O problema de implantar as anunciadas sete usinas hidrelétricas no Rio Tibagi não é apenas o do impacto ambiental, mas principalmente o alagamento de terras férteis, que deixarão de produzir. Alagar áreas inigualáveis para a produção de alimentos como estas do Norte do Paraná e ao longo da bacia hidrográfica do Tibagi não é apenas um crime contra as dádivas da terra, mas um crime contra as leis divinas. O Paraná nem precisa produzir mais energia elétrica para as suas necessidades, pois consome apenas 30% do que suas usinas já produzem. Então, que sejam afastadas daqui essas ‘‘sete bestas apocalípticas’’, pois a grande vocação do Paraná é explorar a agricultura e não produzir quilowatts.
Há lugares mais adequados, neste Brasil imenso, para implantar hidrelétricas, onde a formação das represas daí decorrentes não cubra terras produtivas. Energia se puxa através de linhas, e por mais longa que seja a distância ainda sairá barato diante do prejuízo representado pela interrupção da produção agrícola, safra após safra, décadas afora, toneladas e toneladas de alimentos sufocados sem o direito de nascer. Há que se pensar nisto, com responsabilidade!
Inundar áreas produtoras de alimentos deveria se enquadrar como questão relevante de segurança nacional.
É preciso que se implante um projeto global, com a aprovação do Congresso e de todos os órgãos diretamente envolvidos - entenda-se segmentos da sociedade consciente - mapeando os locais permitidos para implantação de usinas hidrelétricas, no Brasil, e não só estas mas também as termoelétricas e as termonucleares.
Veja-se o que fizeram com Sete Quedas, uma das maravilhas do mundo inteiramente sufocada pelas águas; o que fizeram com Angra dos Reis, um paraíso turístico constantemente ameaçado pela presença de uma usina nuclear, ademais caríssima e obsoleta já quando da instalação, e até hoje praticamente inativa. Acordo celebrado pelo governo ditatorial, ao tempo de Ernesto Geisel, para desovar sucata da Alemanha.
Idealizadores de usinas e dirigentes de companhias de eletricidade são pessoas que vêem tudo sob a ótica da produção de quilowatts. Energia elétrica é necessária - enquanto ainda não se alcançou a tecnologia economicamente sustentável da energia solar e da energia eólica, para não falar da temerária energia nuclear - mas hidrelétricas resultam em áreas alagadas, onde moram pessoas, onde habitam animais, onde existem matas nativas, rios e cataratas, onde se produz alimentos. Inundar áreas produtivas a torto e a direito para implantar usinas, como se tem feito no Brasil, é tão nocivo para a humanidade como detonar uma bomba atômica. Disto não se apercebem as autoridades brasileiras, e estranha que o governador Jaime Lerner e os deputados estaduais dêem sua anuência compassiva a esses projetos.
Foram políticos como estes que permitiram o afogamento das Sete Quedas. Quem comete um crime destes é capaz de tudo!
E onde estávamos nós, naquela época, que nada fizemos?!
É fundamental a ação das entidades defensoras das bacias hidrográficas. Elas acabam de promover, em Jataizinho, o Encontro das Populações do Vale do Tibagi, justamente para questionar os projetos dessas sete usinas, reunindo representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens, da Associação de Projetos de Educação dos Assalariados Rurais Temporários, da Comissão Pastoral da Terra, do Ministério Público e do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Londrina.
A sociedade inteira tem que se engajar neste movimento. Porque - repita-se - o Paraná não está precisando de mais energia elétrica. Fazer mais inundações no Paraná, por conta de usinas, é buscar a mercantilização de quilowatts, é o sonho de reforçar rankings das estatais da eletricidade na especulação de suas ações nas bolsas, aqui e até em Wall Street... Não é este o projeto do Paraná!
Que se enfoque não apenas a questão do impacto ambiental e dos sítios arqueológicos que serão cobertos pelas águas, mas sobretudo o sepultamento de terras de agricultura, como estas do Norte do Paraná, as segundas melhores do mundo depois das terras negras da Ucrânia, e que cessarão infinitamente de produzir. Some-se a agravante de que com a terra alagada irão embora os que nela habitam, com todas as consequências daí decorrentes e que já conhecemos. Porque o descaso dos governos com o futuro dessa gente tem chegado aos parâmetros da perversidade. Os hoje colonos sem-terra, em boa parte, são produtos do advento das barragens, expulsos que foram de suas terras.
Essas sete usinas, se implantadas, inundarão áreas em 42 municípios.
É preciso impedir esse novo dano à terra, em terras paranaenses. Temos que ficar vigilantes e tomar muito cuidado com o que são capazes de fazer, em prejuízo das pessoas, os homens do governo! Se facilitarmos, eles fazem!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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