Desde o final do século XVII o Paraná vem experimentando variados ciclos de desenvolvimento econômico. Uns com longa duração, outros nem tanto. O primeiro, com origem em Paranaguá, foi o da exploração aurífera. O segundo, instituído com o da erva-mate, seguindo uma tendência de expansão na ocupação territorial.
Mais recentemente, no início dos anos 50, vivemos a euforia em torno dos cafezais: o ciclo do café; atualmente, predomina o ciclo da produção de grãos que nos leva a uma reflexão mais atenta. O Paraná é o maior produtor nacional de milho, feijão e trigo. O segundo na cultura de soja. No total, são aproximadamente 20,6 milhões de toneladas de grãos/ano. Considerando a população do Estado, que é de 9,5 milhões de habitantes, temos uma disponibilidade de 2.170 kg de grãos por pessoa/ano - o que equivale a 6 kg diários de grãos, quando o recomendado é de 350 gramas. Ou seja, na balança da auto-suficiência, estamos produzindo dezessete vezes mais do que consumimos.
Todos esses conhecidos ciclos citados, sem dúvida, tiveram e têm curtíssimo tempo de duração. A produção de grãos, por exemplo, esgota-se quando apresenta um excedente e, ao mesmo tempo, outras fronteiras agrícolas competem conosco. Apenas um ingrediente essencial à atividade produtiva, abstrato, no entanto, atravessou os últimos 50 anos, na retaguarda dos empreendimentos, fortalecido e preparado para tornar-se o novo ciclo de desenvolvimento econômico do Paraná: a energia.
O ciclo da energia está passando despercebido pelo governo que tem limitações no campo estratégico. Ora, estudos científicos apontam períodos de escuridão em um horizonte não muito distante em função da prevista falta de energia elétrica principalmente na região Sudeste, onde predomina boa parte da industrialização do País. Por outro lado, aqui, no Paraná, há em abundância o cobiçado vetor de geração de riquezas. Produzimos nesta plaga a energia que consumimos. Destinamos parte da geração para segurar o pico da demanda nacional. Ou seja, temos de sobra por enquanto aquilo que outros não têm: energia. Mas, o senso de desenvolvimento estratégico nos leva a crer que podemos ser o grande fornecedor de energia a todos os brasileiros.
Com esse produto abstrato, que é a energia, limpa e renovável, podemos desenhar o novo ciclo de desenvolvimento às forças produtivas paranaenses. A atração de indústrias é mais promissora por gerar o bem-estar social de forma rápida e concreta com a criação de novos postos de trabalho. Concomitante, assegura a manutenção da mão-de-obra empregada. Pois o exemplo da Califórnia (EUA) está muito vivo na memória de todos nós. Naquele estado norte-americano, a escuridão provocada pelos sucessivos apagões é a mesma que atormenta as famílias que sofrem a falta de emprego devido à fuga das indústrias. Um retrocesso jamais visto decorrente da privatização do setor elétrico.
A reserva mundial de energia fóssil - que é altamente corrosiva ao meio ambiente, portanto, aos seres humanos - deve ser aniquilada dentro de menos de 30 anos em virtude do consumo desregrado das potências hegemônicas nos planos político, econômico e bélico. Deve, então, a partir daí, surgir uma corrida insana pela busca de alternativas energéticas que possibilitem conforto e riquezas às nações. Vale sempre lembrar que os exércitos dessas potências se movimentam de acordo com a concentração do petróleo e da água potável. Esta última é determinante, no caso do Brasil, à geração de energia limpa, segura e renovável, uma vez que a fissão nuclear mostrou-se inviável e ameaçadora às vidas.
Enquanto os países hegemônicos estão localizados em regiões temperadas e frias, o Brasil possui o maior reator à fusão nuclear do mundo dado pela natureza que é o Sol. Além do clima tropical, nosso país detém cerca de 22% da água doce do planeta. São recursos naturais que dão origem à fotossíntese, à biomassa, princípio da vida animal e vegetal. Existem outras formas de se obter energia como a eólica, geotérmica, solar direta, entre outras. Portanto, em 1974, antecipados quase 30 anos ao colapso que se avizinha, tivemos a experiência positiva do Proálcool a qual visava substituir a gasolina e os derivados do petróleo pelo álcool. Esse combustível limpo e renovável também serviu como mistura antidetonante à gasolina. Os EUA optaram, nesta mesma época, pelo MTBE (chumbo) o que acarretou a contaminação de 30% dos poços de água potável em 31 Estados daquele país.
No caso específico do Paraná, a Copel, com ajustes em sua diretiva que visem atender aos anseios por uma nova era que se aproxima, pode ser a vanguarda de um período promissor sem precedentes na história política e econômica - desde que controlada pelo poder público, pelo povo paranaense. Garantir o desenvolvimento sustentável é dever do Estado. A venda da Copel (internacionalização, inclusive dos rios, é o termo mais apropriado), portanto, constitui-se em crime hediondo a julgar o caso californiano. Podemos nós, paranaenses, dar um bom exemplo de criatividade ao país, de civismo e de patriotismo.
Para dar início a esta ‘‘revolução cívica’’, envolvendo corações e mentes, o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná (CREA-PR) realizará nos próximos dias 14 e 15 de maio, em Curitiba, o Seminário Estadual sobre Matrizes Energéticas. Vamos dar a largada estratégica para construir, junto com a sociedade civil organizada, um novo ciclo de desenvolvimento econômico para o Paraná: o ciclo da energia.
- LUIZ ANTONIO ROSSAFA é presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná (CREA-PR) e membro da coordenação do Fórum Popular Contra a Venda da Copel

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