Londrina vem se consolidando como cidade universitária nos últimos anos, vocação comprovada por números: são 13 instituições de ensino superior oferecendo mais de cem cursos de graduação para cerca de 21 mil alunos que movimentam a economia local durante os anos de estudo.

Diante deste cenário, a briga das universidades particulares para conquistar novos estudantes fica cada vez mais acirrada. Para o reitor da Unifil, Eleazar Ferreira, a concorrência tem seu lado negativo, já que preços baixos podem significar grades curriculares menores e ensino prejudicado. Nesta entrevista à FOLHA, o educador avalia a educação no Brasil, e afirma que a ferida do problema começa na falta de autoridade dos diretores de escolas públicas. ''Ele não contrata, não demite o professor, não expulsa o aluno, ou seja, não pode fazer nada''.

Qual a avaliação que o senhor faz da educação no Brasil hoje?
A educação no Brasil tem uma cabeça muito boa, mas tem um corpo muito ruim. Se você pega a cabeça, no caso as universidades, nós temos uma elite que não perde para ninguém no mundo. Mas quando você pega a estrutura básica da educação, é muito deficiente. No ensino fundamental temos um número maior de alunos, no ensino médio é menor e na universidade nós temos 11%. Por isso a peneira para a faculdade é natural.

E a gestão escolar?
Nas escolas de 1º e 2º graus é muito caótica. A educação exige disciplina, e disciplina tem a ver com autoridade. O diretor de escola pública não tem autoridade. Ele não contrata o professor, não demite o professor, não expulsa o aluno, ou seja, não pode fazer nada. Enquanto não dotarmos o sistema de ensino de autoridade, não será possível pensar em qualidade.

E na universidade?
Nós temos uma elite, de alunos diferenciados, quase autodidatas, e temos uma massa sofrida, mas menos sofrida do que antes. Nós reclamamos que temos muitos dentistas, advogados, médicos, jornalistas, mas quanto mais pessoas nas universidades, teremos mais concorrência e só os melhores profissionais sobreviverão ao mercado. Quando as grandes empresas precisam de gente qualificada, que é gente com educação e disciplina, não têm.

Os alunos estão mais bem preparados para encarar a universidade?
O aluno hoje é muito mais reflexivo, mais crítico, tem muito mais informação. Eles estão bem preparados, porque a tecnologia invade a educação, tem alunos que gravam aulas. Além disso, embora o brasileiro ainda leia pouco, está lendo mais do que antes.

O que o senhor pensa das cotas de ensino?
São necessárias, mas apenas por nível social e não por cor racial. Tem muitos pobres que são brancos. Se não for assim, como é que as pessoas vão modificar seu status quo? Conheço muitas pessoas que, se não fosse a faculdade, teriam uma situação muito precária. Acho também que o governo deveria dar uma ajuda de custo para almoço, transporte. Não adianta ter vaga na universidade se não tem como se vestir, se alimentar, comprar materiais. Isso vai custar para o governo apenas quatro, cinco anos. Não precisa ser de graça, pode ser amortizado em 10, 15 anos.

Muitas pessoas argumentam que cairá o nível de ensino, pois os professores precisarão se adequar aos alunos cotistas. O senhor concorda?
Nas universidades públicas, temos um funil muito grande e só entra realmente quem está preparado. É inegável que há uma elite intelectual nas universidades públicas. Quando você coloca alguém sem esse mesmo rigor, é obvio que vai haver disparidade. Mas, como a massa discente é muito boa, é fácil para o professor conduzir a aula. Muitos que reclamam não querem pagar o preço de potencializar um aluno com certa deficiência, porque via de regra, ele sempre teve alunos brilhantes, muitos autodidatas. Agora você tem alguém que precisa ser estimulado.

Quais as metas da Unifil para o próximo ano?
Temos três ou quatro cursos para abrir. Esperamos que o Colégio Canadá desocupe as salas, queremos abrir ali mais um curso. O ensino das universidades particulares está cada vez mais competitivo. Londrina tem hoje faculdades que oferecem cursos com grades menores e muito mais baratos. A iniciativa privada é assim. Como sempre há uma busca pelo menor preço, muitos alunos migram, vão para a faculdade mais barata.

Como manter a qualidade e ter um bom preço?
Nós temos 36 anos de tradição, então temos um nome, temos uma história. Quem quer preço não é o aluno da Unifil. Buscamos e segmentamos dentro de quem pode pagar um preço de mercado um pouco mais alto para garantir a mesma qualidade. Atualizamos a estrutura de biblioteca, manutenção das instalações, toda uma logística para que o professor tenha condições de dar uma boa aula, o aluno ter uma boa aula, com conteúdo para sair com uma formação melhor.

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