O último censo dos professores revelou que dos quase 2 milhões de docentes da rede pública do Brasil, 13% não têm graduação ou trabalham em áreas diferentes das suas licenciaturas. A quantidade de professores sem formação adequada que estão nas salas de aula de todo o País pode ser uma das causas que levam o Brasil a ocupar a 76 posição no ranking de educação da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Para a Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Maria do Pilar Lacerda, o índice retrata uma história de longo tempo em que não se priorizou a educação, bem como a falta de reconhecimento do magistério.

Quais medidas o MEC vai tomar diante do índice revelado no último censo?
O MEC elabora um plano nacional de formação para enfrentar a questão. Em dez anos avançou-se muito. Houve redução grande de professores que atuam no magistério sem a habilitação necessária. Mas queremos zerar esse número. Vamos começar a oferecer vagas para os professores em três modalidades: para os que ainda não têm licenciatura; para os formados, por exemplo, em matemática e que dão aula de física (teriam direito a uma segunda licenciatura); e para os profissionais que têm curso superior, mas não na área da licenciatura, como um advogado que dá aula de português (seria uma complementação pedagógica). Vamos oferecer nos próximos quatro anos 330 mil vagas para professores que atuam sem a habilitação necessária.

É um absurdo pensar que 13% dos professores brasileiros não têm formação adequada para dar aula. Como a educação pôde chegar a esse ponto?
É um problema grave que enfrentamos. É o retrato de uma história de longo tempo em que não se priorizou a educação aliada ao fato de um não reconhecimento social da carreira do magistério. As condições de trabalho e os baixos salários não motivaram a juventude a entrar no magistério. Todo o trabalho do MEC hoje é para revitalizar e tornar mais atraente a carreira do professor.

E como atrair a juventude?
Estão sendo feitas políticas concretas. A primeira é o piso nacional salarial. O magistério pode ficar atraente também por meio das diretrizes de carreira e os jovens que fizerem Pedagogia ou outras licenciaturas, por meio do Financiamento Estudantil (FIES), terão um abatimento de 1% na dívida a cada mês trabalhado na escola pública. Além disso, trabalhamos com a formação continuada. Acredito que quanto mais a escola melhorar mais os jovens se sentirão atraídos pela carreira. A profissão do professor é muito sedutora. Você está sempre em contato com as novas gerações e tem a possibilidade de ajudar na transformação daquelas crianças. É preciso lembrar que não existe apenas uma medida para melhorar a formação do professor. É um conjunto de medidas.

De modo geral como a senhora avalia o ensino público no Brasil?
Estamos melhorando e há uma mobilização forte de debate sobre a educação, de envolvimento e movimentos sociais. O tema da educação é discutido com mais profundidade. Um país que não tem uma escola pública forte acaba ficando à mercê de pequenos interesses. A escola pública é o espaço mais democrático que existe. Ela não pode ser das crianças pobres, tem que ser de todas. À medida que a classe média matricula os seus filhos na rede pública, ela vai se fortalecendo e se tornando o espaço de todos. Nós pagamos impostos, somos cidadãos e temos direito a serviços públicos de qualidade.

Mas a escola pública nem sempre oferece um ensino de qualidade...
Quando vamos analisar o desempenho dos alunos brasileiros das escolas particulares nos exames internacionais os resultados também não são bons. Isso nos leva a discutir qual é o formato e o currículo da escola de educação básica no Brasil que distancia tanto os estudantes de processos de pesquisa e incentivo à curiosidade. É necessário que as pessoas percebam que o ensino enciclopédico de memorização e a quantidade de matéria empilhada é desconectada do mundo atual. Hoje os jovens e as crianças precisam de experimentação, pois a aprendizagem é geracional. A escola, tanto a pública quanto a privada, precisa repensar na organização do tempo, das disciplinas, projeto de pesquisa. Dessa forma, conseguimos efetivamente garantir uma aprendizagem significativa.

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