Empresário: um herói brasileiro
Cláudio Slaviero
Ser empresário no Brasil é hoje um grande desafio. Empresário é aquele que empreende, que cria uma empresa com o intuito de oferecer produtos e serviços, criar empregos e gerar riquezas. Empreender faz parte da natureza do ser humano, que sempre busca o melhor para si e sua família. E criar uma empresa vem de encontro a esse desejo de crescer, de ser independente e auto-suficiente.
Para ser empresário é preciso ser muito arrojado e corajoso. Hoje, ser empresário é quase um ato heróico, principalmente no Brasil, onde a atividade empresarial é uma tarefa árdua e muito arriscada. Aliás, ser empresário no Brasil é mais arriscado que aplicar na Bolsa de Valores.
A abertura de uma empresa já requer dose especial de paciência e trabalho. Fechar uma empresa que por questões mercadológicas não deu certo é ainda mais difícil. Em alguns casos, essa missão é quase impossível, pois as exigências são tantas que se leva até cinco anos para se dar baixa numa empresa.
Mas é depois da abertura e constituição da empresa que a epopéia tem início. O empresário investe o capital, recruta pessoal, estrutura a empresa, prospecta clientes e coloca seu produto ou serviço no mercado. Feito isso, aguente firme as consequências!
Os dias de tranquilidade terminam. Quem embarca nessa aventura não tem mais hora para chegar em casa, perde domingos e feriados e fica 24 horas por dia ligado em seu negócio. Privar-se da companhia da família em constantes viagens e intermináveis reuniões passa a fazer parte do seu dia-a-dia.
A preocupação com os produtos, clientes e empregados toma conta da cabeça. Negociações com sindicatos e participação em entidades de classe tomam o pouco tempo que lhe resta. E se você tem um sócio, toda essa situação fica ainda mais complicada. O resultado de tudo isso é, com raras exceções, o estresse, a úlcera e até o infarto. Gostou?
Mesmo assim, o verdadeiro empresário supera essas e outras dificuldades e revela constante disposição em correr riscos.
Ser empresário no Brasil é navegar em um mar revolto, sem leme e sem a luz do farol para se orientar. Nunca se sabe o dia de amanhã. São raras as projeções e planejamentos que dão certo, mesmo após o Plano Real. O empresário brasileiro continua completamente ao sabor das decisões políticas e do humor governamental. Afinal, aumenta-se e cria-se impostos sem perguntar ao setor produtivo qual será o impacto disso em suas atividades. E o que é pior, muitas vezes tais medidas são adotadas ao arrepio da lei.
O governo aumenta absurdamente as tarifas de energia, combustíveis, telecomunicações e outras, mas impede que esses custos sejam repassados aos preços de mercadorias e serviços para que o processo inflacionário continue artificialmente controlado. E esses custos acabam sendo absorvidos pelos empresários, que precisam manter seus produtos competitivos num mercado formado em sua maioria pelos trabalhadores, que também não têm seus salários reajustados na mesma proporção dos aumentos das tarifas públicas. E é o empresário que ganha a fama de explorador!
Além disso, ser empresário no Brasil é suprir as demandas sociais que deveriam ser atendidas pelo governo com os recursos arrecadados pelos impostos pagos pelas empresas. Empresário brasileiro contribui e ajuda na manutenção de creches, asilos, hospitais e escolas. Empresário também participa de programas de atendimento aos meninos de rua, viciados e drogados. E, além do salário pago aos funcionários, minimiza as necessidades de sua equipe com cesta-básica, vale transporte, tíquete-refeição e convênios diversos, entre outros benefícios.
A carga social é muito alta e ninguém deve ser louco de pegar dinheiro emprestado para fazer frente a essas despesas. Os juros cobrados pelos bancos brasileiros são os mais altos do mundo e não existe atividade que remunere taxas tão elevadas.
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas e de todos os esforços para minimizar o drama social brasileiro, empresário ainda é malvisto e sofre pressões de todos os lados. No Brasil, infelizmente, empresário é visto como explorador pelos empregados, sonegador pelo governo, usurpador pelos políticos e ganancioso pela sociedade. Por quê?
É crime gerar lucro? Lucro é pecado? Somos todos empresários: padeiro, médico, lojista, agricultor, advogado, micro, pequeno e grande industrial... Riqueza gera riqueza! Pobreza gera pobreza.
Portanto, é preciso saber separar o joio do trigo para valorizar esses heróis brasileiros. Refiro-me ao empresário sério, honesto, trabalhador e idealista, que confia no seu país apesar dos percalços. Aos pseudo-empresários, que especulam, exploram, enganam e sonegam, todo o rigor da lei e todas as críticas públicas.
Está na hora, sim, de o Brasil respeitar mais aqueles que colocam em risco seus investimentos, geram empregos e riquezas, ajudam em obras assistenciais e compartilham lucro. O País tem que valorizar esses empreendedores, sempre acusados de não enxergar além do próprio umbigo.
Temos que valorizar esses empresários que nos últimos 40 anos já passaram por oito planos econômicos, inflação de mais de 2.000% ao ano, ditadura, altas cargas tributárias e sociais, leis trabalhistas retrógradas, CPMF e outras mazelas.
E o empresário brasileiro ainda é obrigado a engolir os grandes incentivos dados pelos governos federal e estaduais às empresas estrangeiras, enquanto faltam linhas de crédito para capitalização e crescimento das empresas brasileiras.
Talvez tenhamos que aprender algo de novo com os caminhoneiros, metalúrgicos e sem-terra. Donos de supermercados, postos de gasolina, farmácias e outros estabelecimentos comerciais poderiam fechar suas portas por vários dias, em protesto contra os erros da política econômica brasileira. Talvez, assim, os empresários seriam chamados a negociar, o governo faria concessões e a sociedade respeitaria essa categoria que, apesar dos pesares, ainda se orgulha de ser brasileira.
- CLÁUDIO SLAVIERO é empresário em Curitiba e vice-presidente da Associação Comercial do Paraná

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