Ensinar não a temer mas a amar - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de setembro de 1997
Walmor Maccarini 
Pesquisa realizada recentemente pela Universidade de Campinas e divulgada pela imprensa constatou que a causa principal do stress de crianças, em escolas daquela cidade, era o temor a Deus. Essas crianças, ensinadas que foram a temê-lo, declararam que se sentiam vigiadas pelo olho invisível e severo de Deus em todas as ações que praticassem, e isto as deixava em pânico. E domingo, na seção de cartas dos leitores, neste jornal, o delegado-substituto do MEC no Paraná diz não poder aceitar que o medo de Deus continue sendo causa de stress na infância.
Essa doutrina do temor a Deus já ouvíamos nas aulas de catecismo e continua até hoje como advertência grave nos sermões domingueiros das igrejas. A ponto de haver-se transformado em poderosa arma de dominação, que subjuga não só crianças e adolescentes mas também os adultos que frequentam os templos.
Não dá para conceber um Deus punidor. O que ocorre é uma equivocada interpretação do texto bíblico. As expressões temor a Deus e ira do Senhor são encontráveis nas Escrituras, daí valerem-se delas mal esclarecidos ministradores de catequese e pregadores religiosos, repassando tais ensinamentos a inocentes e acomodados ouvidores. Estes não querem incomodar-se em pensar, porque é mais cômodo que alguém lhes passe as coisas já prontas e mastigadas, e os que ensinam sentem-se confortáveis em tal situação, porque não são questionados por ninguém nem chamados a explicar nada. E se alguém ousa fazê-lo, a ponto de embaraçar seu pregador-guia, poderá ser estigmatizado como impuro e de pouca fé. Cegos guiando cegos. E assim a humanidade caminha, pela estrada dos desencontros.
A Bíblia acabou transformada em manual de religiões. Mas a Bíblia não é um livro religioso! Antes um valioso tratado de metafísica - hermético, erudito, sério demais - que só deveria ser manuseado pelos iluminados, para, estes sim, passarem adiante os ensinamentos ali contidos e que guardam as chaves de todos os mistérios e o código das causas primeiras e de todos os princípios. E o princípio fundamental é que todas as coisas já são e estão. E como tal, imutáveis. Não há pois que se temer um Deus de castigo ou esperar premiação de um Deus de benevolência, porque a Inteligência Divina não age por emoções e sentimentos, mas por um ordenamento preciso.
Deve o homem, sim, temer a si próprio, porque ele é o senhor de seus pensamentos, de seus desejos, de suas palavras e de seus atos. Deus o assiste e não interfere, portanto nem pune nem contempla. Ele criou todas as coisas e as dispôs, ao alcance do homem, que é sua centelha, por isso feito (da luz) à sua imagem e semelhança. O homem, dono do livre arbítrio por concessão dAquele que o criou, é quem castiga a si próprio ao não buscar essas dádivas dispostas; e premia-se quando crê e vai buscá-las. Tudo pode o homem nAquele que o gerou e lhe dá vida, porque Deus é tudo o que vive e se move, e tudo o que vive e se move é Deus.
Mas, pelo poder da livre decisão, o homem tem o direito de ocultar-se na negação de que é divino; ou seja, ocultar-se da consciência de que é espírito e que está umbilicalmente conectado com a Inteligência Superior, que rege todas as coisas. Porque nós e todas as coisas compomos Deus, e Deus se compõe de cada ser e de todas as coisas.
Por não identificar Deus em si mesmo o homem o teme. E se o teme é porque não o reconhece. E se não o reconhece não o ama. Nega sua própria origem e sua essência.
Deus é sempre o sim, até para o mal se este for o desejo do homem. Como falaste aos meus ouvidos, assim farei. Como o homem imaginar, desejar e falar, assim será.
Os demônios, pois, são os nossos egos, não algo que se incorpore em nosso invólucro carnal e que possa ser exorcizado, como assistimos em formidáveis espetáculos das funções religiosas nas tevês da madrugada. Tais demônios são, antes, fraternos nossos em deploráveis condições, dignos não de irada repulsa mas de paciente e caridosa doutrinação. Os demônios verdadeiros são os nossos egos e eles geram todas as manifestações demoníacas que irresponsavelmente imaginarmos. Porque o homem foi gerado da luz mas tem dado preferência por viver na treva da ignorância. Cobriu-se com este manto e ocultou-se; desconectou-se, saiu de frequência, perdeu a sintonia com sua realidade divina.
Só descobrindo-se da treva e reconhecendo-se na luz (a causa primeira), onde como espírito foi gerado e espírito é em sua essência, o homem-Deus reencontrará o elo perdido, conhecerá de novo a verdade e se tornará livre. Será o renascer (ou o nascer de novo, como está escrito); a volta ao Jardim do Éden de onde originariamente é.
Os que ensinam o temor a Deus melhor fariam se ensinassem a amá-lo.
E começar por nos amarmos uns aos outros será um grande começo!


