O episódio recente no centro de Londrina em que um instrutor de artes marciais foi baleado por um policial militar fora de serviço, após uma discussão em um bar da rua Espírito Santo, reacende debates que ultrapassam os limites de um boletim de ocorrência. Trata-se de um caso que escancara a fragilidade da vida noturna londrinense e expõe como a cidade ainda não resolveu o dilema de seus espaços coletivos.

Talvez pela falta de diversificação de locais para se estar, Londrina vive ciclos de “points” temporários. Mais recentemente, a rua Paranaguá e o bar em questão onde ocorreu o incidente centralizavam a juventude na noite londrinense.

O padrão se repete: os espaços se sobrecarregam de público, acumulam tensões e, inevitavelmente, problemas surgem. Muitos atribuem a dificuldade de manter a segurança com a diversidade de frequentadores. Mas há algo além disso: a própria escassez de opções. A concentração de pessoas em poucos pontos noturnos potencializa conflitos e, em situações extremas, episódios de violência armada.

Esses episódios (um tiro disparado em meio ao lazer) têm um efeito corrosivo. Desestimulam a permanência de bares, travam o florescimento de novos espaços e perpetuam a sensação de que Londrina não consegue sustentar uma vida noturna saudável. A prometida revitalização do Centro, tantas vezes comentada, não é apenas um projeto de urbanismo ou embelezamento: é uma urgência social.

Revitalizar significa devolver às ruas a segurança e o direito de ocupação cidadã, abrindo espaço para que a diversidade de bares, casas culturais e estabelecimentos se espalhe, evitando que todos os caminhos levem aos mesmos poucos lugares.

Mas não é só de falta de lazer que estamos falando. Há um pano de fundo mais profundo. O filósofo camaronês Achille Mbembe, ao formular o conceito de necropolítica, revela que o poder moderno se exerce também por meio da decisão sobre quem pode viver e quem deve morrer. No Brasil urbano, esse poder se materializa nas mortes de jovens negros e periféricos, frequentemente tratados como potenciais criminosos, vidas desvalorizadas por um racismo estrutural que atravessa tanto as políticas de segurança quanto o imaginário coletivo.

Quando um bar do Centro vira palco de tiros, não se trata apenas de um incidente isolado: é também reflexo de um Estado que regula a vida urbana a partir da violência, seja pela omissão em criar espaços seguros de convivência, seja pelo uso das armas que deveriam proteger, mas tantas vezes ceifam.

Uma amiga que estava no local descreveu a noite como uma das experiências mais assustadoras de sua vida. O medo dela é o mesmo medo que atravessa milhares de londrinenses: o de que a cidade, em vez de se abrir para encontros e convivência, continue a se fechar em becos de insegurança.

Se a revitalização do Centro não sair do papel, não será apenas a boemia londrinense que estará em risco, mas o próprio direito de ocuparmos a cidade sem a sombra constante da violência.

João Guilherme França, social media

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