Enquanto há vida há esperança
A luta da ciência médica, desde a antigüidade, foi a de encontrar fórmulas de melhorar a saúde das pessoas e prolongar-lhes a vida, e os avanços nesse campo foram extraordinários, culminando com a era dos transplantes e do desvendar do genoma. Por isso é contraditória a angústia pela qual passa a nação americana (e que atinge inclusive o presidente George W. Bush, conforme sua própria declaração), face ao episódio Terri Schiavo, na Flórida. Esta paciente, que há 15 anos vive em estado vegetativo, teve a sonda da alimentação desconectada, por ordem judicial obtida pelo marido, embora toda a família seja contra. O caso ganha dimensão mundial, porque envolve a delicada questão da eutanásia, que é a permissão da morte sem dor de uma pessoa em estado terminal ou vivendo apenas vegetativamente, como Terri, e outros. Com a recente decisão da Suprema Corte americana de não ocupar-se do caso, a situação ganhou mais repercussão, e agora a decisão final cabe ao governador da Flórida, Jeb Bush, que é irmão do presidente Bush. A retirada da sonda do alimento demonstra o óbvio: que o corpo mantém normalmente a parte vital de suas funções e que Terri Schiavo é uma pessoa viva. Ela está internada em uma casa de saúde, está rodeada de médicos e acompanhada à distância pela comunidade científica, não só dos Estados Unidos mas do mundo. Portanto todo um arsenal que existe em função de salvaguardar a vida. Então, deve-se inferir que, se existe vida no corpo físico da paciente, há esperança. A bioética tem se ocupado dos casos congêneres, como o do aborto em situações de filho indesejado por razões específicas, caso da eutanásia, mais recentemente da anencefalia e, por extensão embora com outras implicações a pena de morte. Entra nessas avaliações a discutida questão de saber-se onde começa a vida, caso da concepção; e onde a vida termina, caso do paciente terminal. A ciência não-convencional tem definições claras sobre isso, mas a ciência oficial, em que se inclui a bioética, não. A Justiça, de sua vez, prefere evitar tais julgamentos, e isto mais uma vez se revelou com a recusa da Suprema Corte em envolver-se com o caso Terri embora, contraditoriamente, aceite a pena de morte para certa tipificação de delinqüência. O pensamento cristão é que se guarde a vida enquanto ela existir, mesmo em situações extremas, e algumas correntes religiosas descem mais fundo e defendem que o livre arbítrio da vítima (casos do nascituro e eutanásia) não foi consultado. Se humanamente essa consulta é impossível, tais correntes argumentam com razões mais sutis e transcendentes, que escapam do entendimento convencional. O consenso é ainda aquele, o de que se há vida há esperança, não importando as circunstâncias. A humanidade carrega em seu âmago o sentimento da preservação da vida e é contrária ao extermínio.





