Ao que tudo indica, nem mesmo os escandalosos vazamentos de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), há alguns anos, renderam tantos posts, likes e memes nas redes sociais quanto o tema da redação do último concurso. O enunciado "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira" provocou um enorme fervor quando veio a público, justamente porque o assunto está bem próximo da realidade e a violência contra a mulher é um grande problema de gênero no País. Muitas brasileiras se sentiram representadas com o tema e se manifestaram até mesmo na página do facebook do Ministério da Educação (MEC), agradecendo e elogiando a escolha. A prova de redação foi realizada no domingo.
No primeiro dia de prova, sábado, uma questão do caderno de Ciências Humanas já havia chamado atenção de ativistas dos direitos da mulher. A pergunta trazia a célebre frase de Simone de Beauvoir - "Não se nasce mulher, torna-se mulher" - em abordagem sobre as lutas feministas. A questão também chamou a atenção da classe mais conservadora da Câmara dos Deputados fazendo os parlamentares Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) irem às redes sociais para protestar contra o que eles chamaram de "tentativa de doutrinação". Feliciano argumentou que o MEC "tenta impingir a teoria de gênero goela abaixo, com subterfúgios".
As questões do Enem são elaboradas por dezenas de professores de universidades públicas e privadas de todo o País. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo concurso que abre as portas para muitas instituições brasileiras de ensino superior, possui um banco de questões com cerca de 10 mil perguntas. Antes de chegar aos estudantes, elas passam por uma revisão do próprio Inep.
Quem prestou atenção nas questões de Ciências Humanas percebeu que temas sociais, filosóficos, educacionais, culturais e políticos estavam presentes de maneira bem ampla. E Simone de Beauvoir não foi a única pensadora dos séculos 19 E 20 citada pelo Enem. Tinha Friedrich Nietzche e charges de Amarildo e Ziraldo. Max Weber, São Tomas de Aquino e o poeta angolano Agostinho Neto também estavam lá. É nítido que o exame tenta fazer os candidatos lerem, interpretarem, enfim, pensarem sobre importantes temas contemporâneos. Diante disso, é preciso questionar o argumento da "doutrinação", levantada pelos parlamentares. Questões de gênero e a violência contra a mulher não são temas relevantes que precisam ser debatidos pela sociedade?

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