abuso da máquina, isso ninguém provou.
Depois, o eleitorado mandou para casa um grande contingente de ‘‘campeões de urna’’, gente que tinha cadeira cativa no Congresso, ou na Assembléia Legislativa, há várias legislaturas seguidas. Ficou demonstrado que essa história de confundir base eleitoral com curral eleitoral também não é unanimidade.
Algo que não mudou foi a reação do Lula e seus petistas. O candidato (eterno?) do PT se mostrou, como das outras vezes, um democrata que não sabe perder. Lembram-se de quando ele foi derrotado por Fernando Affonso Collor de Mello? O PT inventou um tal ‘‘governo paralelo’’ - rasgando para o governo oficial, legítimo, eleito democraticamente nas urnas. Aí veio a primeira derrota para Fernando Henrique Cardoso e Lula fez que nem te ligo: saiu em caravana pelo País, pregando oposição ressentida. Derrotado pela segunda vez por Fernando Henrique, Lula faz birra e se nega a dialogar, a colaborar, não com o governo mais com o País, neste momento crucial do enfrentamento da crise econômica mundial. Promete oposição ‘‘implacável’’. É o Lula do PT.
Destaque para a histeria dos derrotados contra as pesquisas de opinião. Histeria ao longo da contagem dos votos. Não tiveram o bom senso de pelo menos esperar o término da apuração. Trataram o negócio das pesquisas como escândalo, acusaram de manipulação, ameaçaram com CPI e reforma na legislação, pintaram os canecos. Acabou a contagem do primeiro turno e o que se viu foi que as imprecisões foram nas declarações de voto de ‘‘boca de urna’’, debitadas na conta da inexperiência com o sistema de voto eletrônico. O resto das diferenças ficou dentro das margens de erro e da decisão de últimas hora dos indecisos. Nada de grave (se os reclamantes tivesses ganhos estaria tudo certo).
A grande lição ocorreu no Paraná, na disputa pelo Palácio do Iguaçu. Jaime Lerner não ganhou folgado. Foi vitória constrangida desafiando os nervos da militância. Lembrou Pirro (318, a.C. - 272, a.C.), rei do Epiro, na Batalha de Asculum, quando venceu, mas as perdas foram tantas que quase não valeu a pena ter vencido.
O governo Lerner errou mais do que os acertos do adversário. E erros que foram cometidos bem antes da campanha. O maior exemplo disso foi a fragilidade de sua gestão, construída por sua própria assessoria, no caso dos gastos abusivos com propaganda.
Contudo, se a distância entre o observador e o fato observado não permite total exatidão e nitidez, uma conclusão, no mínimo, é mais do que certa: a maioria disse ‘‘não’’ ao jeito autoritário de governar.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná em Curitiba

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