Leio n’alguma mídia social que uma estudante de ensino público no Amazonas (Rilary Manoela Coutinho) atingiu nota máxima em redação no Enem 2022, sem qualquer cursinho preparatório e/ou acesso à internet. Só se valeu da leitura dos livros que ganhou na escola estadual Tereza dos Santos.

Esse é um Brasil possível - acredito. A dificuldade está em estabelecer o conceito em favor de uma educação pública de qualidade.

Deveras, qualquer equação que se levante sobre países de terceiro mundo deveria alocar a educação pública enquanto prioridade. Infelizmente não é assim que as coisas vêm se desenvolvendo...

Em latino américa o ensino público é esgrimido (secularmente) pelas elites econômicas enquanto inimigo a ser vencido. No caso do Brasil, educar deixou de ser prioridade desde 2016 – lembram a tal ponte para o futuro? Pinguela que se revelou, não arregimentou espaço para o que importava.

Nossa elite econômica dá mostras cotidianas de perversão e ignorância ao contrapor iniciativas de democratização dos bancos da academia, na medida em que, sem sequer saber quem foi/é Paulo Freire, demoniza sua figura apenas para seguir o berrante que lhes conduz.

Há um método visivelmente fascista na elitização do ensino, naquilo que quanto menos conhecimento, mais ignorância – é matemático esse postulado cujo silogismo premissal encaminha para a manutenção do status quo.

Em verdade, a elite econômica brasileira (aquela que aderiu ao fascismo porque era preciso tirar o PT do poder) jamais quis que os filhos de seus empregados ascendessem na estrada do conhecimento...

Conhecer é se libertar e não há como seguir explorando minorias em polo de convívio com o ideário de liberdade – como bem deu mostras a Serra Gaúcha (por suas três vinícolas: Cooperativa Salton, Garibaldi e Aurora) na exploração de trabalhadores rurais para a ‘panha da uva’, em condições tão precárias que a polícia federal já autuou inquérito pera apurar a condição análoga à escravidão.

A perpetuação de uma mão de obra barata e acessível que permita à elite seguir realizando desejos desviantes de sua condição pequeno-burguesa, per si caracteriza o modelo exploratório que vem, há séculos, movendo o rio da existência.

Por trás da continuidade desse modo de exploração maléfico (mais valia bebê, mais valia!) dormita a querença da elite econômica em pulverizar qualitativamente o ensino de base de categoria pública.

Assim, quando uma jovem manauara (Rilary Manoela), advinda do ensino público, consegue nota máxima em redação no Enem, furando a bolha da automação do pensamento crítico, temos muito a comemorar.

Já cansei de explicar (cheguei a desenhar) que a elite econômica padece de um mínimo de inteligência ao não bancar a qualificação do ensino público, suposto que as velhas formas de exploração que o neoliberalismo distribuiu estão no limite do próprio esgotamento, conforme vem apontando diversos economistas.

O medo do novo, entrementes, tem obnubilado a reinvenção da elite econômica latina e, de consequência, se lhe desinteressa investir na formação acadêmica do país, na busca de uma distribuição menos injusta de renda.

A perpetuação do modelo explorador de casa grande é quem banca a senzala e impede a proliferação de cabeças pensantes que desanuviem as armadilhas do consumo e as desalegrias convoladas pela e na ausência de empatia.

Para o jovem rico brasileiro, padre Júlio é um estorvo que alimenta os fracassados, na medida em que estes não servem ao mercado – seja pelo fracasso em si, ou pela ‘nóia’ de sua condição mental.

Essa vem sendo a nota característica dos países de desigualdade terrível (Brasil lidera nesse quesito) e encerrar esse ciclo é demanda mais econômica que social, naquilo que o bolsa família mostrou ao mundo que quando circula algum dinheiro, ainda que no mais distante grotão, esse círculo faz girar a roda da economia, naquilo que pobre não é rentista – dinheiro de pinga também abastece a economia!

Deveras, ainda que os milionários latinos acreditem piamente terem sido agraciados (ungidos) com a arte de bem nascer e, nesse loop, entronizem um conceito muito próprio a que apelidam meritocracia, soa muito falso sustentar a bolha na ignorância do gado interior que cultivam à base da ausência de leitura e à mingua de qualquer visão crítica do mundo.

Há, por aqui, uma verdadeira reserva de mercado em favor da elite econômica e a jovem Rilary, com sua nota mágica (1000) em redação, mostrou que o caminho segue sendo a educação – todo o demais não é senão política neoliberal que atende interesses da burguesia e joga contra o pobre.

Recomendo a leitura de Jessé de Souza (‘A elite do atraso’) para melhor compreensão de nossa necessidade de estancar o abismo social que construímos e, quem sabe, ao menos contrapor a tantada de absurdo que as mídias sociais esparramaram contra Paulo Freire e o padre Júlio.

Por hora, é celebrar a nota 1000 em redação que o ensino público do Amazonas colheu no talento de Rilary.

Tristes trópicos, onde aquele que detém o meio de produção ignora que seu inimigo é o conformismo do modelo explorador. Saudade Pai!

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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