Ensinar é preciso, viver não é!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de março de 2023
João dos Santos Gomes Filho 
Leio n’alguma mídia social que uma estudante de ensino público no Amazonas (Rilary Manoela Coutinho) atingiu nota máxima em redação no Enem 2022, sem qualquer cursinho preparatório e/ou acesso à internet. Só se valeu da leitura dos livros que ganhou na escola estadual Tereza dos Santos.
Esse é um Brasil possível - acredito. A dificuldade está em estabelecer o conceito em favor de uma educação pública de qualidade.
Deveras, qualquer equação que se levante sobre países de terceiro mundo deveria alocar a educação pública enquanto prioridade. Infelizmente não é assim que as coisas vêm se desenvolvendo...
Em latino américa o ensino público é esgrimido (secularmente) pelas elites econômicas enquanto inimigo a ser vencido. No caso do Brasil, educar deixou de ser prioridade desde 2016 – lembram a tal ponte para o futuro? Pinguela que se revelou, não arregimentou espaço para o que importava.
Nossa elite econômica dá mostras cotidianas de perversão e ignorância ao contrapor iniciativas de democratização dos bancos da academia, na medida em que, sem sequer saber quem foi/é Paulo Freire, demoniza sua figura apenas para seguir o berrante que lhes conduz.
Há um método visivelmente fascista na elitização do ensino, naquilo que quanto menos conhecimento, mais ignorância – é matemático esse postulado cujo silogismo premissal encaminha para a manutenção do status quo.
Em verdade, a elite econômica brasileira (aquela que aderiu ao fascismo porque era preciso tirar o PT do poder) jamais quis que os filhos de seus empregados ascendessem na estrada do conhecimento...
Conhecer é se libertar e não há como seguir explorando minorias em polo de convívio com o ideário de liberdade – como bem deu mostras a Serra Gaúcha (por suas três vinícolas: Cooperativa Salton, Garibaldi e Aurora) na exploração de trabalhadores rurais para a ‘panha da uva’, em condições tão precárias que a polícia federal já autuou inquérito pera apurar a condição análoga à escravidão.
A perpetuação de uma mão de obra barata e acessível que permita à elite seguir realizando desejos desviantes de sua condição pequeno-burguesa, per si caracteriza o modelo exploratório que vem, há séculos, movendo o rio da existência.
Por trás da continuidade desse modo de exploração maléfico (mais valia bebê, mais valia!) dormita a querença da elite econômica em pulverizar qualitativamente o ensino de base de categoria pública.
Assim, quando uma jovem manauara (Rilary Manoela), advinda do ensino público, consegue nota máxima em redação no Enem, furando a bolha da automação do pensamento crítico, temos muito a comemorar.
Já cansei de explicar (cheguei a desenhar) que a elite econômica padece de um mínimo de inteligência ao não bancar a qualificação do ensino público, suposto que as velhas formas de exploração que o neoliberalismo distribuiu estão no limite do próprio esgotamento, conforme vem apontando diversos economistas.
O medo do novo, entrementes, tem obnubilado a reinvenção da elite econômica latina e, de consequência, se lhe desinteressa investir na formação acadêmica do país, na busca de uma distribuição menos injusta de renda.
A perpetuação do modelo explorador de casa grande é quem banca a senzala e impede a proliferação de cabeças pensantes que desanuviem as armadilhas do consumo e as desalegrias convoladas pela e na ausência de empatia.
Para o jovem rico brasileiro, padre Júlio é um estorvo que alimenta os fracassados, na medida em que estes não servem ao mercado – seja pelo fracasso em si, ou pela ‘nóia’ de sua condição mental.
Essa vem sendo a nota característica dos países de desigualdade terrível (Brasil lidera nesse quesito) e encerrar esse ciclo é demanda mais econômica que social, naquilo que o bolsa família mostrou ao mundo que quando circula algum dinheiro, ainda que no mais distante grotão, esse círculo faz girar a roda da economia, naquilo que pobre não é rentista – dinheiro de pinga também abastece a economia!
Deveras, ainda que os milionários latinos acreditem piamente terem sido agraciados (ungidos) com a arte de bem nascer e, nesse loop, entronizem um conceito muito próprio a que apelidam meritocracia, soa muito falso sustentar a bolha na ignorância do gado interior que cultivam à base da ausência de leitura e à mingua de qualquer visão crítica do mundo.
Há, por aqui, uma verdadeira reserva de mercado em favor da elite econômica e a jovem Rilary, com sua nota mágica (1000) em redação, mostrou que o caminho segue sendo a educação – todo o demais não é senão política neoliberal que atende interesses da burguesia e joga contra o pobre.
Recomendo a leitura de Jessé de Souza (‘A elite do atraso’) para melhor compreensão de nossa necessidade de estancar o abismo social que construímos e, quem sabe, ao menos contrapor a tantada de absurdo que as mídias sociais esparramaram contra Paulo Freire e o padre Júlio.
Por hora, é celebrar a nota 1000 em redação que o ensino público do Amazonas colheu no talento de Rilary.
Tristes trópicos, onde aquele que detém o meio de produção ignora que seu inimigo é o conformismo do modelo explorador. Saudade Pai!
João dos Santos Gomes Filho, advogado
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