Empresa a serviço das pessoas
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de abril de 2017
Luís Miguel Luzio dos Santos 
A cultura brasileira é reconhecidamente dominada pelo autoritarismo, individualismo e hierarquia. Isso se reflete nas relações sociais, nas estruturas políticas, no universo empresarial e nos modelos de gestão dominantes. Os trabalhadores ainda são vistos como meros ferramentais, peças de uma engrenagem que lhes é alheia, numa relação dominador-dominado, em que aflora desconfiança, submissão e alienação. A participação é, na maioria dos casos, simples retórica em que se substitui o termo empregado por colaborador numa mudança estética que pouco ou nada altera a realidade. Predomina o mito da superioridade e o medo da perda de poder, o que leva a desprezar o incalculável potencial humano.
A gestão participativa apresenta-se como forma de desenvolver a cooperação e o comprometimento mútuo, promover a autonomia e a responsabilidade e fundamenta-se em três pilares:
a) transparência: todos os membros da organização devem ter acesso às informações da empresa e que os impactam direta ou indiretamente;
b) participação nas decisões: segundo a lógica de que várias cabeças pensam melhor do que uma só;
c) participação nos resultados: por meio de distribuição de lucros ou participação acionária, algo regulamentado pela Lei 10.101/00, de 19/12/00.
Seguindo ideais participativos, no início dos anos de 1960 nasceu a Promon, empresa de construção civil paulistana que adotou um modelo de gestão em que todos os funcionários são convidados a se tornarem seus coproprietários. Hoje a organização conta com aproximadamente 1,8 mil trabalhadores, 80% destes acionistas, sendo que nenhum deles pode concentrar mais de 5% de ações, o que impede a concentração de capital.
O documento que norteia toda a filosofia da Promon apresenta os seguintes destaques:
a) "A Promon é o resultado da conjugação de esforços de indivíduos com o objetivo de criar condições para sua realização profissional e humana;
b) A participação na comunidade implica a disposição de renunciar a interesses individuais em nome do interesse do grupo;
c) A participação na administração da empresa deverá ser estimulada e a busca do consenso deverá estar sempre presente na tomada de decisões e no exercício da autoridade;
d) Os profissionais da Promon, e somente eles, têm acesso à participação no capital da empresa".
e) O lucro é apenas um meio para a consecução de seus fins, o fundamento principal é o desenvolvimento e bem-estar dos seus trabalhadores e da sociedade".
O modelo acionário da Promon apoia-se na ideia de que os frutos devem ser compartilhados por aqueles que os plantaram. A participação dos trabalhadores no capital da empresa é estimulada e poderá se efetivar após um período de dois anos de permanência na organização. Porém, os papéis de acionista e de trabalhador são desvinculados para efeito de definição da remuneração, participação nos lucros e qualquer outro benefício que deverá ser estendido a todos, acionistas ou funcionários. A diretoria é eleita democraticamente pelos acionistas-trabalhadores por um período pré-definido, de forma a estimular novas lideranças.
Busca-se superar a visão tradicional de que trabalho é um castigo que se paga para poder viver. A Promon acredita que o envolvimento dos trabalhadores é o melhor caminho para a motivação, para o desenvolvimento das pessoas, da empresa e para a construção de uma sociedade mais justa, apoiada em valores como cooperação, partilha, solidariedade e propósito. Suas práticas incomuns de gestão não reduzem o seu vigor econômico, considerando ser uma das maiores empresas do setor, além de eleita como a melhor empresa da década para se trabalhar no Brasil.


