ENSINO LIVRE - Escola deve respeitar ritmo e interesses de cada aluno
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segunda-feira, 27 de julho de 2009
Mie Francine Shiba<br>Especial para a FOLHA 
''Pela minha vida tenho estado à procura da escola que daria asas à curiosidade do menino que fui. Pois, de repente, sem que eu esperasse, eu me encontrei com a escola dos meus sonhos.'' O escritor e educador Rubem Alves, neste trecho de um de seus livros, se refere à Escola da Ponte, localizada em uma cidade de Portugal a 30 quilômetros de Porto, e que nada tem do que se imagina de uma escola.
Lá não existem disciplinas, os alunos não são divididos por classes e eles podem escolher quais assuntos desejam estudar, organizando-se em grupos de estudo formados por crianças de todas as idades e com um plano de aula elaborado por eles mesmos. Aos professores, cabe assessorá-los na busca do conhecimento.
A educadora portuguesa Fátima Pacheco, que junto ao marido idealizou essa nova forma de ensinar, esteve em Londrina semana passada e conversou com a FOLHA. Para ela, o caminho para se chegar a essa ''escola dos sonhos'' pode ser lento e ter muitos entraves. Mas é uma resposta ao modelo tradicional que trata todos os alunos como se fossem iguais, enquanto cada um tem seu ritmo e interesses particulares.
Como a Escola da Ponte chegou a esse modo de ensino?
Fazendo, errando, estudando, fazendo, errando, estudando outra vez, avaliando, corrigindo. E sempre em um processo de ir e vir. A partir do momento que eu paro, (o trabalho) deixa de ter valor. Deve-se estar sempre em formação, e tudo por meio da discussão que a própria equipe de professores faz entre si e com a comunidade. Há instituições que podem colaborar com a escola e a escola pode colaborar com outras instituições. A escola não pode ser uma ilha.
Como foi o período de adaptação? Os professores ainda ficam presos ao modelo antigo de ensino?
Todas as pessoas são presas a modelos antigos. Toda mudança é muito difícil. A nossa mudança foi gradual. (A adaptação) se deu com pesquisa, tentativa e erro e partilha das dificuldades. Os problemas nos fazem ficar em inércia ou nos atiram para frente, e eles têm que ser o ponto de partida para fazer qualquer coisa, e não o ponto de chegada e de parada. E a partilha de pequenas vitórias também. Não há só dificuldades, também há pequenas vitórias.
Todas as escolas são iguais em todo o mundo. Elas foram criadas na era industrial, para criar hábitos: levantar cedo, ir para o trabalho. E continuamos a manter uma escola com essas características quando a industrialização já está avançada. Quando tudo acontece muito rápido, continuamos a formatar as crianças em um ritmo que não é o ritmo de hoje.
Por que havia a necessidade de fazer algo diferente dessa escola tradicional?
Havia crianças que eram reunidas todas em uma turma só, das que não progrediam. Quando uma criança vai para uma escola com um rótulo, essa escola já vai trabalhar em função do seu rótulo. Não vai pedir dela o máximo que ela pode fazer, vai pedir dela aquilo que o rótulo diz. É possível lutar contra isso. É possível criar mecanismos para pedir a todos o melhor de si, e o melhor de si não é igual para todos.
Quer dizer, respeitar as individualidades
Temos que deixar desabrochar na criança aquilo no que ela tem mais capacidade. Tem muita gente que sabe dançar, outros sabem cantar; mas para tudo isso geralmente se diz: ''Não siga esta carreira, porque não dá dinheiro''. É possível conciliar as duas coisas, sem desvalorizar uns em função dos outros.
Se nós formos dar só importância à capacitação acadêmica, qualquer dia, se quisermos roupa, não teremos quem faça. Se quisermos construir uma casa, não teremos quem construa. Nós desvalorizamos continuamente todo trabalho que é manual, toda escolarização profissionalizante, e isso também tem que ser valorizado.
Como as escolas podem colocar em prática mudanças como essas?
Fazendo. Como é que aprendemos a andar? Andando. Aprendemos a falar, falando. E quando se pega em um livro e se estuda, estudamos porque temos algo que nos angustia. Por que um professor também não pode estudar quando tem um problema que os angustia?
É possível qualquer escola seguir esse caminho?
Toda e qualquer escola pode seguir ''um'' caminho, cada uma o seu caminho.


