O escândalo envolvendo o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) reacendeu a discussão em torno da prática do lobby, já que um suposto lobista de uma construtora teria pago pensão de R$ 12 mil mensais à filha que o senador tem com uma jornalista. A FOLHA ouviu o lobista Said Farhat, autor do livro ''Lobby: o que é e como se faz'', que falou sobre a questão polêmica.

O que caracteriza a prática do lobby?
Na minha definição, lobby é toda a atividade exercida por um grupo de interesses definidos a fim de pleitear do governo, seja do executivo ou do legislativo, alguma medida de interesse desse grupo. Só que essa atividade tem de ser exercida estritamente dentro da lei e da ética. Se fugir disso, não é lobby.

Qualquer um pode ser lobista?
Desde que siga certas normas de conduta. Em primeiro lugar, conhecer bem o problema que vai discutir, saber os argumentos contrários à sua tese e respeitar os adversários. O lobista deve ter humildade, empenhar o seu melhor esforço em vez de fazer promessas infundadas. Além da capacidade de argumentar, defender a tese e não atacar as pessoas que estão do outro lado. O lobista precisa ser perseverante, bater nas portas quantas vezes for necessário. Outra regra é da veracidade. Como a gente vê todos os dias, mentiras logo se tornam visíveis e são contrariadas pelos fatos. Também deve haver respeito à probidade. Aquilo que a gente viu na televisão, um pseudo-lobista passando dinheiro a um funcionário, é um desrespeito à probidade do funcionário, e não é lobby. Quem carrega dinheiro não é lobista. Seja em maleta, envelope ou na cueca, não é lobista.

O senhor se considera o primeiro lobista profissional do Brasil a não ter medo ou envergonhar-se da palavra. Por que o lobby, para muitos, ainda remete a algo ruim?
Quando você vê nos meios de comunicação atividades ilegais praticadas por pessoas que se dizem lobistas, essa imagem tende a se espalhar e atingir aqueles que agem dentro da legalidade, no respeito às regras do jogo. Corrupção é corrupção, lobismo é outra coisa. O lobista tem de exercer sua atividade e nunca se encontrar em uma posição de oferecer ou receber uma vantagem indevida. Isso vale para todos os momentos. Não pode transigir, ser mais ou menos legal. Tem de ser integralmente dentro da lei. Quando você assume uma atitude de respeito à lei, o seu interlocutor reconhece e também tende a se comportar dentro da lei. Se você não der abertura, o interlocutor não tem como tomar a iniciativa de propor uma ação ilegal.

O que não é válido na hora de influenciar decisões?
A única coisa que você pode é argumentar para convencer. Fora daí, não há o que fazer.

No Brasil, os lobistas atuam mais no Executivo ou no Legislativo?
Deveria ser no Legislativo. Tenho depoimento de deputados dizendo que é positivo porque lobistas mostram pontos diferentes, e, portanto, atuam como meio de informação. Mas, como no Brasil o governo tem uma posição de mando maior, pela faculdade que o presidente da República tem de emitir Medidas Provisórias, o lobista acaba atuando mais no Executivo.

Por que o projeto de lei que regulamenta a atividade ainda não foi aprovado?
Esse projeto é antigo. Precisa haver uma lei que discipline a atividade do lobby, mas que sobretudo envolva punições exemplares para quem violar as regras éticas que devem gerir a atividade. Tem de haver uma discussão. Lobistas honestos têm muito receio de uma legislação feita sem participação da categoria, porque ela pode ser observada só pelos honestos, enquanto os desonestos continuarão fazendo as mesmas coisas impunemente.

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