O 2º Encontro Nacional de Políticas de Ensino de Línguas Estrangeiras, realizado em Pelotas (RS) com simpósios, mesas-redondas e palestras com o tema ‘‘Construindo a profissão’’ reconheceu a importância do estabelecimento de políticas claras e definidas com relação ao papel das línguas estrangeiras no Brasil. Trata-se de um tema pouco abordado, exceto pelo ocasional interesse de políticos equivocados (ainda que bem-intencionados) em coibir o uso de palavras estrangeiras em nosso cotidiano.
Experiências de outros países em situações bastante diversas podem ser relevantes para analisarmos a ausência de políticas que garantam o aprendizado de línguas estrangeiras em nosso País. O primeiro exemplo vem da Suíça, onde, compreensivelmente, implementa-se uma política de ensino de três línguas estrangeiras, das quais o inglês é compulsório. Através de um plano decenal será implantado um programa de aprendizagem de línguas, com avaliações periódicas, visando garantir a multiplicidade da oferta e, possivelmente, assegurar mobilidade dos cidadãos numa comunidade européia plurilíngue.
O segundo exemplo é o de Cuba, que, após a queda do império soviético, reverteu o ensino de russo nas escolas para o ensino de inglês, presente também em todos os cursos de graduação, numa abordagem instrumental. O entendimento é o de que os profissionais de qualquer área precisam do inglês para desenvolvimento e aperfeiçoamento constantes, uma vez que a bibliografia e o conhecimento tecnológico se expressa naquela língua. Para que isso seja possível, os professores de inglês recebem rigorosa formação, com cargas horárias e programas que avaliam precisão e fluência. Assim, é comum causar surpresa o nível de competência linguística de professores de inglês cubanos, fruto de uma política efetiva de ensino.
Em ambos os casos, ações concretas traduzem os anseios oficiais. Em nosso País, no entanto, a política que se faz fica a meio caminho, geralmente encontrada apenas em legislação. A recente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira garante a oferta de uma língua estrangeira no ensino fundamental e a possível oferta de uma segunda no ensino médio. Na prática, são dadas poucas condições para a aprendizagem eficaz de línguas. Não se reconhece, por exemplo, a necessidade de continuidade (a escolha da língua é livre, porém é preciso garantir que haja oferta regular da mesma), as condições necessárias para aprendizagem de habilidades), a infra-estrutura necessária, o investimento na formação continuada do professor, Isto faz com que o setor privado seja considerado mais eficaz no ensino, deixando margem àqueles que somente podem frequentar a escola pública.
Esse descaso, em franco descompasso com o discurso da modernidade e da internacionalização, precisa ser superado, sob pena de negarmos aos brasileiros conhecimentos e experiências fundamentais ao pleno desenvolvimento da cidadania. Desejos expressos em documento assinado em Pelotas incluem: a garantia de ensino de qualidade de mais de uma língua estrangeira, reconhecendo-se essa importância inclusive no currículo escolar e, se possível, incorporando seu ensino nas séries iniciais; que a intenção da lei seja traduzida na prática, com a avaliação de conhecimentos de língua estrangeira nas várias modalidades de exames como ENEM e Provão; que sejam oferecidas oportunidades para o ensino bilíngue em comunidades cujos membros façam uso constante de outras línguas que não o Português.
Para esses fins, torna-se fundamental pensar na qualificação e na formação contínua de professores e para isso devem ser elaborados projetos de integração entre as escolas, secretarias de Educação e universidades para a educação contínua de professores. Essa formação pressupõe, naturalmente, o afastamento temporário do professor da sala de aula ou redução de carga horária, inclusive para a participação em eventos. A profissionalização crescente e tão necessária, deve excluir situações em que a profissão seja exercida por pessoas não habilitadas legalmente ou que não estejam preparadas para assumir a importante responsabilidade de conduzir a aprendizagem de habilidades fundamentais requeridas pela sociedade.
- TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina

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