Emprego urgente
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de abril de 1997
Antônio Delfim Netto 
Uma das características mais interessantes (e trágicas) do atual governo é a capacidade de vender a idéia de que está conduzindo enormes transformações que nos garantirão um futuro radioso, provavelmente no terceiro mandato do atual Presidente...
Um exemplo que os leitores devem se lembrar com alguma facilidade é o que diz a respeito ao comércio exterior. Desde o início do Plano Real ficara evidente que a sobrevalorização cambial era um erro técnico que impediria a expansão das exportações, bloqueando o crescimento da economia com graves implicações na esfera social. O governo ignorou o problema e menosprezou as advertências durante dois anos. Mesmo diante da evolução dos números do comércio exterior, preferiu atribuir a alerta à uma tendência masoquista dos críticos, todos fracassomaníacos. Foi mais além, proclamando as virtudes do déficit nas contas do comércio, o que um dia deverá ser entendido como uma das mais infelizes proclamações do fundamentalismo delirante que se apossou do Banco Central. Uma postura dessa natureza só pode ser baseada na crença de que sempre haverá poupança externa disponível para funcionar o déficit brasileiro. No caso, a poupança externa está servindo para cobrir o déficit fiscal, financiando o consumo excessivo do governo, o que obviamente não é sustentável.
O agravamento do desequilíbrio nas contas do comércio exterior no primeiro trimestre do ano já produziu o primeiro abalo, levando o governo a introduzir restrições às importações. Significa que acordou para o problema mas ainda sem coragem e competência para enfrentar o núcleo da questão, que reside no câmbio.
Toda essa discussão poderia parecer uma conversa tediosa entre especialistas, não fossem as evidências de agravamento de uma questão mais dramática: o desemprego. Desde o início do Plano Real o governo tem tido dificuldade em entender que a sobrevalorização cambial impôs restrições ao crescimento econômico e, logicamente, ao aumento da oferta de empregos. O setor exportador é, hoje, o menos rentável da economia. Deixou de produzir empregos e dólares que equilibrariam a balança. Os investimentos se inviabilizam, devido às altas taxas de juros que somos obrigados a manter pra atrair a poupança externa, que está vindo preferencialmente para comprar nosso mercado interno e não para investir nos setores que poderiam aumentar a produção e a oferta de empregos.
Diante dessa realidade, o governo se defende com a falácia de que não há alternativa, porque estamos passando por um profundo processo de transformações na estrutura econômica brasileira e temos que nos acomodar aos ditames da globalização a qual, por sua vez, pressupõe o alargamento do desemprego estrutural.
Neste século, a economia brasileira foi uma das que mais cresceram no mundo ocidental, enquanto realizava as tansformações estruturais cabiveis, resolvendo os problemas que apareciam e, não aguardando pacientemente que o mundo a reformasse! Na atual postura, enquanto esperamos que o mundo nos globalize, permitimos a destruição de setores inteiros de nossa agricultura, com a consequente disponibilidade de milhões de empregos no campo. Nessa espera, nos conformamos em conviver com o desemprego de 12% da população economicamente ativa na grande São Paulo, a mais dinâmica região industrial do país.
Se o governo ignora as críticas e despreza as advertências, talvez ele tenha uma demonstração explícita do problema com a chegada da marcha dos desempregados do campo a Brasília, na semana que se inicia. Eles encontrarão a capital federal com 15% da sua força de trabalho desempregada, com a cruel circunstância que o desemprego atinge 25% da população na faixa de 18 a 25 anos de idade.


