Encontro com Riobaldo - Leonardo Ferrari
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de novembro de 1998
Leonardo Ferrari 
Em plena tarde de domingo, encontro meu amigo Riobaldo passeando na Rua XV. Desde que ficou famoso através de João Guimarães Rosa nas páginas de Grande Sertão: Veredas, não conversávamos tanto tempo sobre a crise atual. Desta conversa extraí três conclusões. Fui logo perguntando se ele já estava apertando o cinto diante do novo pacote econômico. Viver é muito perigoso, respondeu. Às vezes era difícil entender suas respostas, tendo em vista milhares de possibilidades de interpretação contidas em suas pequenas frases. Quando contei a ele os recentes fatos acontecidos em nossa Cidade Industrial, mais de 800 demissões na Philip Morris, mais de 60 na Volvo, férias coletivas em andamento, redução da jornada na Chrysler, ouvi: Explico ao senhor: tudo é e não é... A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. Um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. Por que o governo não cuida?! Ah, eu sei que não é possível. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente - dá susto saber - e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito. Neste mundo tem maus e bons - todo grau de pessoa. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!.
Achei bonito isso. Nas empresas estamos sempre escorregando. Todo começo de um negócio, seja ele pequeno, médio ou grande, visa a realização de um desejo (do dono ou de uma equipe inteira). É quando alguém se separa de um todo (um grande grupo) e resolve começar algo próprio (uma empresa, por exemplo). Esse desejo pode ter vários nomes: encantar certos clientes, sobreviver no mercado, obter um nome de credibilidade, ser o mais barato, ser o melhor, ser o exclusivo, enfim, ser algo para alguém e obter algo em troca disto. Há uma pergunta que todos nós já fizemos e que Caetano musicou: existir, a que será que se destina? É possível responder como fez a Philip Morris: existimos para vender aos russos. Vejam que nesta frase já está de saída o presente e o futuro desta organização. Se russo não houver, a coisa fica ruça! O mesmo se aplica ao pequeno padeiro que abriu seu negócio ali na esquina: existo para vender a esta rua (ou a este bairro). Um ano depois começam as obras de um grande, gigante hipermercado situado a uma quadra da padaria. O que acontecerá? Nesse caso não foram os clientes que sumiram, mas foram os concorrentes que apareceram. Tem mais gente com o mesmo desejo.
Riobaldo apenas balançou a cabeça diante de meu raciocínio e ponderou: O senhor...Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Pois é: os clientes, as empresas, as pessoas que fazem estas empresas, empresários e empregados, não estão sempre iguais. O que fazer quando a desigualdade se manifesta? Quando o desafinamento toma conta do ambiente? Quando começamos a perder dinheiro? Retornar à pergunta inicial faz muito bem à saúde: por que existimos no mercado? O que queremos da vida? Qual o sentido deste negócio? Primeira conclusão: um bom caminho é começar a transformar pontos finais em pontos de interrogação. Se tudo é e não é, como diz Riobaldo, então nossas certezas merecem pelo menos um será que é mesmo? no final de cada afirmação.
Vejo tantas certezas e pensamentos únicos espalhados por aí que me assusto: basta folhear a última Exame ou ler três recentes livros sobre gestão empresarial para ficar boquiaberto. São receitas prontas para serem aplicadas a qualquer tipo de paciente, de qualquer idade! Os depoimentos de gente de sucesso fazem corar: existem super-homens e não sabíamos. Riobaldo me pediu calma, um pouco de paciência e arremedou: Só aos poucos é que o escuro é claro. Segunda conclusão: vamos responder às perguntas. Uma das melhores definições que já encontrei sobre decisão gerencial é a que diz o seguinte: decidir é encontrar respostas para certas perguntas. Toda decisão já é uma resposta. Que por sua vez vai gerar novas perguntas. Por exemplo: será que a decisão de demitir é o único caminho? Será que a decisão de mudar de bairro é a única saída? A verdade é que vivemos em um mundo onde aprendemos que só existe uma única resposta certa (adendo: quando se começa a trabalhar ouve-se que a resposta certa é patrimônio de quem está acima na organização, ou seja, do chefe! E aqui nasce um grande problema gerencial: a esperomania - vamos esperar que o chefe decida, vamos esperar que ele volte de viagem, vamos esperar...). Riobaldo sorriu e cantou: Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total Aumentar a cabeça! No mundo há muitas respostas certas. Para resolver o problema há muitos caminhos, há muitas saídas. Por que de repente se encurralar em uma só saída? Que bloqueio está operando aí?
Terceira conclusão: vivemos (e aqui me refiro tanto a empresários como a empregados) em um grande paradoxo: por um lado a necessidade de encantar permanentemente o cliente, por outro lado a obrigação de reduzir constantemente os custos e, por fim, a busca incessável da melhor rentabilidade ao dono ou acionista. Equilibrar essa equação de três variáveis chama-se competitividade. Ser competitivo é obter resultados nestas três frentes. De nada adianta planejar despesas sem fontes de receita. Alguém sempre paga! Não existe almoço grátis. Pedi a Riobaldo um conselho para melhor equilibrar isso. Ele olhou muito sério para mim, apontou para o chão e disse: Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem.
Antes de nos despedirmos, perguntei com cuidado se ele ainda pensava muito em Diadorim. Com lágrimas nos olhos, sussurrou: Diadorim é a minha neblina. Chovia neste instante em Curitiba. Mas um pequeno raio de sol já começava a aparecer no meio das nuvens.
- LEONARDO FERRARI é Psicólogo clínico, psicanalista e consultor de empresas.
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