Endividados têm final de ano ''magro''
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domingo, 22 de dezembro de 2002
Renê Muller<br> Reportagem Local 
A imagem de sorrisos, mesa farta e do pinheiro rodeado de enormes embrulhos de presentes é lei nas propagandas da televisão, mas muito diversa da realidade que espera boa parte das famílias de Londrina. A dona de casa Maria Aparecida Bissi, 49 anos, já se conformou com o fim do ano magro pelo qual vai passar. Na sexta-feira pela manhã, ela dirigiu-se ao setor de Penhores da Caixa Econômica Federal, onde mantém uma quantia em objetos que nem mesmo sabe. ''Olha, não sei quanto é que estou devendo ao todo, mas esse ano não vou ter Natal'', resigna-se. A situação dela é a mesma de muitos londrinenses, atolados em dívidas, e sem conseguir sair do sufoco.
Dona Maria foi à Caixa para renegociar as dívidas. Recebeu um comunicado sobre o próximo leilão de jóias, que vai ocorrer no dia 18. Não quer perder os objetos cuja beleza tanto aprecia, e que tiveram que ser penhorados por total falta de condições financeiras. O marido é doente dos pulmões e dos rins, e ganha uma aposentadoria de R$ 300,00. A mulher ainda consegue um dinheirinho extra costurando. Mas o esforço não evitou que todo o décimo terceiro salário fosse utilizado para pagar as dívidas do cartão de crédito.
As dívidas se acumulam nas farmácias. Só com os remédios, são gastos R$ 135,00 a cada mês. A situação só não é mais difícil porque os cinco filhos da dona de casa já estão casados, e têm sua própria vida. ''Não tenho mais de R$ 1 mil em dívidas, mas para um casal que ganha 3 salários mínimos por mês, a coisa fica muito difícil'', desabafa.
O penhor da Caixa não exige avalista e não faz pesquisa cadastral dos seus clientes. Chegando perto do Natal, o movimento aumenta. ''Faltando alguns dias para o Natal é que o pessoal percebe que está faltando dinheiro, e o setor acaba ficando cheio'', relata o gerente Lauro Schaffhauser Filho. Muita gente também usa o 13º para resgatar jóias e relógios em ouro, platina, diamantes e pérolas penhoradas. Ele também lembra que a facilidade de obtenção do empréstimo, que tem taxas entre 2,95% e 3,50% ao mês, também é atrativa.
Quem corre atrás de empréstimos de terceiros, aí com juros ainda maiores, aí mesmo não escapa do terror. Na semana passada, o desespero levou o vendedor autônomo Valdir Jesuino Alves, 41 anos, a adotar uma estratégia radical: anunciou nos classificados da Folha de Londrina a necessidade de dinheiro. No anúncio, pedia uma doação ou empréstimo de R$ 3 mil.
Recebeu várias ligações. A maioria delas eram palavras de apoio. Outras geraram até algumas oportunidades. ''Um médico me propôs a venda de produtos naturais, vou ver se consigo melhorar minha situação com o negócio'', relatou na quinta-feira, ao mostrar pilhas de contas em atraso. As dívidas se acumulam com bancos, familiares e com terceiros.
''Cheguei a uma situação que não dá mais para contornar sem ajuda. Já peguei dinheiro adiantado com o patrão, e cheques de amigos. Cheguei ao fundo, recebo pressão o tempo inteiro, e estou precisando de oportunidades para sair do buraco'', relata, angustiado. Ele diz que o salário de R$ 400,00 não dá nem para o gasto. Tentou conseguir emprego em lojas, mas afirma que, com a idade, não tem conseguido emprego formal. ''Estou atrás de um emprego à noite, mas a idade já atrapalha. Se conseguir, acho que só informal'', imagina o vendedor.


