Entre fogo e armas de fogo
O leitor José Aparecido Batinga, gerente administrativo da Usina Central do Paraná, telefonou para esta FOLHA ''para informar sobre o saldo'' da invasão de sem-terra a uma fazenda da Usina, em Porecatu, no fim de semana. Foi queimada uma vasta área de cana, o equivalente a 120 mil toneladas mais ou menos. Ele dá uma ideia do volume: seriam necessários 5 mil carretas para transportar aquela quantidade de cana. Para atear fogo, os criminosos agiram rápido: 9 a 10 motocicletas, com dois ocupantes: um descia, ateava fogo e iam embora em alta velocidade; foi tudo muito rápido e a operação parecia algo ensaiado. Batinga disse ter recebido informações dos trabalhadores da fazenda que alguns dos rapazes estariam armados (ele garante) e caçoavam dos trabalhadores - ''que não reagiram, que não andam armados e tinham orientação para evitar conflitos''. ''Eles ameaçavam o nosso pessoal exibindo armas e dizendo: 'se apagar o fogo a gente volta'''.
Batinga se considera satisfeito ''por não ter havido violência física''. Certamente sabia o quanto é péssimo enfrentar uma situação dessas, mas não tão ultrajante à vida e à dignidade. Violência é algo que nunca se descarta nessas invasões. O fato é que cenas de grupos do MST ou Contag pondo fogo em canaviais, derrubando plantações ou abatendo gado estão muito longe dos objetivos desse movimento 25 anos atrás, quando pretendia combater o ''latifúndio improdutivo''.
Com atitudes como essa, os sem-terra, qualquer que seja a sigla patrocinadora das invasões, acabam por frustrar a reforma agrária, que era um anseio também da Igreja e parte da sociedade, naturalmente não dessa forma. O modo de agir (agredir), hoje, está longe do seu desiderato.
Coincidentemente, ontem, o artigo de um técnico em temas agrários, no jornal ''O Estado de São Paulo'', faz o seguinte questionamento sobre a metamorfose dos movimentos. ''Difícil entender as razões do MST. Possivelmente, ainda mais em anos eleitorais como este, a motivação se encontra na política. Aproximando-se o pleito eleitoral, o líder do MST divulga que a eleição de Serra seria o ''pior dos mundos''. Depreende-se, portanto, que suas ações neste abril vermelho servem à candidatura oficial. Para divulgá-la invadem fazendas produtivas, destróem plantações, roubam gado, estimulam a violência no campo''. O autor do artigo, Francisco Graziano, faz outras críticas ao movimento.





