ENERGIA E IMAGEM - Conflito de informações ainda é problema para Itaipu
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de dezembro de 2012
Emerson Dias <br>Especial para FOLHA 
Itaipu mudou literalmente a paisagem de Foz do Iguaçu (Oeste) a partir da década de 1970, quando represou o Rio Paraná para criar um lago com 1,3 mil quilômetros quadrados, provocou o êxodo de 90 mil pessoas e transformou uma cidade de 20 mil habitantes em um polo com 101 mil moradores dez anos depois, em 1984, quando começou a efetivamente gerar energia.
Agora, 38 anos após os governos brasileiro e paraguaio terem criado a hidrelétrica binacional, a direção da Itaipu quer mudar novamente a imagem da região, com projetos e ações focando a diminuição do trabalho informal (leia-se contrabando) e incentivando o turismo. A informação é do jornalista Gilmar Piolla, de 42 anos, superintendente de Comunicação Social da Itaipu Binacional e presidente do Fundo de Desenvolvimento e Promoção Turística do Iguaçu.
Melhorar as condições sociais na fronteira é importante, mas o foco na principal atividade - gerar 92,2 milhões de megawatts-hora (MWh) - não pode se perder, ainda mais em tempos de apagões seguidos, como os três que ocorreram entre o fim de outubro e o início de novembro.
Um dos principais problemas enfrentados pela Itaipu é o conflito de informações, tema que passa pela equipe comandada pelo jornalista Piolla. ''Que eu me lembre, nunca houve nenhum blecaute no Brasil que tenha tido Itaipu como causa'', disse o superintendente, reforçando a confusão que ainda existe - por parte da população e da própria imprensa - entre geração, transmissão e distribuição de energia no Brasil.
Para enfrentar estes problemas e dar andamento aos projetos até 2023, ano em que a usina deixa de repassar royalties às cidades banhadas pelo lago, a Itaipu usa todos os recursos disponíveis: de grandes campanhas publicitárias ao uso emergencial do Twitter em momentos de crise.
Em entrevista concedida à FOLHA depois de palestrar na Semana de Comunicação do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), realizada entre o final de outubro e o início de novembro, Piolla falou sobre estes assuntos e destacou que o Paraná é ainda o maior estado produtor de energia elétrica do País, responsável por praticamente 25% da geração nacional. Uma situação que, no entanto, não ''zera'' o risco de apagão no Estado.
Em tempos de apagão, informação sobre o sistema elétrico nacional é importante e precisa ser rápida. Durante palestra na UEL, o senhor citou o exemplo de como foi útil o uso do Twitter no apagão de 2009. Quais as estratégias em uso nos recentes apagões de outubro?
O segredo de um bom gerenciamento de crise está na agilidade e na qualidade das informações. Para fazer isso, eu diria que é preciso centralizar as informações em um ou no máximo dois porta-vozes para evitar a pulverização do posicionamento da empresa. Fazemos isso sempre que há necessidade. E usamos todos os meios possíveis para disseminar a versão da empresa.
As redes sociais têm um papel estratégico, especialmente o Twitter. Itaipu foi a primeira grande empresa a usar o Twitter para fazer gerenciamento de crise. Foi durante o blecaute de 2009. Divulgamos a versão da empresa e corrigimos até manchetes dos grandes portais.
Ainda há confusão entre empresas e estruturas que atuam na geração, transmissão e distribuição de energia por parte da imprensa?
É uma confusão recorrente. Itaipu é a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia. Que eu me lembre, nunca houve nenhum blecaute no Brasil que tenha tido Itaipu como causa. Nossa manutenção e operação são impecáveis. Os problemas ocorrem, geralmente, no sistema de transmissão, vinculado à Itaipu, mas não pertencente a nós. O problema que causou o blecaute de 2009 aconteceu na subestação de Furnas em Itaberá (SP), que leva energia de Itaipu para a região Sudeste. No primeiro momento, Itaipu levou a culpa. Com uma boa estratégia de gerenciamento de crise, revertemos a situação. Mas basta qualquer blecaute Brasil afora para que Itaipu seja responsabilizada. Cabe sempre a nós, da assessoria de comunicação social, levar a informação correta aos jornalistas e à opinião pública.
Já saiu muita notícia afirmando que houve ''pane geral'' na Itaipu ou que ''uma turbina parou'', situações que o senhor diz nunca ter ocorrido? Como trabalhar isso com o público?
