Em seu discurso por ocasião da posse da nova diretoria da Itaipu Binacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a dar o tom de seu governo: a questão social é imprescindível. Foi claro quando afirmou que vinha à cerimônia de transmissão de cargos menos pela quantidade de megawatts que a usina gera, mas muito mais pelo que ela representa. Disse ainda que Itaipu é o símbolo do que entende que deva ser a cooperação do Brasil com seus vizinhos de continente.
Aproveitou para incitar o novo diretor-geral brasileiro, Jorge Samek, a transformá-la também em agente do desenvolvimento social e modelo de integração da política comum à América do Sul, reiterando seu compromisso de campanha quando afirmou que alguns setores podem esperar ''um mês, um ano, mas quem está com fome não pode esperar mais um dia''. Assim, se os ministérios devem fazer cortes nos orçamentos, disse Lula, que não seja nas verbas sociais.
Se valer o provérbio de que ''é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe'', a Itaipu tem um desafio gigantesco e da maior importância no governo petista. Aliás, na primeira entrevista coletiva que concedeu à imprensa, Samek foi enfático ao dizer que a empresa não pode se fechar na condição de ''só produzir energia''.
Com uma excelente estrutura tecnológica, de recursos humanos, na área de meio ambiente, aliado à importância que exerce no contexto nacional, sua função deverá ir além de qualquer propósito meramente técnico ou burocrático. Nada é mais prioritário ao presidente Lula que seu programa Fome Zero. No entanto, distribuir alimentos ou recursos aos menos favorecidos é uma questão emergencial.
O fundamental é o planejamento de uma política de médio e longo prazo alicerçada numa proposta de parceria entre governo e sociedade, que nos últimos anos convencionou-se chamar de responsabilidade social, visando discutir e buscar soluções plausíveis, inclusive com Paraguai e Argentina, que se revertam em emprego, renda, saúde, educação, segurança e lazer.
Atrelada a este fato, o presidente tem demonstrado que a restauração do Mercosul é não só um projeto econômico como político, onde o Brasil tem obrigação de liderar a retomada do crescimento latino-americano. Mais uma vez, o Paraná e a Itaipu, por suas privilegiadas posições geográficas, vêem-se no centro das atenções.
A engenharia humana foi capaz de erguer esta gigantesca e monumental obra física, mas incapaz de rever suas mazelas e tampouco solucionar uma dívida social que muitas vezes ela mesma propiciou, deixando sequelas e cicatrizes profundas que culminaram com fome e miséria vistas a olhos nus, tanto aqui como do lado paraguaio. Mais que estrutura ou capacidade técnica, a questão fundamental neste momento é de vontade e decisão política.
Encontrar uma saída é a árdua e difícil tarefa que compete a todos indistintamente. Quem sabe se um amplo segmento da sociedade sentasse ao redor da mesa e discutisse as estratégias possíveis, não estaríamos dando o primeiro passo para transformar o sonho em realidade.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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