Os números do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) 2026 no Paraná vão além da disputa por vagas em universidades públicas. Eles revelam um movimento silencioso, porém contundente, da sociedade brasileira: a compreensão de que viver mais exige cuidar melhor. A expressiva concorrência por cursos da área da saúde e bem-estar, como medicina, biomedicina, fisioterapia e psicologia, é um reflexo de prestígio profissional e um retrato fiel das transformações demográficas, científicas e sociais do país.

O Brasil envelhece. Ao mesmo tempo, avança na capacidade de salvar vidas desde o nascimento até a velhice, graças ao progresso das intervenções médicas. Em entrevista à FOLHA, a professora e diretora do CCS (Centro de Ciências da Saúde) da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Andrea Name, considerou que a demanda por formação em cuidado especializado decorre da maior necessidade da população, que além de ter uma longevidade maior, com o país envelhecido, também sobrevive mais, considerando o avanço nas intervenções médicas.

“A gente aumenta a possibilidade de vida desde o nascimento até o envelhecimento", pontuou. Name disse que a área da saúde vem se reinventando para contemplar pessoas de diferentes formas, “desde conseguir tratar doenças, até prevenir e agora reabilitar”. Para ela, o fator explica a procura de vestibulandos pelos cursos de medicina, fonoaudiologia e fisioterapia, visto que “trabalham este outro lado, a reabilitação".

É nesse ponto que a alta procura por cursos ligados ao cuidado especializado se torna um alerta. Os vestibulandos parecem compreender, talvez melhor que muitos gestores, que saúde não se resume à cura imediata, mas envolve acompanhamento, prevenção e qualidade de vida. A reabilitação de pacientes que sofreram um AVC, o cuidado com crianças autistas, o suporte a idosos com limitações funcionais são demandas crescentes em uma sociedade que vive mais — e que precisa viver melhor.

Outro fator determinante nesse cenário é a democratização do acesso ao ensino superior. A gratuidade das universidades públicas, o Sisu, o Enem e as políticas de cotas ampliaram o direito de escolha. Hoje, mais jovens podem sonhar com cursos antes restritos a uma parcela da população. Esse avanço social, no entanto, traz consigo uma responsabilidade coletiva: a de alinhar a formação acadêmica às necessidades reais da população, especialmente no âmbito do SUS.

Nesse contexto, a criação de novos cursos, como fonoaudiologia e a proposta de terapia ocupacional na Universidade Estadual de Londrina deve ser vista como uma resposta urgente a vazios assistenciais históricos, sobretudo na saúde básica e na reabilitação. Formar profissionais dentro do sistema público, com atuação direta em hospitais e unidades básicas de saúde, é fortalecer a rede e garantir que o direito à saúde não se limite ao diagnóstico, mas alcance a recuperação e a dignidade.

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