Empresário é ousado mas Governo atrapalha muito
Está certo o presidente Lula quando diz que ''Governo não existe para atrapalhar e para administrar empresas mas para tomar decisões estratégicas''. Mas talvez nem saiba que o Governo atrapalha, e bastante, e não é tão pródigo em decisões estratégicas que favoreçam as fontes de produção. Os discursos são sempre mais brilhantes que a realidade, e se o presidente quer que os empresários sejam ''mais ousados e tinhosos'' em seus negócios - como disse em Telêmaco Borba - sabe que precisaria baixar as alíquotas dos impostos, eliminar a burocracia emperradora e iniciar uma política de diminuição dos juros.
O vice-presidente José Alencar, empresário experimentado e político de posições seguras, cansou de condenar os juros altos praticados no Brasil (e que também induzem o comércio a fazer o mesmo nas vendas pelo crediário), mas Lula e a equipe econômica fizeram ouvidos moucos às suas falas.
A ousadia é um dos segredos do desenvolvimento, mas o Governo precisa ser parceiro nesse projeto e contribuir com a parte que lhe cabe. E o que lhe compete é diminuir a carga tributária e rever a questão do custo do dinheiro para quem tem de operar com o sistema financeiro. O Brasil tem credibilidade e é um atrativo para investimentos, nacionais e estrangeiros, mas quem menos coopera é o Governo, pelas razões apontadas. O pesado encargo social sobre a folha de pagamento dos empregados é um entrave para a causa do emprego, mas o Tesouro não abre mão da polpuda receita. Recolher impostos é necessário - ou o Governo não cumpriria seus compromissos - mas o que revolta a população é o esbanjamento, o peso exagerado da máquina pública e a corrupção. O Governo federal detém mais de 60% de toda a tributação nacional, então converte-se em patrão e gestor de grande parcela do dinheiro, apesar do discurso presidencial de que ''o Governo não existe para administrar empresas''. Outra tarefa do âmbito governamental é melhorar a legislação trabalhista (inclusive com adequações para as relações de trabalho no campo), e se o Congresso não se move, o próprio Executivo deveria excitar a questão.
Os governantes - e Lula principalmente, que se empolga com as próprias palavras - ficam no discurso, sem saber que a realidade do Brasil ''aqui embaixo'' é outra. Nos eventos a que comparece o presidente da República deveria mais ouvir do que falar e assim saber o que os empresários e o povo têm a dizer.





