Maria Lucia Victor Barbosa
Encerrou-se dia 17 deste, em Cuba, a 9ª Conferência Ibero-Americana, e é de se perguntar o que acrescentou tal encontro para os cubanos e demais povos latino-americanos, ou mesmo para Portugal e Espanha, representados respectivamente pelo presidente Jorge Sampaio e pelo rei Juan Carlos. Afinal, o que foram fazer tantos chefes de Estado e um monarca na Ilha caribenha, que há 40 anos vive sob o jugo de um tirano, asfixiada na pobreza e na opressão? A pergunta fica sem resposta, a não ser que se diga que a revoada de líderes para Havana significou algum interesse turístico por parte dos mesmos.
Ao final do encontro com Fidel Castro – que placidamente alertou os participantes da política espetáculo sobre ‘‘a impossível tarefa de persuadir Cuba a abandonar os caminhos da revolução e do socialismo’’ – todos assinaram juntamente com o Comandante Jefe a Declaração de Havana, onde renovaram o compromisso de ‘‘fortalecer as instituições democráticas, o pluralismo político, o estado de direito, e o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, incluído o direito ao desenvolvimento’’, aspectos, diga-se de passagem, em que a América Latina como um todo nunca foi muito forte.
Essa encenação possivelmente faz pasmar o cidadão comum. Perplexo, ele observa a arte da política, onde a ilusão é o elemento mais forte. Mas com certeza segue a grande maioria, aceitando as farsas do poder com a naturalidade e a necessidade de ter algo em que acreditar. E a Declaração de Havana, pelo contraste que encerra com relação à trágica realidade que prevalece em Cuba, é a flagrante prova de que Hitler tinha razão ao afirmar que, quanto maior a mentira mais o povo nela acredita.
Ressalve-se que dos 23 chefes de Estado convidados para o tropical evento, cinco não compareceram, demonstrando deste modo rara coerência. Foram eles, os presidentes da Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Chile e Argentina. Os três primeiros assim procederam como forma de repúdio à ausência de democracia em Cuba; e os dois últimos, como protesto contra a Espanha pelas iniciativas do juiz Baltazar Garzón, que pediu a extradição de Augusto Pinochet e, recentemente, de membros das juntas militares argentinas. Em ambos os casos, o juiz espanhol alegou que houve crimes contra a humanidade, o que não impediu o rei Juan Carlos de referendar com sua presença em Havana, as violações de direitos humanos que há 40 anos vem cometendo o ditador Fidel Castro.
De todo modo, a 9ª Conferência Ibero-Americana reforça em Cuba o poder de Castro, e na América Latina sua aura de prestígio. É como se El Comandante restaurasse de algum modo a tradição autoritária tão cara e entranhada nas veias latinas, mantendo viva a mística do caudilho. Ao mesmo tempo, Fidel ainda simboliza a luta contra os Estados Unidos, país que é a grande dor de cotovelo destas plagas por ter dado certo, enquanto amargaram e amargam fracassos as sociedades desiguais e subdesenvolvidas de origem espanhola e portuguesa.
Dentro desta ótica, a única que pode explicar tanta admiração em relação ao único e persistente ditador latino-americano, percebe-se que a reunião de Cuba serviu menos para defender a democracia e os direitos humanos, impossíveis de serem concretizados sob o domínio de um ditador, e mais para promover as costumeiras e estéreis queixas e lamentações contra os Estados Unidos, a globalização e o sistema financeiro internacional.
Portanto, houve algo de defasado, atrasado e melancólico na reunião de Cuba, onde foi sinalizada a recusa da América Latina de deixar o passado às vésperas do novo milênio.
Mas enquanto em Cuba seguiam animadas as conversas e os passeios na Velha Havana, fatos aconteciam no Brasil confirmando que não somos muito diferentes dos demais países latino-americanos, em que pesem nossas especificidades enquanto povo. Há entre nós um vezo autoritário e uma determinação em restaurar o passado que se torna nítido em certas organizações, e um dos exemplos que se pode dar neste sentido é o Movimento dos Sem-Terra (MST).
Já escrevi repetidas vezes que esse movimento possui uma ideologia ancorada em credos ultrapassados de esquerda. Concretamente, ele se utiliza da violência nas terras que invade, mas nenhum obstáculo tolhe suas ações, pois paira acima da lei. Os que dele participam vão na esteira não só da necessidade mas muito mais da ambição relativa à propriedade. Porém, jamais se moveriam se não houvesse líderes para movimentá-los e organizá-los. E tais líderes, que encontram na necessidade e na ambição a matéria-prima necessária para construir a sociedade que lhes interessa, são bastante habilidosos no sentido de minar a sociedade que não lhes convêm.
Assim, para obter os resultados desejados, o MST não só acelera a escalada da violência no campo, como achincalha o poder existente. No Paraná, integrantes do MST estão acampados há mais de cinco meses diante do Palácio do Iguaçu, num ostensivo desafio ao governo do Paraná. Mas agora foram além. O acampamento de com-terra (todos já estão assentados) diante da fazenda do presidente da República, em Buritis (MG), é o maior e mais ostensivo ato de força e ao mesmo tempo de deboche, que militantes do MST já protagonizaram. Impunes, eles exigem que o Incra vá até eles para lhes dar dinheiro. Obediente, o Incra vai. Saqueiam um caminhão de adubo e sementes que chega à fazenda, e a polícia, que impassível observa, parece dizer: ‘‘Vão adiante, companheiros, nós estamos aqui para garantir a invasão e os saques’’.
Sem dúvida, esta é a mais cabal demonstração não de democracia, mas de anarquia que já houve no Brasil. Ou o governo toma as medidas cabíveis ou em breve teremos nosso Fidel Castro à brasileira. Lembremos, porém, que o regime que existe em Cuba não é nada agradável de se viver.

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