Números mostrados em reportagem publicada por este jornal ontem derrubam discurso difundido frequentemente por pequena parte da comunidade acadêmica brasileira. O de que gasta-se pouco em educação. Por estes números, tem-se que os gastos com ensino público, nos níveis federal, estadual e municipal, representam 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, enquanto nos Estados Unidos o porcentual é de 5,4%, na Alemanha 4,8%, no Japão 3,6%, e no Chile e na Argentina 3,5%. Este levantamento é da Unesco, em relatório recente mas com base no ano de 1997.
A princípio, cai também por terra a defesa de que os recursos humanos, na média geral, é pessimamente remunerada na área do ensino público. Eis os números da Unesco: ‘‘No ano de 2000, só o governo federal destinou R$ 15,638 bilhões para a educação. O ensino superior absorveu 47% disso: 7,358 bilhões. Desse montante, 87% foram para a folha de pagamento: R$ 6,398 bilhões. Dois terços desse dinheiro pagaram os salários dos professores e funcionários ativos e um terço os benefícios dos aposentados e pensionistas’’. Assim, a folha de pagamento, atualmente, representa 90% dos gastos com o ensino superior público.
Chega-se, com base neste relatório, a uma triste conclusão, que a própria reportagem de ontem já mencionava. A questão não é quanto se tem para a educação, mas como se gasta no ensino público brasileiro. Uma das raízes desse problema está relacionada ao índice de produtividade da mão-de-obra empregada nas instituições de ensino público superior. Muitos desses profissionais, de acordo com o relatório da Unesco, se aposentaram cedo demais e com salário integral. ‘‘Na falta de um sistema previdenciário que se sustente, eles estão no orçamento’’. Outra realidade enfocada no estudo da Unesco traz à tona uma verdade que costuma chocar e, portanto, ser rebatida por segmentos da comunidade acadêmica, mas deve ser analisada com maturidade e consciência inclusive por estes: ‘‘Muitos professores – em geral, os que têm mais títulos e portanto os mais bem pagos – se recusam a dar aula à noite, ou às sexta-feiras. Ou simplesmente a entrar em sala de aula, refugiando-se noutras atividades’’. Por consequência, há que no Brasil existem nas universidades federais a proporção de 11 alunos para cada professor, enquanto em países mais desenvolvidos esta média é de 18 alunos por professor, inclusive nos 30 países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico.
Estão nestes números as respostas para as distorções percebidas em outros níveis do ensino público nacional, principalmente em regiões mais pobres, onde professores do primeiro grau chegam a trabalhar por menos de meio salário mínimo. Os números doem, tanto para os que deles se sustentam quanto para os alijados desta contabilidade equivocada. Por isso, pedem posturas, dos parlamentares e do governo.

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