Acontece, sim, com frequência. Buscamos esclarecer rapidamente, para não deixar a informação se propagar e contaminar os outros veículos de comunicação. Importante é não se afobar e não se estressar com isso. A imprensa tem poucos jornalistas hoje especializados no setor elétrico. E cá entre nós, entender de setor elétrico é complexo. Temos que ter a consciência de que a maioria dos jornalistas não tem conhecimento aprofundado sobre o tema. Por isso, temos que levar as informações mastigadas para que a comunicação não saia truncada. Para que os veículos informem e não desinformem o seu público.
Como o Estado se encontra no cenário energético brasileiro? Temos risco de apagão no Paraná?
O Paraná é o Estado que mais produz energia no Brasil. Incluindo Itaipu e as usinas da Copel e da Tractebel respondemos pela produção de 128 milhões de MWh, o que corresponde a 24,4% de toda a produção de energia elétrica nacional. Somos autossuficientes e ainda abastecemos outros Estados, sobretudo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Exploramos bem o nosso potencial hidrelétrico, mas não somos recompensados por isso. Por um equívoco dos nossos constituintes, o ICMS da energia fica no Estado consumidor e não no Estado gerador. Temos várias novas usinas em processo de construção. Temos também um enorme potencial no aproveitamento de outras fontes renováveis, como a eólica, a solar, a biomassa e o biogás. Riscos de blecautes sempre existem, pois os sistemas de transmissão e distribuição não estão imunes a intempéries naturais e a falhas técnicas e humanas.
A superintendência onde o senhor trabalha absorveu vários projetos e se envolveu em outros tantos, entre eles o setor turístico. Como a Itaipu pode mudar a imagem de Foz?
Uma das grandes conquistas de Foz do Iguaçu nos últimos anos foi a mudança da imagem. A cidade era conhecida como destino de sacoleiros, do contrabando, do tráfico de drogas e de armas, da criminalidade e até mesmo do terrorismo. Assumimos a coordenação dos trabalhos de assessoria de imprensa, marketing e promoção de eventos para mudar a imagem da cidade. Hoje, Foz do Iguaçu ainda convive um pouco com aquela imagem do passado, mas passou a ser reconhecida, nacional e internacionalmente, como destino turístico de qualidade para lazer, eventos, ecoaventura e até mesmo compras. A Gestão Integrada do Turismo uniu os esforços do setor público e da iniciativa privada para fortalecer Foz do Iguaçu como destino turístico. Com a melhoria da imagem, atraímos mais de R$ 500 milhões em obras de reforma, melhoria e expansão da nossa rede hoteleira e da gastronomia. Elegemos as Cataratas do Iguaçu uma das sete maravilhas mundiais da natureza. E criamos um calendário de eventos que fortaleceu a nossa participação neste setor. Alguns eventos já são destaque nacional, como a Meia Maratona das Cataratas e as competições nacionais e internacionais de canoagem e rafting. Nos próximos três anos, seremos sede do X-Games, o mundial de esportes radicais. Foz do Iguaçu recebe hoje mais de 600 eventos por ano e só fica atrás de São Paulo e Rio de Janeiro.
Depois de 2023, a Itaipu encerra o repasse de royalties. A usina vai parar de colaborar com os municípios lindeiros? E como ficará a relação com o Paraguai?
Ainda não sabemos como vai ficar. O que está previsto é que, em 2023, deverá ser revisado o Anexo C do Tratado de Itaipu, que estabeleceu as bases financeiras do acordo entre Brasil e Paraguai em torno do gerenciamento da usina. E isso inclui a questão dos royalties. Tudo isso vai ser objeto de muita discussão, ainda. Mas uma coisa é certa: independentemente do resultado, Itaipu vai continuar sendo parceira do desenvolvimento regional. E essa parceria é indissociável. Vai durar enquanto a empresa existir. Quanto à sociedade com o país vizinho, em 2023 o Paraguai terá livre disponibilidade da sua cota-parte de energia de Itaipu. Poderá usá-la como quiser, no desenvolvimento industrial do País, ou continuar vendendo ao Brasil ou aos países vizinhos. Usando uma expressão do nosso diretor-geral, Jorge Samek, o Paraguai é o país mais ''quilovático'' do planeta e já se destaca como um dos países que mais crescem na América Latina e no Caribe. E o linhão de 500 kV (quilovolts) que Itaipu está construindo com recursos do Focem, o Fundo de Convergência de Infraestrutura do Mercosul, para levar energia elétrica da usina até Assunção, vai permitir a industrialização do país. Com isso, o consumo de energia no país vizinho vai aumentar muito nos próximos anos. É uma oportunidade imperdível para que empresas brasileiras e estrangeiras se instalem na região. Energia não vai faltar.


