“Sacrifiquemos este Natal para celebrarmos o próximo”! Este é o comentário mais ouvido na Europa, nos últimos tempos. Sem pernil, sem abraço, sem tio do pavê! Entendo, no entanto, que apesar da calamidade vivida com a Covid-19 e, principalmente devido a ela, é possível sim e necessário, celebrá-lo. O Natal cristão é fonte de esperança e vida. Ficarmos alheios a ele em nome da morte que nos ronda é contraproducente. Mergulharmos na magia de Belém que se impôs ao mundo há dois mil anos é acreditar na perene e palpável presença de Deus no meio dos homens. Ora, se Ele está conosco quem estará contra nós? (Rm 8,31).

Não podemos, porém, associá-lo à morte. Fazer deste momento uma mera festa, com tudo que lhe é inerente, incluindo aglomeração de pessoas em espaços fechados e muita bebida, é assassinar a essência do que pretendíamos celebrar! Faríamos não apenas o que Herodes não conseguiu, com o Menino Jesus, como também nos envolveríamos num ritual de morte, estranho a qualquer espírito natalino.

Há no ar a necessidade desta magia única. O mundo de 2020 deseja perscrutar nos céus carregados de nuvens escuras a estrela de Belém. Paira sobre a humanidade uma visível sensação de solidão e abandono. Lutar contra um inimigo microscópico e sem cura, evidenciou-nos a impotência e nos trouxe um cansaço tremendamente desgastante. Ecoam as palavras do próprio Jesus: “Vinde a mim vós que andais cansados” (Mt 11,28).

O ser humano necessita de oásis e o Natal é o seu maior. O deste ano, é a fonte vital a que todos aspiramos para descansar, nos revitalizarmos e nos fortalecermos. Bem que o dia 25 de dezembro poderia ser o dia da esperança! Até os não crentes conseguem se subtrair à forte sugestão desta virtude, que sempre deu energia e força a todas as utopias de libertação. O âmago que homologa este legítimo anseio dos homens e mulheres está na irrupção do divino na história. Um Deus que nos visitou pedindo licença e que nos elevou ao patamar inimaginável. Para os crentes, nenhuma outra nascente, saciará a sua sede de absoluto e de vida mais do que esta realidade.

Contudo, todos, independentemente do credo, encontram no Natal a sua espiritualidade. Ela não é se não a busca e a expressão do significado da vida, do seu propósito, da transcendência e a experiencia de conexão consigo mesmo, com a família, com os outros ou com natureza. A peculiar celebração em questão é um mergulho profundo no que de mais sagrado existe no ser humano. Ali, nos recônditos bem escondidos e nas entranhas mais protegidas, ganhamos certezas e forças que nem imaginávamos possuir. Não celebramos apenas a presença extraordinária de Deus. Sentimo-nos parte da história divina! Reinventamo-nos quando acreditamos no espírito natalino e nos superamos com a garra de quem mereceu tal visita celeste!

A Covid-19 roubou a vida de milhares de irmãos, mas não sequestrou em nós a principal convicção: Deus tem planos para o mundo e para cada um! Os sinos dobram pelos que morrem, mas nos convocam à luta por uma vitória que está chegando. O Natal 2020 não tem paralelo nos últimos cem anos. Porém, a intimidade familiar, com os protagonistas reais da família humana, tão semelhantes à de Belém, exalará o perfume do recém-nascido sorrindo para toda a humanidade!

Então é Natal! A festa cristã! A alegria dos homens que sonham e nutrem a esperança. Cuidemos das crianças e dos idosos; cuidemos de nós; cuidemos dos outros! Festejemos. Afinal, não estamos sós!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, arquidiocese Londrina

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