O papa João Paulo II, além de pop, é místico. Como líder do catolicismo, religião que tem aproximadamente 1 bilhão de adeptos em todo o planeta, ele age como se fosse um daqueles fiéis que: a) Acham que todo sofrimento é um dom divino; b) As dores, os dissabores, as desventuras vêm como compensação para alguma dádiva divina; c) Poucos são os escolhidos para viver um martírio.
João Paulo II tem especial admiração por um mártir polonês, São Estanislau - assassinado no altar de uma igreja da Cracóvia há mais de nove séculos. Ele o põe num patamar apenas pouco abaixo de onde estariam Cristo, Maria e os apóstolos. Tem razões pessoais para isso.
Mas os brasileiros, a partir desta semana, devem começar - mais que nunca - a pensar como o papa. Por motivos políticos e sociais. ‘‘O principal problema é simples’’, disse Fernando Henrique, no discurso do Itamaraty, na semana passada. Ele acha que o Estado não tem sido capaz de viver no limite de seus próprios meios e, por isso, não cumpre seu papel. Simples? Não parece.
No mesmo discurso, o presidente desfiou, corajosamente, um rosário de medidas que irá adotar no seu confirmado segundo mandato. De tabela, deixou subentendido outro rosário de sacrifícios que iremos enfrentar. Antes, havia dito que a sociedade quer que o governo faça muitas coisas, mas nem sempre fornece os recursos suficientes (apesar de termos uma das cargas tributárias mais injustas e pesadas do planeta).
Tradução: preparem-se e tenham muita fé. Esta geração é a escolhida para sofrer as dores e as desventuras de administrações equivocadas, do avanço da globalização, da ‘‘falta de escrúpulo’’ dos especuladores, das crises das finanças asiáticas. Temos que pagar mais impostos para salvar o País (e comprar, consequentemente, uma vaguinha no céu?). Façamos isso. Agradeçamos, aliás, por termos um pastor que sabe o caminho a seguir e, melhor, que está disposto a nos guiar.
O presidente Fernando Henrique pareceu, pelo tom de voz e postura, autoconfiante. Não pediu que jejuássemos, mas as pesquisas mostraram, antes do pleito, que o brasileiro começa a pensar e a agir assim: tais dissabores são necessários para a obtenção da estabilidade do real, a eliminação do déficit público, a reestruturação da base do emprego. Podem contar conosco. Faremos nossa parte.
O mundo também nos achou inteligentes depois da reação governamental: jornais como ‘‘The New York Times’’ e ‘‘The Washington Post’’, que costumam nos ignorar, dedicaram espaços nas suas edições nunca antes dados (a não ser em tragédias como a chacina de Vigário Geral ou incêndios na Amazônia). E tome elogios. ‘‘O Brasil se recupera rápido de iminência de colapso econômico’’, disse um jornalista do NYT. E todos os jornais dos Estados Unidos publicaram - e aplaudiram - a vitória de Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno.
Por que tanta preocupação com o nosso país? Simples: 21% da produção americana para exportação é consumida na América Latina. E somos o alicerce da economia regional. Se ela cair, com certeza arrasta os outros países. Os principais bancos ianques têm US$ 24 bilhões emprestados ao Brasil. Somente no primeiro semestre deste ano, o Brasil mandou para os Estados Unidos US$ 7,5 bilhões - por conta de importações. Alguém tem que zelar por isso.
- RENATO FERRAZ é jornalista em Brasília

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